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sexta-feira, 18 de março de 2011

Há que ter calma ao dar o corpo e a alma



Numa altura em que se fala muito de Skin Parties, nas quais e ao que parece, a malta mais nova não se coíbe de fazer figuras que roçam a pornografia, os tempos são realmente de mudança drástica que rasgam transversalmente o anonimato.

Não o anonimato total e enclausurado, mas o normal, aquele que se fecha dentro da nossa casa, conversas, sonhos, palavras, enfim, da tal vida íntima.
Muitos de nós, quase todos, gostamos dos nossos segredos, mesmo tendo uma conta no facebook onde publicamos algumas fotografias e desabafos. Mas daí a mostrar TUDO, há uma grande diferença. E, pelo que parece, a fronteira já não existe para a geração que ainda nem atingiu a maioridade.

Longe de mim vir para aqui criticar miúdos que deviam estar a dormir em casa em vez de mostrar e roçar o corpo até às seis da manhã. Longe de mim sequer tentar conversar com eles e explicar-lhes a noção de urgência, tempo e paciência.

Ainda bem que nasci quando nasci e que tenho a idade presente. Sim, muitas vezes olho para trás e para a frente e sei, de antemão, que já devo ter vivido mais do que irei sobreviver e, mais importante, com muito mais saúde. Mas tive a sorte de ultrapassar a adolescência com tempo, esse mesmo tempo que hoje é consumido com uma tal fúria que, tenho a certeza, vai-lhes fazer muita falta quando, ao chegarem à idade que tenho hoje, olharem para trás e perceberem que fizeram merda.

O facebook e os telemóveis, entre outros, são armas poderosas que se podem voltar contra quem os utiliza. A fotografia ou o vídeo que se colocam online garantem a vergonha social e global de quem foi “apanhado”. A questão da cultura do corpo é tão demente que quase todos os telemóveis dos adolescentes contêm imagens que poderiam ser aceites nas revistas softcore... ou mesmo hardcore. O problema é que estes apetrechos são alvo de cobiça, roubo físico ou digital. E o anonimato, que garante a nossa privacidade, tão importante na nossa existência, está ameaçado de total aniquilação.

Escrevi tudo isto porque me lembro bem das máquinas fotográficas com rolos de 35mm e da angústia que sofríamos até ter nas mãos o filme revelado. Ninguém sabia, nem mesmo quem tirava o boneco, qual seria o resultado e isso era... bom.
Hoje olha-se logo o ecrã, apaga-se ou tira-se outra e ainda se edita dentro ou fora da maquineta. O que ganhámos não compensa o que perdemos.

O mesmo com o telefone. Hoje recusamos ou fingimos não estar disponíveis quando olhamos o número que nos contacta, alguns já com fotografia e tudo. Antigamente tínhamos um telefone preto, sem memória, sem atendedor, sem nada de nada, a não ser a certeza que alguém que conhecia o nosso número nos queria falar. E atendíamos, pois era de bom tom fazê-lo.

Não me venham dizer que sou antiquado, mais a mais porque utilizo o último grito tecnológico em quase tudo.
Só que gosto de manter privado o que só a mim diz respeito.
E acho que o preço a pagar vai ser demasiado elevado.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Dar e baralhar a outra face



Qual é a primeira coisa que nos ocorre quando nos lembramos de um amigo?
Do seu rosto! É ou não é? Só depois vêm o nome, as memórias, as conversas, as aventuras, o estado social, a família dele, o que faz, por onde anda e etc.

O rosto de uma pessoa, ou face (ou cara), é o primeiro dado que memorizamos de alguém. Será devido à memoria visual, o “olho” da nossa mente que cataloga cada experiência visual, que nos lembramos dos rostos das pessoas quando muitas vezes esquecemos o nome das próprias?

