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quarta-feira, 22 de junho de 2011

O arrastanço da desenvoltura vertical


Indissociáveis do Verão, companheiras diárias e noctívagas, de várias cores com fundos lisos ou estampados e, pasme-se, até com salto alto, as chanatas são dos objectos mas democráticos e globais da actualidade.

São usadas por ricos e pobres, homens, mulheres e crianças, novos e velhos, na cidade, praia e campo, enfim, são pau para toda a obra.
Então, porque não gosto delas?

É uma questão que se impõe, esta minha aversão às ditas, pois penso, aliás, tenho a certeza, que não me encontro sozinho. Confesso que tenho dois pares, um típico brasileiro de cor cinzento-mate e outro mais moderno que tem pano para colocar entre os dedos, ao invés de plástico, truque que me foi passado por um amigo que as usa 300 dias por ano.

O meu problema em relação às chanatas é o andar com elas. Não sei como fazê-lo sem arrastar os pés e modificar o passo e a postura. Ao fim de uma hora com as ditas, estou com os gémeos desgraçados e a coluna desfeita. Depois olho em redor e observo a maior parte das senhoras a caminhar sobre elas como se estivessem calçadas ortopedicamente. E todas me dizem que sentem um enorme conforto e que as usariam todos os dias, se lhes fosse possível.

Entretanto, massajo os meus doridos músculos e continuo a achar que estas duas peças de plástico não podem fazer bem à saúde. Esta começa nos pés e a medicina tradicional chinesa, entre outras, aposta forte no conhecimento da planta dos mesmos para tratar maleitas do corpo todo. Ora se sinto, imediatamente ao segundo passo, que faço um esforço danado para conseguir dar o terceiro em frente, arqueando o pé e apertando os dedos para que o calçado não me escape, a coisa não pode ser boa. E o corpo, através dos olhos, procura uma solução imediata, seja perceber que o chão pisado pode ser tomado descalço, ou encontrar um par de sapatos dignos desse nome.

Depois há outra coisa que me salta aos olhos e que, realmente, abomino: é ter de ver as unhas pintadas dos pés. Mas que raio... porque é que as pessoas pintam as unhas e ainda por cima dos pés? E aquelas que fazem pendant com a mala e acessórios? Vá-se lá compreender a noção de estética...

Porém, existe uma coisa pior que a chanata: chamam-lhe sandálias (ou sandalochas) e, dentro do género, um modelo específico que não tem biqueira e mostra os dedos dos pés. MEU DEUS! Ainda hoje tenho suores frios quando relembro os primeiros cámones que aterraram no parque de campismo que destruiu para sempre a “minha” praia algarvia. Todos sabíamos que pernoitavam no dito parque, porque as peúgas brancas que traziam calçadas estavam pintadas da cor de ferrugem, exactamente aquele castanho avermelhado das “estradas” de terra desses malditos parques.

E uma questão que nunca consegui resolver passa exactamente por isto: porque carga de água se usam peúgas com sandálias, especificamente aquelas todas abertas e sem frente? Sempre pensei que as aberturas servissem para arejar os pés, mas isso deixa de fazer sentido com a utilização de meias... é ou não é?
Só por causa disto, e porque é impossível usar meias, estou disposto a oferecer às chanatas mais uma hipótese. É que do mal o menos... mas, por favor, não pintem as unhas lá de baixo.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Repto de Alarme aos Progenitores




Hoje acompanhei a minha senhora à escola de uma das pirralhas, a fim de discutir uma série de situações que nem o ME soube esclarecer previamente ao telefone.
A presença dos três directores máximos da escola, fez-nos logo perceber que a defesa dos seus interesses iria ser muito lógica e totalmente baseada em verdades que só eles conhecem.
Enfim, mais um esquema público-privado que vai enchendo, e bem, os bolsos de quem foi bem mais matreiro que eu e, logicamente, não tem qualquer dificuldade em assumir-se como mais um chico-esperto que minou, para sempre, este país.

À porta do estabelecimento, quedavam-se várias pitas em alegre cavaqueira, todas de cigarro na mão e nenhum livro, mochila ou material de estudo em seu redor.
Nos cafés defronte, a mesma situação, com a multiplicação de jovens “estudantes”. Curiosamente, no interior do estabelecimento onde decorriam as aulas, vislumbrei um punhado de alunos, mas nem todos na mesma sala. A minha companheira virou-se e mostrou o seu profundo desagrado com tudo, desde a politica educacional, à falta de integridade, honestidade, verdade, competência e honra.

Acalmei-a o mais que pude, expliquei-lhe que, pelo menos, as pirralhas ainda têm progenitores e novos companheiros dos progenitores que tiveram uma educação esmerada e uma escola bastante rigorosa. Isso deve valer para alguma coisa, pensei para os meus botões.
Ela mostrou um ligeiro sorriso de esperança e pediu para irmos para casa.

Chegados, percebemos de longe que o jovem do prédio do lado direito, estava em casa. Como? Muito simples: este puto deve ter uns 18 ou19 anos mas fala e comporta-se de uma forma que eu, e somente eu, penso revelador de um ligeiro atraso. O comportamento social, pois tem dois pais e dois irmãos mais novos, reforça esta minha conclusão, pois é impensável um puto fazer gato/sapato de quem está em casa e, pior para os vizinhos, colocar no máximo (que as rafeiras colunas de computador permitem) a sua música preferida que é, imagine-se, rap. RAP, por amor de deus... E não, ele é de tez muito clara.
O pior não é um puto ouvir aos berros esse sub-género mus... musi... music... enfim, essa construção de beat em loop com uns dizeres gritados em cima. É este puto ouvir a mesma música (em loop mas nunca chegando ao final, pois isso requer paciência e a noção de uma conclusão) até à exaustão. Dele, não será, mas é a de qualquer ser humano que ouve Música.

Pela gritaria que lhe oiço, é este puto que domina toda a família, e que ainda manda vir com os pais porque “tásver, tásver, isso de pintar carros não é pra mim” ou “tásver, tásver, o Benfica próanu ékié”.
Do bairro inteiro, sou o único que, já desesperado, vou à varanda e comporto-me como ele, debitando com a minha garganta e pulmões, algumas verdades que ele, decerto, não entende. Mas pelo menos, roda o botão do volume para a esquerda e de vez em quando, surge um dos progenitores logo atrás a sorrir uma ligeira desculpa. Eu não sorrio de volta, mas olho para a minha companheira e digo-lhe uma verdade, muito importante, que as pirralhas dela, mesmo com algumas parvoíces próprias da adolescência, não conseguem baixar a este nível social e que, graças a elas, o mundo pode ainda ter alguma safa.

Menos enervada, foi ver os emails e deparou-se com mais uma conta do estabelecimento comercial, ops, de ensino, que tínhamos acabado de visitar.
Aí não aguentei, agarrei nas chaves do carro e fiz-me à estrada!

Na minha tresloucada mente só uma questão: “quem é que dos mandantes desta porcaria tem a coragem de me dizer, na cara, que anos atrás gritou aos pais que não sabia pintar carros?”

quarta-feira, 30 de março de 2011

Quando um é sempre seguido por dois... ou vice versa



Confessemos, andamos transtornados com a nossa situação.

Ele é a catástrofe politica, judicial, social e democrática.

Ele é a depressão psíquica geral, a falta de apoio do médico de família, o fecho de inúmeros estabelecimentos de saúde e a reforma antecipada dos senhores doutores.

Ele é a falta de politica de educação, o abandono total do conhecimento, o facilitismo nas notas, nas faltas, nas matérias.

Ele foi a aniquilação das pescas e da agricultura em solo/território português, o abandono da coisa urbana e os homens da luta.

Ele são manifestações de gente rasca que se diz à rasca, acompanhados por quem nunca foi rasca e agora está mesmo enrascado ao ver a vida a andar ainda mais para trás.

Ele são políticos, de todos os quadrantes, que deveriam estar presos mas andam a gastar os restos do erário público.

Ele são as agências de ratice que nos consideram lixo e a chegada (ou já presença silenciosa) do FMI.

Bom.

Não é uma boa situação, mas o fim do mundo ainda não chegou, pois não?

Mas...

Ele é a anunciada tragédia nuclear nipónica e o consequente envenenamento das águas e terras. Adeus maravilhoso sushi...

Ele é uma guerra já quase global, que se iniciou com os interesses “humanitários” no Iraque e Afeganistão que agora eclodem por todo o norte de África, onde os mesmos “salvadores” já iniciaram a sua batalha a favor do povo desprotegido. Há que manter o óleo bem quentinho...

Ele é Lisboa com mais de 40 graus célsius de Junho a Agosto.

Se o fim do mundo ainda não chegou, estamos lá perto...

Se a isto juntarmos as previsões maias em que o estoiro tem data marcada para 21 de Dezembro de 2012 * [sabe-se actualmente que nesta data durante o solestício a Terra estará alinhada com o Sol e com o centro da nossa galáxia, Via Láctea. Sabe-se que no centro da Galáxia existe um buraco negro supermassivo], às previsões do i-Ching *[um livro Chinês sobre concepções do mundo e filosofias de vida, que contém algumas previsões se utilizarmos a teoria “Time Wave Zero”. Usando esta técnica vê-se que o livro Chinês prevê que o mundo irá acabar a 21 de Dezembro de 2012], e ainda às profecias do mago Merlin, Einstein, Sibyl e Delphi, tudo aponta num só sentido e uma data precisa.

... bom... dá para assustar um bocadinho.

O que fazer?

O que vocês vão fazer, não sei. Eu já decidi: vou tentar viver a vida o melhor possível, rodeado por amor e carinho, relativizando os grandes dramas e, acima de tudo, pirando-me daqui e encontrar um buraquinho porreiro e com uma boa vista.
Estou na dúvida em relação ao sushi, isso estou. Vou morrer de saudades. Daqui até Dezembro de 2012 ainda é muito tempo sem ter acesso à iguaria que mais aprecio.

* dados retirados do site “ciência hoje”

sexta-feira, 18 de março de 2011

Há que ter calma ao dar o corpo e a alma



Numa altura em que se fala muito de Skin Parties, nas quais e ao que parece, a malta mais nova não se coíbe de fazer figuras que roçam a pornografia, os tempos são realmente de mudança drástica que rasgam transversalmente o anonimato.

Não o anonimato total e enclausurado, mas o normal, aquele que se fecha dentro da nossa casa, conversas, sonhos, palavras, enfim, da tal vida íntima.
Muitos de nós, quase todos, gostamos dos nossos segredos, mesmo tendo uma conta no facebook onde publicamos algumas fotografias e desabafos. Mas daí a mostrar TUDO, há uma grande diferença. E, pelo que parece, a fronteira já não existe para a geração que ainda nem atingiu a maioridade.

Longe de mim vir para aqui criticar miúdos que deviam estar a dormir em casa em vez de mostrar e roçar o corpo até às seis da manhã. Longe de mim sequer tentar conversar com eles e explicar-lhes a noção de urgência, tempo e paciência.

Ainda bem que nasci quando nasci e que tenho a idade presente. Sim, muitas vezes olho para trás e para a frente e sei, de antemão, que já devo ter vivido mais do que irei sobreviver e, mais importante, com muito mais saúde. Mas tive a sorte de ultrapassar a adolescência com tempo, esse mesmo tempo que hoje é consumido com uma tal fúria que, tenho a certeza, vai-lhes fazer muita falta quando, ao chegarem à idade que tenho hoje, olharem para trás e perceberem que fizeram merda.

O facebook e os telemóveis, entre outros, são armas poderosas que se podem voltar contra quem os utiliza. A fotografia ou o vídeo que se colocam online garantem a vergonha social e global de quem foi “apanhado”. A questão da cultura do corpo é tão demente que quase todos os telemóveis dos adolescentes contêm imagens que poderiam ser aceites nas revistas softcore... ou mesmo hardcore. O problema é que estes apetrechos são alvo de cobiça, roubo físico ou digital. E o anonimato, que garante a nossa privacidade, tão importante na nossa existência, está ameaçado de total aniquilação.

Escrevi tudo isto porque me lembro bem das máquinas fotográficas com rolos de 35mm e da angústia que sofríamos até ter nas mãos o filme revelado. Ninguém sabia, nem mesmo quem tirava o boneco, qual seria o resultado e isso era... bom.
Hoje olha-se logo o ecrã, apaga-se ou tira-se outra e ainda se edita dentro ou fora da maquineta. O que ganhámos não compensa o que perdemos.

O mesmo com o telefone. Hoje recusamos ou fingimos não estar disponíveis quando olhamos o número que nos contacta, alguns já com fotografia e tudo. Antigamente tínhamos um telefone preto, sem memória, sem atendedor, sem nada de nada, a não ser a certeza que alguém que conhecia o nosso número nos queria falar. E atendíamos, pois era de bom tom fazê-lo.

Não me venham dizer que sou antiquado, mais a mais porque utilizo o último grito tecnológico em quase tudo.
Só que gosto de manter privado o que só a mim diz respeito.
E acho que o preço a pagar vai ser demasiado elevado.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Dar e baralhar a outra face



Qual é a primeira coisa que nos ocorre quando nos lembramos de um amigo?
Do seu rosto! É ou não é? Só depois vêm o nome, as memórias, as conversas, as aventuras, o estado social, a família dele, o que faz, por onde anda e etc.

O rosto de uma pessoa, ou face (ou cara), é o primeiro dado que memorizamos de alguém. Será devido à memoria visual, o “olho” da nossa mente que cataloga cada experiência visual, que nos lembramos dos rostos das pessoas quando muitas vezes esquecemos o nome das próprias?

A face é, assim, o elemento mais importante para a designação de alguém, logo seguida pelo corpo e pela forma de vestir. Nela encontramos os olhos (que podem ou não ser o espelho da alma), a boca (para a qual olhamos com sentimentos dúbios, que podem ir do prazer de um sorriso encantatório ao interesse pelas palavras proferidas), as rugas, os sinais, a forma e muitos etc..

São, acima de tudo, sinais exteriores. E são estes, quer queiramos quer não, que nos impelem a desejar conhecer certa pessoa em detrimento de outra. A questão da beleza e riqueza interior nunca se coloca num primeiro olhar.

Foi assim que o Mark (com ou sem os associados) concebeu o Facebook: um livro digital de rostos!
No Facebook, valemos pela foto que disponibilizamos no perfil. Podemos escolher outro tipo de imagens, mas terá de ter um teor pessoal, mesmo que seja um herói de banda desenhada, um automóvel, uma figura que admiramos.

O Facebook é, deste modo, um agregador de rostos que nos saciam os sentidos imediatos, logicamente sem contar com os amigos chegados e conhecidos da vida. Os novos contactos dão-se porque se gosta daquela face, dos olhos, do sorriso, do cabelo. É uma espécie de lista telefónica de possibilidades sem limites, mesmo escondidas sob pedidos de “amizade”, quando só se procura o próximo alvo, muito facilitado porque o mundo é um “ó” onde temos sempre um amigo que é amigo desse rosto que queremos conhecer.

Os jovens ainda não entenderam bem como tudo isto funciona e colocam sem pudor variadíssimas fotos de férias, borgas, festas, convívios. Dão, deste modo, todas as informações sobre o seu rosto, corpo, locais de férias, bairros preferidos para as saídas nocturnas, etc.
É só fisgar um e seguir todos os seus passos para, inevitavelmente, chegarmos ao contacto físico.
Há que entender isto, por muito que custe... e tentar aconselhá-los.