A face é, assim, o elemento mais importante para a designação de alguém, logo seguida pelo corpo e pela forma de vestir. Nela encontramos os olhos (que podem ou não ser o espelho da alma), a boca (para a qual olhamos com sentimentos dúbios, que podem ir do prazer de um sorriso encantatório ao interesse pelas palavras proferidas), as rugas, os sinais, a forma e muitos etc..

São, acima de tudo, sinais exteriores. E são estes, quer queiramos quer não, que nos impelem a desejar conhecer certa pessoa em detrimento de outra. A questão da beleza e riqueza interior nunca se coloca num primeiro olhar.

Foi assim que o Mark (com ou sem os associados) concebeu o Facebook: um livro digital de rostos!
No Facebook, valemos pela foto que disponibilizamos no perfil. Podemos escolher outro tipo de imagens, mas terá de ter um teor pessoal, mesmo que seja um herói de banda desenhada, um automóvel, uma figura que admiramos.

O Facebook é, deste modo, um agregador de rostos que nos saciam os sentidos imediatos, logicamente sem contar com os amigos chegados e conhecidos da vida. Os novos contactos dão-se porque se gosta daquela face, dos olhos, do sorriso, do cabelo. É uma espécie de lista telefónica de possibilidades sem limites, mesmo escondidas sob pedidos de “amizade”, quando só se procura o próximo alvo, muito facilitado porque o mundo é um “ó” onde temos sempre um amigo que é amigo desse rosto que queremos conhecer.

Os jovens ainda não entenderam bem como tudo isto funciona e colocam sem pudor variadíssimas fotos de férias, borgas, festas, convívios. Dão, deste modo, todas as informações sobre o seu rosto, corpo, locais de férias, bairros preferidos para as saídas nocturnas, etc.
É só fisgar um e seguir todos os seus passos para, inevitavelmente, chegarmos ao contacto físico.
Há que entender isto, por muito que custe... e tentar aconselhá-los.

Chegamos à conclusão que o Facebook é um embuste, pouco servindo os interesses reais da maior parte dos utilizadores, encurralando-os numa espécie de vertigem social a que é necessário pertencer e, acima de tudo, estar bem vivo e com saúde sob a forma de postagem diária.

O que o Mark deveria ter feito, era um Friendbook. Mas como, se sabemos que o rapaz é um cromo que conhecia o insucesso social, um geek que não fazia parte do grupo dos populares, um freak que acredita que usar chinelos é cool?

Ele nunca pensou na verdadeira amizade, mas sim no voyeurismo puro e duro.

Nada tenho contra o Facebook, pois utilizo-o de formas “normais”: o de realmente contactar amigos que vivem muito longe ou mesmo aqui ao lado, o de reencontrar pessoas há muito desaparecidas da minha vida e promover algumas coisas que faço, profissionais ou autorais.

Portanto, utilizo-o bem mais como Friendbook do que Facebook.   
E isso dá-me alguma paz de espírito, quando habito o terceiro país mais populoso do mundo... e em franco crescimento.

Imaginem um mundo friendbookiano onde, para além dos “likes”, “comments” e “shares”, existissem botões tipo “I miss you”, “Dinner tonight? Bring the gang” ou um simples “see you later”.

‘Bora fazer um como deve ser?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Miscível não é a mesma coisa que misturável



Cada vez que vou a um restaurante, sou obrigado a avisar o empregado que não quero arroz com batata frita e também não quero cenoura ralada na salada mista. E isto acontece na maioria dos estabelecimentos comerciais.

Ó faxavor,  só quero batata frita! E ó faxavor, não quero cenoura ralada.
Mas quer arroz num pratinho à parte?
Mas que coisa... já lhe disse que só quero batata frita!
E a salada, continua a ser mista?
Mas concerteza! Só não quero a cenoura ralada, o resto pode vir tudo!

É complicado não iniciar a refeição com uma indigestão. Os cozinheiros, a não ser nos locais topo de gama e por conseguinte proibitivos, apanharam esta mania da cenoura ralada não se sabe bem onde. Mas não entendem que o sabor da cenoura crua nada tem a ver com a cumplicidade da alface, tomate e cebola, banhadas com azeite e vinagre? Cenoura crua com azeite e vinagre? Experimentem comê-la num pratinho à parte, ó faxavor...

O mesmo se passa com a dupla arroz cozido com batata frita. Só pela forma de confecção, como se junta um cozido a um frito? Por outras palavras, mas porquê e para quê? Só se for para encher o prato, tipo enfarta bruto, e os olhos para quem gosta de travessas a abarrotar. E como o arroz ainda é barato...

Algumas misturas até podem ser excelentes, vamos lá pôr ordem na mesa. E também acompanham na perfeição carnes várias bem grelhadas. O rodízio brasileiro é uma dessas excepções, onde o arroz mistura-se no feijão preto cheio de molho e com farofa por cima. As batatas fritas são o complemento, não o acompanhamento. Por exemplo, eu não como batatas fritas neste caso. Contento-me e aprecio a misturada cozida. Nem aqui junto fritos a cozidos, mas sei que sou dos poucos que rejeita a batata e a banana. Não sei, não combinam comigo. Mas ele há gostos para tudo.

Com a actual crise, é natural que comecemos a comer menos carne e peixe e nos sintamos obrigados a fazer uma alimentação mais cuidada, tipo vegetariana, em que as gramíneas, leguminosas e hortícolas terão grande destaque. Mas já foram a algum restaurante vegan? Não é estranho olhar para os habitués e reparar no seu ar escanzelado e esverdeado ou até acastanhado?
O problema é que são muito capazes de misturar alimentos, como o arroz a lentilhas, feijão frade a grão, que acompanham aquelas coisas sem cheiro e sabor, tipo seitan e tofu. Não é o mesmo problema? Misturar duas opções que deveriam ser apreciadas pelas suas únicas e diferentes características?

Imaginem uma refeição com feijão frade, ovo cozido e uma lata de atum. Não é bom? E não faz bem? Não é equilibrado e de uma saborosa simplicidade? Então porque misturar-lhe lentilhas, tofu ou algas?

Nada tenho contra a comida vegetariana (o mesmo não posso dizer da macrobiótica). Aliás, e confesso, de vez em quando até sabe muito bem. Mas escolhe-lha como alimentação principal, em que todos os dias vou ter que me virar para o empregado e pedir que retire coisas ou separe outras?
Não me parece.
Quando esse dia chegar (com o FMI ou qualquer outra palhaçada), até eu chorarei ao relembrar os pratos cheios de arroz e batata frita.

Mas, por favor, esqueçam lá a cenoura ralada...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma carta a deus ex machina.


Sempre se falou do conceito homem-máquina. As artes e ciências usaram-no a seu bel prazer, desde a arquitectura à pintura, passando pela engenharia à tecnologia.

O cinema abusou dos robots com coração sentimental e dos humanos cibernéticos. A banda desenhada também, desde os vilões aos super-heróis. E é melhor nem pensar no filme "Crash" de David Cronenberg...

Na música existe o eterno “the man machine” dos não menos clássicos Kraftwerk que levaram esse conceito até ao limite, colocando robots a tocar as músicas em pleno palco.

Portanto, a que se deve esta paranóia? Qual o interesse em juntar peças de metal à carne, trocar membros naturais por plástico e pilhas? Já não bastam as ajudas centenárias, como os óculos para quem é pitosga, muleta para os coxos, viagra para os adormecidos? Não! O desejo é ter órgãos novos quando abusámos dos originais. E quem não deseja um fígado por estrear?