Chegamos à conclusão que o Facebook é um embuste, pouco servindo os interesses reais da maior parte dos utilizadores, encurralando-os numa espécie de vertigem social a que é necessário pertencer e, acima de tudo, estar bem vivo e com saúde sob a forma de postagem diária.

O que o Mark deveria ter feito, era um Friendbook. Mas como, se sabemos que o rapaz é um cromo que conhecia o insucesso social, um geek que não fazia parte do grupo dos populares, um freak que acredita que usar chinelos é cool?

Ele nunca pensou na verdadeira amizade, mas sim no voyeurismo puro e duro.

Nada tenho contra o Facebook, pois utilizo-o de formas “normais”: o de realmente contactar amigos que vivem muito longe ou mesmo aqui ao lado, o de reencontrar pessoas há muito desaparecidas da minha vida e promover algumas coisas que faço, profissionais ou autorais.

Portanto, utilizo-o bem mais como Friendbook do que Facebook.   
E isso dá-me alguma paz de espírito, quando habito o terceiro país mais populoso do mundo... e em franco crescimento.

Imaginem um mundo friendbookiano onde, para além dos “likes”, “comments” e “shares”, existissem botões tipo “I miss you”, “Dinner tonight? Bring the gang” ou um simples “see you later”.

‘Bora fazer um como deve ser?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

De par em par, uma nesga escancarada


 
Existe um tema que provoca acesa discussão entre amigos quando é abordado: será que se deve mostrar a casa às visitas ou não?
Tenho-me divertido bastante com as variadíssimas opiniões de todos quantos conheço.

Uns dizem que sim, que é boa educação e coloca o convidado à vontade.
Outros dizem que não, pois ninguém deve ter acesso à parte não social.
Uns dizem que é de bom tom.
Outros dizem que parece que estamos a vender o imóvel com o recheio.
E assim por diante.

O que é engraçado é que todos têm uma opinião, mas por vezes a posição difere na prática. Muitos dos que não gostam de mostrar a casa, têm de fazê-lo quando o conviva exclama “ai, mas que linda, onde são os quartos” e etc. Outros que até gostam de mostrá-la, ficam pendurados na fronteira entre a parte social e a privada, observando quem chega a instalar-se rapidamente nos sofás.

Depois de fazer uma muito breve pesquisa na internet, não cheguei a conclusões. Ao que parece é de bom tom, com pode não sê-lo. É agradável para a visita saber o que e onde pisa, como pode ficar acabrunhada pelo show off do anfitrião. É claro há excepções, como quando se faz umas obras valentes ou se compra aquele móvel que se deseja mostrar a toda a gente. São situações pontuais por que todos passamos.

Vai daí, olhei para mim e pensei no que faço.
Pensei, pensei e, de repente, dei por mim a mostrar a casa a algumas pessoas e a evitar fazê-lo a outras.
Como não tenho o costume de convidar indivíduos que não prezo (embora alguns demonstrassem falta de carácter após uns tempos), estranhei esta selecção.
Pensei, pensei e, de repente, cheguei a uma conclusão: não sou eu que mostro ou deixo de mostrar, são os convidados que demonstram interesse ou falta dele.

E fez-se luz.

Na verdade, o português gosta de mostrar a casa a quem convida. Gosta de falar daqueles livros que tem na estante, ou do quadro que herdou da avó. Gosta de mostrar a LedTV que custou uma “pechincha” em saldo no hipermercado, como o Magalhães que comprou para o puto mais novo.
Em tudo o que mostra tem, muitas vezes, o cuidado de apontar que não está ali nenhuma fortuna. Os pertences ou foram conseguidos com muita sorte e oportunidade, ou oferecidos ou outra coisa qualquer.
Parece que temos vergonha de ter o que temos... mas depois gostamos de mostrar os teres e haveres.

Confesso que gosto de mostrar alguns dos meus tarecos. Tão somente porque gosto tanto deles que tento que outros os apreciem.
E isso pode ser tanta coisa... por exemplo, a 1ª edição que encontrei no alfarrabista e que, atenção, custou poucos euro, o dvd super special edition que mandei vir pela Amazon e que trás outro disco cheio de extras, mas que ficou pelo preço do normal cá nas fnacs, o móvel das gavetinhas que é lindo e que consegui por excelente preço devido à mudança de casa de um amigo, etc., etc.

Muitos amigos aponta-me o defeito, talvez porque estão fartos de ouvir as explicações sobre a origem dos elementos, e meio a sério, meio a brincar, gritam “olha, não te esqueças de mostrar a despensa e a casota do animal lá na varanda”.

Todos rimos, mas não deixa de ser uma boa questão... pode-se mostrar uma parte da casa e a outra não? É de bom ou mau tom? É educado ou indelicado?
Em que ficamos?

Uma coisa é certa: é um comportamento lusitano! Ou português, pois os brasileiros fazem o mesmo e têm as mesmas dúvidas.
O que pensará um cámone quando lhe abrimos as portas?

Pior... o que pensaremos nós deles se ficarmos fechados na sala de refeições apenas com acesso ao lavabo social?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Usar sempre a borrachinha e nunca perde-la de vista



Causa-me confusão chegar a uma cozinha e ver o ralo do lava-loiça destapado.
Custa-me saber que os restos da comida, e outras coisas, vão desaparecer por ali abaixo, provocando entupimentos mais ou menos graves que poderão ocasionar rupturas na canalização, com a consequente inundação doméstica e inevitáveis dores de cabeça e gastos extraordinários.

Sempre tive estas manias, adoro tapa-ralos, como gosto de ligar e desligar os interruptores de uma forma lenta e suave.
Tento também poupar água de duas formas: pressionar o botão do autoclismo a meio da descarga, e fechar o chuveiro aquando a ensaboadela corporal.
Também gosto de evitar que todas as lâmpadas estejam acesas em divisões onde não está ninguém e fico chateado quando, depois de avisar, o hábito se mantém.

Estão a ler isto e devem pensar “epá, o rapaz é verde e poupado”. Nada mais falso! Se contarem as luzinhas vermelhas e azuis dos stand by’s na sala, de certeza que ficariam estarrecidos, como eu fico, a pensar nos watts mensais.
Então porque não desligo tudo? Razão simples... dá uma trabalheira reiniciar as maquinetas todas as manhãs.

Isto demonstra que pensamos numas coisas e voltamos costas a outras, tão ou mais importantes. Ao tentar compreender porque sou um chato numas e não em todas, dei por mim a relembrar a educação parental.
Realmente, a minha mãe falou-me do ralo e dos canos, enquanto o meu pai explicou-me o desgaste dos interruptores e das lâmpadas.
Só não mencionaram as luzinhas vermelhas e azuis porque... não existiam.
Por conseguinte, não obtive nenhum conselho sobre as mesmas e a minha casa é o retrato dessa falta de educação.

Dou por mim a ver os jovens a não fechar as torneiras, a despejar tudo para o ralo e a não desligar os apetrechos electrónicos, desde o computador aos telemóveis. Ou seja, nesta demanda pelo reconhecimento profissional, a minha geração esqueceu-se que tinha de educar os petizes nestas coisas mais prosaicas, e agora pagam uma factura mensal... bem alta, já para não falar do desgaste prematuro das maquinetas o que provocará o reforço dos investimentos bem mais cedo que o esperado.

Armando-me em Capitão Verde, tentei explicar no outro dia, enquanto se lavava a loiça, a possibilidade de entupimento da canalização da cozinha, devido a terem retirado o tapa-ralo do seu lugar. A resposta foi simples: “lá estás tu a ser chato! Isso nunca aconteceu a ninguém!”
Quedei-me... uma das coisas que aprendi ao lidar com malta mais nova, é que eles não ouvem. Mas lá recoloquei o dito.
O alarme tocou durante essa mesma noite, quando a avó da petiz telefonou aflita: a água não parava de brotar do seu lava-loiça, tinha a cozinha toda inundada, o seguro estava-se nas tintas e a Epal demorava. Uma desgraça!