Vai daí, debrucei-me sobre a questão, tal como Da Vinci, entre outros, o fez. Não me deixaram ir à morgue para comprar uns corpos sem alma, pois parece que é proibido para a maioria das pessoas. E também me esquivei a ser um serial killer, pois a policia anda de olho em mim desde que escrevi, tempo atrás, que procurava o crime perfeito.
Assim, limitei-me a tirar da caixa o antigo boneco do jogo “O Corpo Humano” e lá comecei a colocar as peças dentro das cavidades apropriadas.

O que descobri foi revelador!
Somos realmente um conjunto mal amanhado de pecinhas, colocadas uma por cima das outras, arrumadas de acordo com um qualquer manual de instruções que, milénios atrás, alguém escreveu e deixou por cá.
E este exercício, para quem montou um PC quando isso foi moda, torna-se realmente esclarecedor.

Ora vejamos: Se o corpo humano é uma caixa vazia (continuando com o conceito do computador), terá de ser vertical em vez de horizontal. Portanto, os portáteis e os novos tablets não são o melhor invólucro.
Continuando: o processador é o cérebro. A RAM, o cerebelo.
Estão a acompanhar-me?
O esqueleto é a motherboard. O disco rígido só poderia ser o coração, porque, geralmente, é o elemento que mais problemas conhece, desde crashes a viroses.
Os pulmões são a fonte de alimentação e o leitor-gravador de Cd/Dvd só podia estar transformado em fígado, pois é o que mais depressa se desgasta e encrava.
O teclado são as mãos, e os braços o cabo que o liga ao PC. O rato são as pernas e pés, pois é o que nos permite "andar" de um lado para o outro. Por sua vez, os olhos são o monitor e os diversos autocolantes e inscrições a laser, as tatuagens.

Para não vos chatear com os restantes elementos, termino com o mais chato, aquele que nos exaspera e a que desejamos dar um pontapé: são os cabos, todos emaranhados e torcidos. E o que temos dentro de nós que é a sua correspondência? Os intestinos!

Então? Continuamos a aceitar que foi algo divino que nos fez à sua semelhança ou concluímos que foi um qualquer engenhocas que era um desarrumado do piorio?

Mas essa nem é a maior questão!
O grande problema é que somos todos... made in China. E isso não é confortável, pelas mais diversas razões.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

sexo



Num dos principais fóruns de think tanks portugueses, um que ainda exige convite para se entrar, está uma gentil rapariga a questionar “o que dizer ou fazer para que os seus posts tenham muitas visitas”.
De início pensei que era um truque para apanhar os mais afoitos numa qualquer teia. Esperei então pelas respostas. Nada. Depois pensei, como a resposta é lógica demais, que todos os membros do clube a sabem bem e não entendem como é que uma donzela pode ser tão ingénua. E acho que é por aqui.
Ao fim de tantos anos nestas andanças da net e dos fóruns e quejandos, todos sabemos que um título para ser famoso, e por conseguinte ser clicado vezes sem conta, tem de conter a palavra sexo. “Sex sells”! E sai reforçado se o autor for do género F.  Sexo escrito por uma donzela é quase sempre sinónimo de um velado convite para se entrar num quarto escuro, onde tudo poderá ser possível, onde os desejos e algumas taras poderão ser correspondidos.
Logicamente que, e dependendo dos canais, o sucesso de um escrito deste género pode conhecer tanta fama que promova a autora a escritora imediata, ou apresentadora de programas televisivos, ou reputada ensaísta ou, ainda, cronista da praça. Vejam-se os vários casos de blogues que passaram a livros, para citar um exemplo. Portanto, há quem pense que é um caminho rápido para subir a escada da fama, sem passar pela meta e receber dois mil escudos (sim, tenho uma versão antiga do Monopólio). Mas essa conclusão é errada.
Tal como afirmámos que era impossível a televisão descer mais baixo após o “big brother”, fomos logo açoitados pelo “bar da tv”, o Mendes como líder contínuo de audiências e demais exemplos que magoa relembrar. E o que temos hoje? A “casa dos segredos” e o tal programa da Fátima que paga as dívidas dos coitados que se prestam à humilhação pública.... mas com um sorriso galhardo na face.
Com o sexo passa-se a mesma coisa: se tivemos um “na cama com” a Alexandra, depois outro de que não me lembro do título com aquela fulana que casa e descasa como eu troco de t-shirt, agora somos confrontados com especiais sérios que relatam os malefícios de uma vida dedicada à actividade sexual, a Sic Radical a mostrar-nos tudo, mas mesmo tudo, antes da meia noite, criticas aos lançamentos (e conteúdo) de títulos em DVD que uma rapariga faz no canal Q, ou o Malato a questionar um jovem católico se existem raparigas que se prostituem por prazer. Ou seja, nunca o sexo desceu tão baixo (evitem relacionar esta frase com o que vos vai na cabeça).
Portanto, se hoje uma senhora quiser escrever ou falar abertamente sobre a causa, será obrigada a encontrar novas soluções para se destacar da concorrência, que é feroz e contínua. Os canais estão abertos, as portas escancaradas. Andamos num vaivém contínuo em busca do santo graal, sabemos tudo sobre o clitóris, prepúcio ou escroto, o bondage é aceite assim como o swing. Então como se destacar das demais?
O meu conselho é simples: keep it clean and simple! Ou seja, escreva no título do post apenas a palavra “Sexo”. Verá, gentil donzela, que muitos lhe irão clicar.
Veja o que vai acontecer com as visitas a este...

domingo, 31 de outubro de 2010

A casa dos gordos que escondem magros segredos



Confesso, e porque tenho uns quilos a mais, dou por mim a ver os episódios dessa telenovela desagradável à vista que é o “The Biggest Looser”. Talvez seja para me sentir melhor na minha pele, pois não sou assim tão vasto, ou para tentar auto-convencer-me que preciso de dieta e ginástica afim de garantir resultados semelhantes.
Estes participantes escondem um segredo: é que odeiam ser gordos, por muito que sejam simpáticos e bem dispostos e que mimem os adversários com profundas declarações de amor, aquando a expulsão de um deles.
Num outro continente, está a decorrer uma telenovela cujos participantes também escondem segredos. Intitulada “A casa dos segredos”, estes são em tudo diferentes dos anteriores, pois em vez de exibirem banha, mostram músculos e tatuagens.
Nada podia ser tão diferente, mas os dois programas/concursos têm um factor comum: todos os intervenientes surgem em trajes menores que exibem a maior parte possível de pele e carne. Mas as coincidências não se ficam por aqui. Em ambos os shows televisivos, a carne que se nos apresenta é ...para canhão.
Os segredos, as manhas, as vigarices e os esquemas, fazem parte dos dois jogos, só que chamam-lhe “estratégia”.
Portanto, malta semi-nua, gorda ou musculada, são os novos estrategas ao Serão, que nos ensinam golpes baixos, sujos, mesquinhos e traiçoeiros, tudo em busca de um prémio monetário na precisa altura em que o dinheiro não abunda em lado algum.
Podemos olhar para os programas e decidir que um é menos mau que o outro. Eu já decidi! Perdi uns 15 minutos a assistir a vários segmentos da casa que esconde segredos, mas continuo a ver, quando me lembro, o programa em que se filma o esforço físico e psicológico. A razão é simples: é que enquanto estes portugueses farão sempre parte da escória e mete nojo da nação, os americanos vão deixar de sê-lo, pois passarão de sapos a príncipes e princesas. 
E, convenhamos, sabemos bem o que chamar aos intervenientes do programa da Júlia, e nunca será um epíteto nobre.