Depois de prestada a ajuda possível, olhei de lado para a petiz, enfiada nas sms do seu melhor e mais íntimo amigo, o telemóvel. Ela fingiu que não percebeu que a olhava, mas não aguentou e explodiu: “Eu sei, eu sei! Tens razão!”

Sorri.
No dia seguinte, o tapa-ralo tinha sumido para sempre.
A petiz levou-o para casa da avó e deixou-me... sei lá.... enervado. 
Saltou-me literalmente a tampa.
Uma coisa é ficarmos satisfeitos por ter ensinado algo, outra é sermos prejudicados de uma forma tão vil e sem aviso prévio.

Tenho ali uma data de loiça acumulada...



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Passar novamente a ser Virgem, nem que fosse por poucos dias



Confesso que não percebo nada de signos nem sei a que mês pertence este ou aquele, com a única excepção do meu próprio e dos de alguns amigos próximos.
Nem compreendo a sua utilidade no início de conversas sociais: Olá, eu sou Gémeos e tu? Ai, Gémeos, que horror! Foge! Foge! Não se pode confiar em vocês.
Mas o que vem a ser isto? Mas porque é que certas almas acreditam mesmo nos horóscopos, lêem as revistas e aqueles livrinhos de bolso que são publicados a todos os Janeiros?

A confusão global instalou-se com o anúncio que teríamos de subtrair um mês ao nosso signo, para conhecermos o, afinal, correcto.
Não se falava de outra coisa e, confesso, também fiz o ensaio e calhou-me Touro. De Gémeos para Touro.
Ora bem, o que é que sei sobre Touros? Pouca coisa. Toda a info registada tem a ver com uma muito ex-namorada e o resultado não foi bonito.
Ao contrário dos Gémeos que são ar, os Touros são terra. Também ao contrário, detestam mudanças e coisas novas. Ainda mais ao contrário, são metódicos e adoram cumprir objectivos. E, para finalizar a comparação, são teimosos e pouco dados a alterarem a sua posição.

Isto assustou-me. De Gémeos, ou seja, do melhor signo do mundo em que duas cabeças pensam melhor que uma e dois corpos são mais trabalhadores que apenas um, vejo-me com um par de cornos, teimoso como uma mula, agarrado às coisas como uma lapa e com a mania de ser melhor que os outros como um leão.

Fiquei, para além de chocado, deveras tristonho.

Saí à rua, nestes dias sebastianistas, e deambulei pela minha zona da cidade que me protege das confusões e ajuda às confissões. Teria de modificar a minha personalidade, deixar de ser sonhador, um bocado aéreo. Passaria de criativo livre e desempoeirado a um suitman cheio de tiques e horários para cumprir.
Passaria a ter a secretária arrumada, o trabalho dividido por folders num ecrã inicial com a foto dos entes queridos, utilizaria pela primeira vez a agenda do telemóvel, só iniciaria a leitura de um livro quando terminasse o que estou a ler e tantas outras coisas que nada têm a ver comigo.

Trata-se de uma enorme injustiça! Compreendo, e até aceito, que os Touros gostassem de passar a ser Gémeos ou, pelas novas contas, que o signo que vem a seguir, um tal de Caranguejo, adorasse passar a ter uma figura humana... aliás, logo duas.

Mas nem todos se podem queixar. Por exemplo, os ex-Balança passariam a ser novamente Virgens. Um sonho antigo da humanidade e para que já existe uma operação cirúrgica. Já os Virgens ficariam mais impuros e deixariam de poder afirmar, com toda a sinceridade, que ainda o eram.

Bolas, antes Virgem que Touro. Pelo menos poderia sorrir nervosamente aquando a próxima noite de luxúria. Mas não, mas não...

Felizmente, as notícias mais recentes afirmam que os signos continuam a ser os mesmos de sempre! Qualquer coisa relacionada com o zodíaco tropical, a projecção elíptica da Terra e um qualquer ponto vernal.

Este rumor, afinal, não passou de um desejo de astrónomos do Minnesota, ou seja, americanos, o que explica muita coisa, principalmente para a crescente fatia da população que já não pode com eles.
Mas cá para mim, estes senhores tinham apenas um desejo:
Deixarem de ser Virgens... if you know what i mean..., e de geeks de laboratório transformarem-se em top models de passerelle.

Opá, se uns acreditam, porque não outros?

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

De fio de prumo a fiel da balança.



Os meus amigos, na sua grande maioria, confiam-me segredos vários, desventuras, problemas, chatices. Sou, muitas vezes, um baú com cadeado a sete chaves, onde estão escondidos os desabafos, tristezas e alegrias de cada um.

É um caixote sem fundo, mas impenetrável, intocável. Algumas desventuras dariam para escrever verdadeiros thrillers ou filmes de terror. Outras entrariam na galeria das mais deliciosas comédias e existem várias que seriam personagens únicos em fantasias extremas. Mas não as utilizo, nem para divagações escondidas sob um qualquer alter-ego digital.

Também tenho os meus segredos e, para eles, todo um cofre-forte cuja password é indecifrável. Mas sou um sortudo e, quando é necessário um desabafo, alimentado etilicamente ou por qualquer outra razão maior, conheço vários ombros onde posso descansar.

Vem isto a propósito de quem não consegue guardar segredos. E, nos últimos tempos, esse “quem” tem nome: chamam-lhe wikileaks e, a um outro nível não menos global, “casa dos segredos”.

Sou da opinião que o site é um bocadito mais importante que a “casa dos segredos”, essa horrenda produção televisiva que me desnorteia a cada infeliz zapping.
Enquanto o primeiro está prestes a fazer derrocar o mundo tal o conhecemos, o segundo promete cometer uma proeza digna de registo: o recorde do mais baixo nível televisivo de que há memória.

No wikileaks, somos confrontados com o que, interiormente, já sabíamos: os governantes dos vários países não são pessoas em que se possa confiar e que o mundo, oriental e ocidental, está podre.
Na produção da, quase sempre ela, TVi, ficamos a saber que a malta bimba tem segredos bimbos, como prostituição, encontros com o além, casas de passe e ligações sexuais com o Pinto da Costa... sex sells.

Enquanto o mentor do site está acusado de ser um malandro no que toca à sua testosterona, os participantes lusos enrolam-se por debaixo de lençóis, na esperança de serem notados e falados cá fora... sex sells.

Como se vê, existem diferentes formas de tratar um segredo: guardá-lo, dá-lo ao mundo inteiro ou mostrá-lo a quem consegue ficar atónito quando faz um simples zapping.
A primeira, a qual prezo e defendo, faz parte da personalidade cuja educação teve a sorte de conhecer progenitores e educadores dignos e especiais.
A segunda é uma daquelas coisas que acontece e que alimenta os anais da História, quando lemos as razões que levaram à derrocada de grandes impérios e civilizações.
Já a terceira é questionável e, a meu ver, completamente desnecessária.

O meu desejo é que alguém passe ao wikileaks os podres da malta que pensa, produz e realiza esta desgraça televisiva.
O mundo poderá sobreviver aos governantes que conhece, mas ficaria muito melhor se esta gente desaparecesse, de vez, da caixinha que mudou o mundo.

Até eu deixaria escapar algumas coisas que sei... numa outra caixinha que veio alterar e alimentar o conhecimento global. E com ou sem nudez, porque o sex always sells.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

De mão em mão e de boca em boca até ao regresso.



Há qualquer coisa de muito estranho no manuseamento de tupperwares. Quem de nós já não comprou, ou recebeu de oferta, um conjunto dessas fantásticas caixinhas plásticas, multicolores e com tampas simples, com ou sem ventilação?
Quantos de nós já não as usou e reutilizou vezes sem conta, confiando-lhes o preparo gastronómico que sobrou da refeição? E onde guardamos as fatias de flamengo ou fiambre? E a sopa da mamã? E tantos etc.

Os tupperwares são um ajudante de campo, um braço direito sempre às ordens. São divertidos, funcionais e têm dimensões que nos facilitam a sua arrumação ao lado ou no topo de outros que contêm restos da nossa vida alimentar.

Sendo assim, porque não os tratamos com o máximo respeito e carinho? Porque carga de água os emprestamos à visita que comerá parte das sobras do jantar de hoje, que tanto agradeceu e comentou, ao almoço de amanhã?
Porque é que os entregamos às cegas, confiando que um dia, o mais depressa possível, regressarão ao nosso lar para reconquistar o seu lugar de direito no armário junto ao fogão?

A questão obrigatória impõe-se: sabem onde estão as dezenas de tupperwares que emprestaram ao longo da vida? E de quem são aqueles dois que temos para ali arrumados? E estes, que a mãe jura que são nossos e a que já nos fartámos de responder que nunca na vida compraríamos caixas com desenhos e florezinhas estampadas...

Não vale a pena.
Os tupperwares são como os isqueiros Bic. São nossos, dos amigos, dos familiares. São de toda a gente, não pertencem a ninguém. Visitam casas e vidas. Estão aqui e ali durante um tempo, nunca muito longo, e desaparecem da nossa vista para sempre.

De vez em quando, e com muita sorte, redescobrimos o Bic esquecido ou guardado longe da nossa vista, numa segunda e muito próxima visita. E o que fazemos? Escondemo-lo imediatamente no nosso bolso, com vergonha de sermos apanhados, como se estivéssemos a roubar o pertence de outrem.

Saímos com um misto de vergonha e conquista, apalpando a algibeira onde está resguardado o isqueiro. Mas, lá no fundo no fundo, o que queremos mesmo é apanhar adormecidos os donos da casa, e assaltar o armário junto ao fogão, para escolher, um a um, os 14 tupperwares que lhes fomos emprestando ao longo de uma década de jantaradas.

Isso sim, o seu a seu dono.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Hip...nose em tons rosa e azul



Uma palavrita com duas letritas, pode esconder um sem número de significados.
Há, portanto, que ter algum cuidado na sua utilização.
Vou dar um exemplo: “Pó”.

Ora o pó pode dar um trabalhão a quem lhe é alérgico, pois não é de fácil remoção e ainda por cima está minado por esse bicho asqueroso que é o ácaro.
Este tipo de pó faz mal à saúde, causa alergias e espirros, inflamações no nariz, garganta e brônquios. É nefasto para os asmáticos e para os mais jovens e seniores entre nós.

Por outro lado, temos outro tipo de pó que geralmente alcunha substâncias que alteram o comportamento psíquico e físico de quem o absorve. Os mais incautos chamam-lhe droga, mas há quem saiba diferenciar o pó da droga mais comum, ao pó de anjo, denominado por acaso de PCP. Este último parece o que não é. Por exemplo, os efeitos que se procuram, alucinações tipo LSD, não passam de uma cópia mal feita, tipo daquelas de Sacavém. Mas o frenesim é semelhante a muitas outras drogas, como o rubor facial, o suor profundo, o maldito formigueiro nas extremidades e a perda de coordenação. Não é, concordemos, a melhor figura que poderemos fazer.

Mas existe um outro pó mais nefasto, horrendo e que nos exige a imediata contra-acção, seja através de posts no facebook (causas, alertas, pedidos), o passa-palavra, até cartas ao Provedor.
É o PÓ...POTA! Dois pós numa palavra de três sílabas!
Um pó que junta todos os problemas enunciados nos dois acima, mas com agravantes:
O Popota cria erupções cutâneas, calvice nervosa. Provoca surdez e perda de razão. Acorda-nos os abafados sentidos guerreiros e um justificado aumento de adrenalina.
Este maldito bicho, ou bicha, ataca-nos no final de cada ano. É vendido nas mais variadas cores, mas tem como principais a rosa e o azul turquesa, o que sugere alterações químicas bem conhecidas de outras décadas.
Enquanto nos hip...notiza como sendo um produto infanto-juvenil, balanceia as suas redondas formas ao som de uma das mais temíveis músicas do século passado, que teve o título “daddy cool”.

Não brinquemos... vestes ousadas, ancas bamboleantes, poses sensuais misturadas com um tema que alerta qualquer encarregado de educação, mas alterado para "pó... popopota, pó...popopota" em vez de "daddy...daddycool, daddy...daddycool", é, talvez, o exercício mais pornográfico que existe e que passa nos nossos ecrãs às horas em que os petizes estão a ver Tv.

E, depois, queixemo-nos que eles querem viver a vida o mais rápida e urgentemente possível...
Tenham pó... aliás, dó!


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

sexo



Num dos principais fóruns de think tanks portugueses, um que ainda exige convite para se entrar, está uma gentil rapariga a questionar “o que dizer ou fazer para que os seus posts tenham muitas visitas”.
De início pensei que era um truque para apanhar os mais afoitos numa qualquer teia. Esperei então pelas respostas. Nada. Depois pensei, como a resposta é lógica demais, que todos os membros do clube a sabem bem e não entendem como é que uma donzela pode ser tão ingénua. E acho que é por aqui.
Ao fim de tantos anos nestas andanças da net e dos fóruns e quejandos, todos sabemos que um título para ser famoso, e por conseguinte ser clicado vezes sem conta, tem de conter a palavra sexo. “Sex sells”! E sai reforçado se o autor for do género F.  Sexo escrito por uma donzela é quase sempre sinónimo de um velado convite para se entrar num quarto escuro, onde tudo poderá ser possível, onde os desejos e algumas taras poderão ser correspondidos.
Logicamente que, e dependendo dos canais, o sucesso de um escrito deste género pode conhecer tanta fama que promova a autora a escritora imediata, ou apresentadora de programas televisivos, ou reputada ensaísta ou, ainda, cronista da praça. Vejam-se os vários casos de blogues que passaram a livros, para citar um exemplo. Portanto, há quem pense que é um caminho rápido para subir a escada da fama, sem passar pela meta e receber dois mil escudos (sim, tenho uma versão antiga do Monopólio). Mas essa conclusão é errada.
Tal como afirmámos que era impossível a televisão descer mais baixo após o “big brother”, fomos logo açoitados pelo “bar da tv”, o Mendes como líder contínuo de audiências e demais exemplos que magoa relembrar. E o que temos hoje? A “casa dos segredos” e o tal programa da Fátima que paga as dívidas dos coitados que se prestam à humilhação pública.... mas com um sorriso galhardo na face.
Com o sexo passa-se a mesma coisa: se tivemos um “na cama com” a Alexandra, depois outro de que não me lembro do título com aquela fulana que casa e descasa como eu troco de t-shirt, agora somos confrontados com especiais sérios que relatam os malefícios de uma vida dedicada à actividade sexual, a Sic Radical a mostrar-nos tudo, mas mesmo tudo, antes da meia noite, criticas aos lançamentos (e conteúdo) de títulos em DVD que uma rapariga faz no canal Q, ou o Malato a questionar um jovem católico se existem raparigas que se prostituem por prazer. Ou seja, nunca o sexo desceu tão baixo (evitem relacionar esta frase com o que vos vai na cabeça).
Portanto, se hoje uma senhora quiser escrever ou falar abertamente sobre a causa, será obrigada a encontrar novas soluções para se destacar da concorrência, que é feroz e contínua. Os canais estão abertos, as portas escancaradas. Andamos num vaivém contínuo em busca do santo graal, sabemos tudo sobre o clitóris, prepúcio ou escroto, o bondage é aceite assim como o swing. Então como se destacar das demais?
O meu conselho é simples: keep it clean and simple! Ou seja, escreva no título do post apenas a palavra “Sexo”. Verá, gentil donzela, que muitos lhe irão clicar.
Veja o que vai acontecer com as visitas a este...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Os dramas de um escritor no Séc. XXI