sábado, 20 de março de 2010

cento e trinta e um

Ontem tive que me vestir como as regras impõem, ou seja, socialmente correcto com calças cujo tecido condiz com o casaco. Mesmo assim, recusei a gravata o que é muito moderno e tal. Chegado ao local do convívio, todos me olharam e comentaram "estás tão bem vestido porque é que não te arranjas assim todos os dias?". Ora bolas, será que é difícil as pessoas perceberem que uns jeans e uma camisola são bem mais confortáveis que um fato? E se eu escolhi uma vida "artística", alguma da percentagem teve exactamente a ver com a possibilidade de me vestir como bem quero e não como me obrigariam por contrato ou dress code. Um áparte: o que me rio quando vejo as pessoas sorridentes à sexta-feira por causa da hipótese "casual"...
Mas escrevo isto porque ontem ouvi uma conversa entre alguns presentes, talvez por eu estar de fato, talvez porque pensavam que eu não estava a ouvir. A questão tinha a ver com o bom aspecto de um homem vestido com rigor ao invés de um homem que, como eu, prefere estar mais à vontade e, a meu ver, bem mais catita, moderno e original.
Fiquei atordoado. Então não é que as pessoas pensam que um homem de fato gasta mais dinheiro em roupa que um homem casual? Mas será que é possível estarem assim tão enganadas? Um fato é um fato, pode custar entre 100 a 500 euro. Depois uns sapatos foleiros pretos e de verniz, uma gravata, uma camisa branca e, presumo, umas cuecas e um par de meias. Ora tudo junto e sem poupar muito faz-se por 300 euro. Agora façam as contas a umas levi's (100€), uns Merrell (120€), boxers e meias (50€), cinto de cabedal (50€), uma t-shirt (20€), um casaco leve (150€) e etc. Já é bem mais oneroso e sem entrar em grandes marcas ou luxos. Mas agora é que são elas: um homem usa o mesmo fato uma semana inteira e ninguém aponta isso. Mas um tipo como eu, se surgir dois dias seguidos com o mesmo calçado ou casaco, é olhado com desdém. Portanto a roupa dita casual sai 700% mais cara que um fato que "fica e veste" bem.
Concluindo, o que parece não é.
Certo?

terça-feira, 15 de setembro de 2009

oitenta e nove

Muito se fala sobre o papel da Mulher nos tempos modernos sempre e cada vez mais influenciado pelas revistas, televisões, opiniões, anúncios, ilusões, necessidades, obrigatoriedades, encantos, desalentos, paixões, desamores, paparazos, imagem e imagens, tradições, modernidades, sexo, subtilezas, praias, modas, magreza, idolos, amantes e um nunca acabar de provocações, promoções, festas, alarido, cor rosa e sonhos photoshopianos.
Depois o mundo realkombat ataca esta ilusão com o concreto, as formas, rugas, os descaídos, a idade, gordura, os papos, a tristeza, desilusão, combate, fúria, doenças, maternidade, emprego, cansaço, carreira, "domesticidade", pavor, medos, fobias e os receios de perder, esgotar e ser trocada por um modelo mais novo.
No meio disto tudo estão os homens. Uns parvos ao ponto de acreditarem e seguirem o primeiro formato, outros conscientes que o segundo também não é assim tão mau.
O problema é que os homens ficaram impávidos e serenos a assistir a este endeusamento de uma Mulher que não existe (ou existem poucas) de formas bellucianas, sorrisos foxianos, sensibilidades penelopianas, graciosidades Berryanas e inteligência thurmaniana ou, para conter tudo no mesmo saco, aliar um cruzar de pernas ao QI superior de um alien chamado Stone o que, convenhamos, é uma pedra!
Mas tudo estava bem, pois nós homens gostamos de afirmar que gostamos delas grandes ou médias, deles grandes ou redondos, carnudos ou sensuais, longos ou encaracolados, dela curta ou comprida, dele a ver-se ou escondido, de fio ou body, de odor 5 ou natural, peluda ou pelada, loura ou morena, verdes ou negros, azuis ou castanhos ou, para terminar, cinzentos como eu gosto.
Num repente, tudo mudou graças ao que explanei no primeiro parágrafo. Devido a Bekhams ou Ronaldos e afins, somos neste momento confrontados com a dura realidade do excesso de peso, de pelo, da falta de um dente, de um sorriso menos branco, de um cabelo ao natural ou da falta dele, da roupa de marca x, p t ou ó, da sapatonga, do perfume certo no lugar certo, da forma de estar, de não poder gostar de jogos e desportos tradicionais como o futebol e bilhar e ter que admirar golfe ou poker, de ter o carro da moda como se de uma jóia se tratasse, de Spas, lamas, massagens, ginásticas, de estar sempre impec num mundo de impecs.