Como muitos outros que passaram ao lado de uma carreira artística, também cheguei à idade em que posso tentar ser escritor. Será a última das artes performativas e solitárias, a par da escultura e pintura, em que um cidadão menos jovem pode ainda ousar ser uma criança.
O mais engraçado nesta conclusão, é que sempre fui rodeado por sinais que me indicavam este caminho. Aos 20 queria fazer filmes mas era jornalista, aos 30 fui músico mas também copywriter. Ou seja, sempre que tentei uma outra arte, com ou sem sucesso, estava paralelamente com os dedos ocupados a pressionar teclas alfanuméricas. E reparem que até tentei enganar o destino, pois as outras teclas dos vários teclados que usei, eram pretas e brancas, tal e qual as teclas brancas de um teclado de escrita com inscrições a preto. 
Comecei com pesadas, e de ferro, máquinas de escrever, ainda com teclado Hcesar. Talvez seja devido à enorme força com que se tinha de pressionar uma “letra”, que ainda hoje só escrevo com os indicadores: é que o impulso e movimento rápido necessários, quase que se assemelhavam ao lançamento de uma bola de baseball.
Uma das minhas grandes alegrias foi quando paguei, com muitos contos de réis, a minha primeira máquina de escrever electrónica. As teclas já eram suaves e podia escrever uma ou duas linhas na memória embutida, revendo os erros num pequeníssimo ecrã lcd, antes de dar a ordem para impressão na folha de papel.
Fui feliz e, confesso, muito mais rápido. E também deixei de gastar corrector.
Os tempos foram mudando a tecnologia e, como sabemos, os computadores vieram tomar o lugar dessas maquinetas fantásticas que tanta obra-prima deram a ler. Contudo, muitos escritores preferem escrever à mão, enquanto outros se recusam a trocar a sua centenária máquina de escrever, pela facilidade de um computador.
Como os compreendo...
Passo a explicar:
Hoje acordei ao meio da manhã. Duche e pequeno almoço. Subi o andar para o escritório. Liguei o computador e sentei-me defronte. Chequei os emails e respondi a vários, liguei o Facebook e escrevi uns posts, li as notícias no iGoogle, liguei o Linkedin para aceitar mais uma amizade profissional e respondi às mensagens do The Star Tracker. Num repente, chegou a hora de almoço. Regressado do tasco vizinho, respondi aos emails que tinham respondido aos meus. Re-consultei o FB antes de escrevinhar um slogan e um texto para um anúncio de um cliente. Um amigo nos Estados Unidos ligou-me pelo Skype e ficámos na conversa durante uns largos minutos. Logo de seguida, o telefone tocou: o agente literário perguntava pelos seguintes capítulos. Respondi-lhe que ainda os enviaria hoje. Abri a página em branco do Word mas nada me vinha à cabeça e decidi não stressar, jogando um solitário no computador. Reabri o Word, continuava branco. Vi um episódio de um seriado preferido que tinha acabado de "chegar". Chequei novamente os emails, o FB, o Linkedin e o TST.
Num repente, fez-se luz! Tinha a ideia para terminar mais um capítulo.
Já não temia o cursor a piscar na folha de texto e, quando apontei os dois indicadores ao teclado, a electricidade foi cort...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Manual de etiqueta em como ser-se bom vizinho



Vizinhos barulhentos...
Eu tenho.
São vários dentro de uma casa que de pequena nada tem.
Poderiam escolher uma das múltiplas divisões para gritarem uns com os outros. Mas não.
Escolheram a janela mais próxima da minha varanda para sala de estar, onde reuniram todos os apetrechos modernos: Televisor, Playstation e Singbox, Computador e colunas, etc.
Todos os dias, pelas 18h, dá-se início a um festival rocambolesco e histérico. Geralmente dura duas horas, até a telenovela começar, ou outro qualquer programa de teor mais popular.
Esta família conta com a sogra, o marido escanzelado, a mulher e mãe que deve ter sido catita antes de ter casado e parido, e três fedelhos.
São os fedelhos que fazem barulho. O mais velho, que saiu à avó, sugere não ter a totalidade da capacidade intelectual. Mas quando oiço as conversas no messenger, ao máximo que as colunas suportam, percebo que é somente muito parvo. Este é quem mais grita. Sobre tudo, futebol, jogos de computador, porque não gosta da comida, não gosta da escola, não gosta dos professores, enfim. Só gosta, e muito, do Sport Lisboa e Benfica.  Aliás, o momento glorioso da sua vidinha é um jogo transmitido pela Tv. Aí, pasme-se, faz-se um silêncio sepulcral naquela habitação.
No meio está outro fedelho. Saiu ao pai, de tão franzino e irritadiço. Já está de mal com a vida e ainda não concluiu a primeira década. É este que absorve mais de metade dos watts difundidos pelo mano. E ficar surdo não lhe vai servir de nada, pois também deverá ficar desfigurado, já que, de vez em quando, lhe é atirada qualquer coisa dura. E algumas fazem um som surdo, nada quebradiço como um vidro no chão, seguido pela choradeira que abafa qualquer apito de comboio ou alarme para evacuação de uma fábrica.
Os diálogos entre os manos são incompreensíveis. Comunicam por gritos, uns mais prolongados (como a raiva e o choro), outros mais incisivos (ordens, calão).
Nunca, mas mesmo nunca, lhes ouvi uma conversa.
Os pais só encontram forças para tentar calá-los, quando se apercebem da minha presença na varanda, fumando um cigarro ou tentando apreciar o meu rio. Mas tenho de estar lá fora! Convenhamos que, quando chove ou faz frio, não é agradável e eles também não olham para fora, portanto, a gritaria continua.
No fim da tabela está a coitada da catraia. Saiu à mãe. Não lhe oiço a voz nem lhe vejo o tímido sorriso quando me encontra na rua. Mas, porque há sempre um mas, faz-se ouvir a alto e bom som das 18h às 19h, através do sistema de karaoke e das colunas acima referidas, que conseguem, inacreditavelmente, piorar o som das músicas da Floribela, distorcidas nos graves e médios. A júnior canta com toda a força. Já conhece as letras de fio a pavio, gosta de repetir os temas e não parece, nem ninguém da alcateia, importar-se com o inaudível som da distorção.
Todos nós temos vizinhos.
E estes têm um rafeiro de porte médio.
E o que é que os cães fazem? Imitam os donos. É ou não é?

sábado, 20 de março de 2010

cento e trinta e um

Ontem tive que me vestir como as regras impõem, ou seja, socialmente correcto com calças cujo tecido condiz com o casaco. Mesmo assim, recusei a gravata o que é muito moderno e tal. Chegado ao local do convívio, todos me olharam e comentaram "estás tão bem vestido porque é que não te arranjas assim todos os dias?". Ora bolas, será que é difícil as pessoas perceberem que uns jeans e uma camisola são bem mais confortáveis que um fato? E se eu escolhi uma vida "artística", alguma da percentagem teve exactamente a ver com a possibilidade de me vestir como bem quero e não como me obrigariam por contrato ou dress code. Um áparte: o que me rio quando vejo as pessoas sorridentes à sexta-feira por causa da hipótese "casual"...
Mas escrevo isto porque ontem ouvi uma conversa entre alguns presentes, talvez por eu estar de fato, talvez porque pensavam que eu não estava a ouvir. A questão tinha a ver com o bom aspecto de um homem vestido com rigor ao invés de um homem que, como eu, prefere estar mais à vontade e, a meu ver, bem mais catita, moderno e original.
Fiquei atordoado. Então não é que as pessoas pensam que um homem de fato gasta mais dinheiro em roupa que um homem casual? Mas será que é possível estarem assim tão enganadas? Um fato é um fato, pode custar entre 100 a 500 euro. Depois uns sapatos foleiros pretos e de verniz, uma gravata, uma camisa branca e, presumo, umas cuecas e um par de meias. Ora tudo junto e sem poupar muito faz-se por 300 euro. Agora façam as contas a umas levi's (100€), uns Merrell (120€), boxers e meias (50€), cinto de cabedal (50€), uma t-shirt (20€), um casaco leve (150€) e etc. Já é bem mais oneroso e sem entrar em grandes marcas ou luxos. Mas agora é que são elas: um homem usa o mesmo fato uma semana inteira e ninguém aponta isso. Mas um tipo como eu, se surgir dois dias seguidos com o mesmo calçado ou casaco, é olhado com desdém. Portanto a roupa dita casual sai 700% mais cara que um fato que "fica e veste" bem.
Concluindo, o que parece não é.
Certo?

sábado, 16 de janeiro de 2010

cento e vinte seis

O poder e riqueza toldam até o mais puro dos justos. Não o neguemos. Quantos de nós perdemos o contacto com aquela gente que é nossa "amiga" quando estamos bem, mas que desaparece sem registo quando ficamos menos bem? Vamos fazer um teste, olhar para os nossos contactos no telemóvel e emails e ver quantos deles estão "desconectados" da nossa existência. Se calhar, mais de metade. Ou para quem não utiliza o SIM para tudo e mais alguma coisa, um pouco menos.
Confesso que tenho muitos, demasiados, contactos que não utilizo nem deverei vir a reutilizar. Então porque pura e simplesmente não os apago da memória, que está a abarrotar pelas costuras?
Por um lado penso que, quando regressar ao topo, já os tenho. Por outro penso, quando regressar ao topo, de que me interessa tê-los? Já mostraram bem o que valem. Mas na verdade na verdade e quando mudo de telemóvel (frequentemente), fico hesitante em carregar na tecla "apagar da memória?". Se escolho o Sim, fico um bocadito perturbado. Se escolho o Não, também.
Bolas, se sei que esta gente não vale nada, porque raio ainda me preocupo com a sua existência?
Sou mesmo tótó...

sábado, 2 de janeiro de 2010

cento e vinte e três

Finalmente vamos conseguir falar desta década como deve ser, ou seja, vamos dizer anos 10. Acabou-se, pelo menos para nós que (sobre)vivemos actualmente, a nomenclatura demasiado estranha dos zeros. Esta década foi até um zero à esquerda a diversos níveis, tanto pessoais como globais. Foi mesmo para esquecer como se tivesse nascido para ser limpa da nossa memória. Pelo menos, da minha vai.
Entrei no 10 de uma forma calma, limpa e serena. Nem muito álcool nem muita galhofada. Foi simples, correcta, elegante, com brindes sentidos e outros acompanhados por olhares cúmplices de quem sabe o que este ano vai mudar.
E ai se vai mudar...
Talvez devido a isso, e deixando passar este fim de semana ainda festivo, vou mudar algumas coisas no meu dia a dia. Já acordo mais cedo, decidi deixar de ter tv no quarto (que me acompanhava as insónias e me embalava em inglês), de 40 passei para 5 cigarros (e já vou no 2º dia sem grande tormenta), vou tentar deixar-me da companhia irlandesa com gelo e com ou sem um farrapo de água, decidi beber apenas uma bica em vez das 10 e aproveitar a teína do chá, resumindo, vou mudar mesmo algumas coisas importantes.
Pode ser que estas pequenitas modificações sensoriais antecipem o que vem aí. A ver vamos. Até estou contente. Tenho muitas confusões para resolver, mas estou contente. Bom, talvez este não seja o sentimento certo... Entusiasmado? Pode ser, é melhor.
Vou é torcer para que na segunda feira nada de mau aconteça. Quero evitar sobressaltos que me provoquem alterações e me obriguem a refugiar em café e cigarros. Por via das dúvidas, já retirei a tv da parede do quarto e não consigo recolocá-la no grampo sem ajuda. Portanto vou entrar na semana sem ninguém ao lado para evitar uma recaída.
Ai... sózinho, sem tv, desorientado pela falta da cafeína e sem cigarros porque pensava que aqueles últimos cinco chegavam?
Já me estou a passar... e ainda é Sábado.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

cento e dezanove

Hoje esteve um dia glorioso numa Lisboa que cada vez sinto menos minha. Foi dia claro de céu azul e límpido, mas cujo frio obriga as pessoas a vestirem-se menos mal com sobretudos e cachecóis, luvas e chapéus. Gosto de sentir esta minha cidade, mesmo odiando o frenesim louco das compras natalícias que desesperam quem tenta circular de um lado para o outro.
Reparei que andam mais motociclos nas ruas, facto que se deve à nova lei das 125cc. É bom, finalmente, ver uma lei decente aprovada neste país, um dos últimos dois (com a Holanda) que teimava numa enorme parvoíce.
A poluição é menor, o estacionamento facilitado, poupa-se tempo e stress. Há é que ter mil e um cuidados pois sabemos bem como os automobilistas reagem quando estão parados numa fila. A vontade enorme de ver esse "sacana" que a ultrapassa estatelar-se no chão é coisa de bárbaro, gente manhosa e profundamente infeliz. Mas é isso que somos e não há como evitá-lo.
Mas o que mais me desorienta sobre as duas rodas são as constantes mini-reportagens tv sobre a capital (e resto do país) europeia que juntou os povos para discutir novas políticas para a saúde do planeta. Só se fala e mostram centenas de bicicletas e de ciclovias. Que maravilha... Que bom deve ser andar de bicicleta de um lado para o outro sabendo que se tem prioridade sobre os veículos motorizados. Que gente nobre essa, que se faz ao frio com um gorro e cachecol. Que felizes.
O Sócrates deve ter pensado que fazendo ciclovias em Lisboa iria oferecer esses sentimentos aos olissiponenses e conseguir, mais uma vez, mentir sobre a crise. Esqueceu-se foi de fazer estudos sobre as sete colinas, os buracos e demais problemas que impossibilitam total e drasticamente a utilização desses gentis veículos numa cidade inimiga dos mesmos. É que nem a pé se pode circular...
Mas pronto, lá vamos vendo as tais reportagens tv sobre essa gente maravilhosa e sorridente que pedala sem fim.

Só mais uma coisinha. A minha enteada mais velha está a passar um ano nesse grandioso país de gente de bem com a vida e com o mundo. Sabem o que lhe aconteceu no primeiro dia que lhe deram a bicla para andar de um lado para o outro?
Roubaram-na!

Deve ter sido um tuga. É que só pode. Os dinamarqueses não fazem coisas dessas. São perfeitos...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

cento e quatorze

Hoje é um dia muito especial e está a passar ao lado de milhões de utilizadores da internet: o site Mininova, muito apreciado pela comunidade P2P, pôs fim à distribuição de torrents, ou seja, filmes, séries, fotos, discos, documentários and so on and so on.
Logicamente, esta situação tem a ver com a perseguição dos vários governos contra este tipo de troca de ficheiros (a CEE prepara-se para aprovar uma nova lei anti-pirataria) e defende os tão famosos direitos de autor nas suas variadas formas e fórmulas.

Defende?

Na minha sincera opinião, não! Pelo contrário e passo a explicar.