O problema é que vejo as senhoras que recusam ser fantoches a admirar este novo mundo em que o homem passa, também ele, a ser um boneco insuflado e falso.
Por um lado há aquelas que desdenham o David ou o Cristiano, pois por muito bons que sejam, são uns cretinos da pior espécie. Por outro somos confrontados pela grande verdade: se mesmo eles que são das barracas conseguem, porque é que tu, ó cota acabado e sisudo, não consegues pelo menos abater essa barriga? Olha que estás aqui estás a ser trocado por um modelo mais novo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

cinquenta e sete

Dias atrás uma jovem senhorita jurava a pés juntos que um homem vestido com um sobretudo em pleno Verão se tinha desnudado à sua frente mostrando-lhe as partes. A jovem estava ainda chocadíssima, mais a mais porque ainda tem uma relação mal resolvida com um apêndice que lhe vai mudar parte da vida. Veio inquirir-me sobre esta pouca vergonha a que, muito sinceramente, não consegui responder. Quando tentei falar do sexo masculino ficou ainda mais perturbada exclamando vários "que nojo! que nojo!" e depois fiquei eu com má fama.

Mulheres... mesmo jovens já nos dão volta à cabeça.

terça-feira, 7 de julho de 2009

quarenta e cinco

Um sorriso franco é algo que encanta. Pode ser traquinas, sexual, amigo, contagiante. É sempre algo que se pega aos demais e recebe sempre outro de volta.
Que capacidade rara e humana esta. Que extraordinários músculos faciais o provocam. Que bonitas rugas de expressão criam na mais bela prancha da vida: uma cara que viu e viveu momentos felizes.

Há outra coisa com quase todas estas capacidades: o bocejo.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

vinte e três

É raro estar doente e nem apanho as gripes invernais. Só tenho, de vez em quando, uma dor de cabeça derivada dos excessos noctívagos. Nessas alturas engulo duas aspirinas e, não sendo tiro e queda, alivia bastante. Aliás, trato quase tudo à lei da aspirina e não me tenho dado mal com essa simplicidade.
Logicamente que vivendo num país angustiado e sobredopado com anseolíticos, nunca tenho em casa medicamentos para atenuar dores mais fortes que as minhas.
Aconteceu isso uns dias atrás quando uma amiga cá pernoitou chorando compulsivamente o final abrupto da sua paixão.
Sem mais palavras perguntei-lhe se queria uma aspirina.
Ela, conhecendo-me esta política na vida, parou de fungar, olhou-me nos olhos, sorriu e gargalhou.
A noite foi menos má a partir daí.

Afinal, a aspirina cura quase tudo.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

um

Houve uma altura em que desejei mudar o mundo. Era puto, queria saír à noite e não me deixavam, guiar sem ter carta, viajar sem guito. Depois alguém disse "muda-te primeiro" e fiquei sem saber o que fazer. Decidi então experimentar drogas. A primeira foi um corpo feminino. Descobria assim uma das poucas razões que me leva a estar vivo, ainda hoje.

As outras são fáceis de enunciar: bom vinho, boa comida, boa dormida, bons objectivos, boa música, bons amigos e boa vida.

Até agora consegui todos e perdi alguns.

Mas o corpo feminino continua a ser a droga que me leva ainda a querer mudar o mundo.