Sendo também um autor publicado, o primeiro crime que existe contra os meus direitos vem através da própria editora quando faz milhares de discos a mais numa fábrica brasileira que coloca à venda no mundo inteiro sem dar cavaco a ninguém. Ou seja, nem eu sei quantos discos vendi e vendo. Nem eu nem a SPA.
O segundo problema é a própria SPA, um antro de gananciosos e ladrões que vivem à custa dos meus royalties e que têm o descaramento de oferecer "adiantamentos" milionários aos artistas do costume que são os que menos precisam deles. Esta sociedade tem esquemas tão bem montados que os antigos gestores, após terem sido demitidos por gestão danosa, ainda ganharam um recurso que a obriga a  pagar-lhes uma maquia de dinheiro digna de um prémio do euromilhões.
Depois vêm os direitos conexos, coisa juridicamente complicada, cujo pagamento é "esquecido" pelas entidades que utilizam a nossa imagem/nome/obra para se promoverem (tvs, rádios, revistas, etc).
O publishing é outra grande cantilena. São empresas que andam pelas SPAs de todo o mundo à caça do meu dinheirinho. Como é que um artista controla isto?
Finalmente, os armazéns de multimedia que revendem os cds às lojas (fora os esquemas e as compras directas às editoras), os distribuidores e as lojas que, todos juntos, conseguem vender um CD que custa dois euro a 15, 18 ou 20. Os artistas recebem uma mísera percentagem por cada CD à saída da fábrica, não ao preço da loja.

Ora com tudo isto é normal que quem faça música (ou outra arte que tenha suportes e esquemas de produção similares) não fique rico e que tenha nos concertos ao vivo o real ganho de sopa e pão.
Mas se não há disco, não há distribuição nem divulgação. Sem essas não há concertos. E pum!

Então porque é que, sendo artista, não concordo com o fecho de sites onde vou buscar de borla o que quero? Como é que defendo a ladroagem ao meu próprio bolso? Bom, convém dizer que pago principescamente o serviço net que assinei, portanto pago a alguém os royalties e demais direitos do que "saco" ou "baixo". Se a Meo/Zon/Clix/Sapo/etc não têm um acordo com a SPA, isso é um outro problema a resolver. E, sinceramente, o real!
A questão é que no ano passado comprei cerca de 100 cds dos 500 que ouvi. Se não tivesse ouvido não os tinha comprado, pois continuava a desconhecê-los e, convenhamos, pagar 18€ por um disco que não se sabe se é bom ou não é só para alguns. Este ano já comprei uns 40 dos 300 que ouvi.
Ou seja, devido à troca de ficheiros P2P comprei 140 cds em dois anos. E fiz outros comprarem-nos, pois teci elogios por mail, telefone ou facebook... façam as contas.

Como artista, o que me interessa é a divulgação e essa é feita através da net, pois as editoras e demais amigos não querem gastar dinheiro em promoção. Acho que é uma equação muito simples...

Existem outros problemas como, num país limítrofe e inculto como o português, sofrer o imenso azar de ter um gosto diferente da maioria. Ou seja, e mesmo que queira comprar o que procuro, não o encontro à venda nas lojas nacionais. Sou, portanto, obrigado a esforçar-me e ter um cartão de crédito e dar a ganhar o meu dinheiro às lojas internacionais.
Gosto muito de documentários, principalmente da BBC, e de outras divagações televisivas. Mas como aceder-lhes se os 100 canais de tv que pago nem sabem do que estou a falar?

Será que tenho que viver ignorante, tipo carneiro, e levar com o que os abutres, geralmente incultos que mandam nas estações televisivas e radiofónicas, gostam ou me querem impingir?

Desculpem mas não sou pimba. E tão pouco estúpido.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

cento e dez

Hoje deu-me uma imensa vontade de desligar o telemóvel. A questão é que foi para sempre. Sim, sou dos tais que dormem com ele on, que o remetem para o silêncio em cinemas e artes várias,  que raras vezes o esquecem num bolso de uma mala ou casaco, dos que ficam atónitos quando não têm rede, dos que barafustam quando o operador falha, dos que procuram as mais recentes novidades de streaming de dados sem pagar quota, que adoram o wifi, que querem sempre o último modelo.
O que ganhei ao longo de todos estes anos em que ainda relembro o primeiro bloco de ferro da Nokia com uma antena ridícula e falsa? O que ganhei ao querer o último modelo porque fazia mais x que y? O que ganho actualmente quando olho o Satio na montra? A quem interessa, sem ser para mim, o facto de conseguir com este novo modelo ver o que tenho no disco rígido da PS3 que está em streaming com o iMac, em qualquer lugar remoto?
Sei que ganho momentos de prazer. Sou um confesso gadgetfreak, adoro tecnologia, todos os seus pequenitos avanços, sinto-me bem quando demonstro e ensino todos os que me rodeiam, gosto de ser considerado como guru destas artes e ciências modernas.
Adoro perder-me nos sub-menus indecifráveis para a maioria, como receber chamadas de gente em pânico porque o computador (pc ou mac) deu raia. Gosto de provar que, afinal, não sou assim tão geek ou tecnofreak, pois também detesto os nerds informáticos e similares.
Ao fim e ao cabo, acho que sou um gajo moderno, sofisticado q.b. e continuamente interessado no próximo passo.
A questão é que no século anterior, pessoas como eu ainda tinham a sua graça e utilidade. Com a passagem do milénio, surgiram novas infra-linguagens pseudo-técnicas que fazem todo um esforço para que não sejam compreendidas por pessoas nascidas antes de 1980 que é o meu caso.
Quanto a essas, no way, nunca me ultrapassarão.
O problema é outro. É  a questão da liberdade, da disponibilidade, do ser e não estar, como do parecer e não querer. Longe vão os tempos em que combinavamos com os compinchas às tantas horas naquele preciso lugar. Não tinhamos carro, nem GPS, nem telemóvel e quem chegava atrasado 15 minutos já sabia o que ia enfrentar. Hoje estamos disponíveis para as desculpas e atrasos dos outros. Ficamos à seca, pois somos do tempo em que a pontualidade era in ao invés de forex. Somos, portanto, gozados.
Ou seja, o nosso telemóvel plimplimplim é a última prisão. Recebe chamadas, mensagens escritas, faladas e imagéticas, recebe emails, tem já um A.GPS incorporado para mostrar onde estamos, é camara foto e videográfica que nos transforma em jornalistas ou paparazis, liga-nos ao Facebook, Twitter, Myspace, Netlog, Plaxo, Netmeeting, HoresOnLine, Continente, análises clínicas, fisco, StarTracker, Amazon, youtube, farmácias, trânsito, banca, pagamentos de serviços, Wikipedia, Fnac, Worten, Vobis, Stick-a-Skin, Cp, Refer, Benfica, Atlético Clube de Alvalade, Supremo tribunal de Justiça, jornais on line, Nasdac, leilões, Remax, Bimby, Torrents, Mundo, sub-mundo, extra-mundo, Scully, MacGyver, blogger, wordpress, podcasts e mais tudo.

O que nos resta então? Qual é o nosso tempo? Como podemos ler livros e escrever os próximos? Como podemos pensar nas soluções para amanhã? Como podemos ouvir música e desejar fazê-la? Como podemos ser unos quando estamos tão unidos?

Eu não pedi para ser irmão de toda a gente ou o tio dos mais pequenos ou o amante dos mais desesperados. Mas caí na própria teia. Tenho saudades de ter tempo e de ser quem fui. Tenho saudades do tempo. Da liberdade. Da individualidade.
Tenho saudades de mim, quando quis mudar o mundo, pois era imortal e tão garboso que levaria a minha nave a conquistar o desconhecido.
Agora...
Bom, agora só penso em desligar para sempre o telemóvel.
Mas sei que vou ferir toda a gente que pensa em mim, que me quer bem e que está habituada a que eu exista. É que hoje em dia, desligar o telemóvel é como desligar a máquina que nos sustenta a respiração e a identidade.
Se o desligar, morro.
Creio nisso.
E ainda sou novo....