quarta-feira, 30 de setembro de 2009

noventa e cinco

Ontem, devido a uma quebra de sei lá o quê da EDP aqui em parte do bairro, tive uns bons 20 minutos para pensar no que seria a vida sem electricidade e cheguei rapidamente à conclusão que é impossível para nós, gente que já nasceu com ela, sobreviver sem o seu luxo. Ok, podem dizer-me que não, não é bem assim, que até conseguiríamos uma existência catita, mais pura e chegada ao divino e inundar-me com exemplos. Mas eu acho que morreríamos todos, pois não sabemos plantar e cultivar, filtrar as impurezas da água, não temos poços nem tanques e as bomba de gasolina não funcionam sem electricidade...
Mas o exercício que depois pensei é que me fez escrever este post:
E ao contrário de tudo, será possível viver uma vida sem colocar o pé fora de casa?
Vamos a isto!
Trabalho online, garante de sustento e de recebimentos/pagamentos via banca online: check.
Supermercado online (fora as pizzas, frangos e demais serviços): check.
Compras diversas online: livros, discos, AV, móveis, etc: check.
Comunicação triple play: check.
Médico ao domicílio: check.
Prostitutas ao domicílio: check.
Trolhas, técnicos diversos para pequenas obras no domicílio: check.
Finanças (pagamento de impostos): check.
Ao fim e ao cabo, tudo check.
Portanto, é muito possível viver toda uma existência sem colocar os pézinhos na rua (reparem que não estou a falar de mais nada a não ser da possibilidade pura e simples).
Ao fim e ao cabo, e posso estar em erro, só não podemos ir ao dentista, operação cirúrgica e votar. Os primeiros são complicados, mas o último... poderia viver muito bem sem assinar a cruz pois são sempre os mesmos e nada muda.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

noventa e quatro

Ao meu redor estão muitas pessoas diferentes de género e vida. É muito bom ter amigos e bons conhecidos de vários enquadramentos e quadrantes, pois por muito que a minha vida me alheie do frenesim diário, não consigo ser um eremita por muito que até nem desgostasse dessa verdadeira alternativa. E logo eu, considerado um bicho social...
Ultimamente tenho observado algumas mudanças comportamentais, reflexos da crise existencial e social, e a coisa não está a ser bonita. Exemplos? As pessoas SA, LDA e SARL.
As SA são as que Sofrem por Antecipação. Choram-se por tudo e por tudo, antecipam que vai correr mal, são nervosas, quizilentas, agressivas e barulhentas. Por muito que se lhes tente incutir alguma realidade e a nuvem de uma úlcera nervosa, a resposta é sempre curta, grossa e mal educada. Só apetece fugir mas depois entra a tal coisa da amizade e lá vamos continuando a levar porrada.
As pessoas LDA são as Loucas Da Alma, tristes e abafadas, sofrem em surdina sem querer alterar uma vírgula na vida de alguém que está ao lado. Choram compulsivamente sem entender porquê, mas sempre no esconderijo do WC ou no quarto com a almofada a abafar o soluço. A ajuda que tentamos é sempre aceite com uma tal tristeza no rosto que pensamos imediatamente em retirá-la. Só apetece fugir mas depois entra a tal coisa da amizade e lá vamos continuando a levar porrada.
As pessoas SARL são as Solitariamente Agressivas com Registo Libertino, grandes objectos de desejo, sempre impecáveis e bem tratadas, mas donas de uma arrogância tal que pensam conseguir esconder a sua extrema tristeza e solidão com uma vida abundante de amantes, compras, recheios e viagens. São muito complexas e mudam drasticamente de feitio várias vezes ao dia. Só apetece fugir mas depois entra a tal coisa da amizade e lá vamos continuando a levar porrada.
Perguntar-me-ão, mas bolas, não conheces gente "normal"? Claro que sim! São as COM, pessoas Comunicativas, Organizadas e Maduras. Mas onde está o gozo, a aventura, a novidade? Onde está a necessidade de quebrar a regra ou a rotina com uma graça fora do sitio certo, uma aventura fora de horas, qualquer coisa que não esteja na agenda filofaxiana? Só apetece fugir mas depois entra a tal coisa da amizade e lá vamos continuando a levar porrada.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

noventa e três

Uma simples frase de alguém pode reacordar-nos algo que estaria perdido para todo o sempre. Foi o que me aconteceu agora ao ler um dos muitos blogues que gosto de seguir: alguém quer pisar uvas. O que me foi fazer... relembro agora, cada vez com mais saudade a cada segundo que passa, as temporadas que passava na terra do meu pai (que tem dois éles e um ipsilon de história antiga mas esquecida pelo tempo e gentes) quando era muito muito catraio.
Tinha a companhia de primos e era uma algazarra empoleirar-mo-nos nos pequenos espaços livres das carroças puxadas por bois, cheias de uva acabadinha de apanhar. Nesse caminho até ao lagar, comiamos quilos de uva preta pequenita e depois ajudavamos na pisa. Normalmente o resultado era um extremo e sonolento (quase embriagado) cansaço infantil e uma forte diarreia, mas no dia seguinte ninguém nos proibia a mesma viagem. Nessa mesma altura comia queijo de cabra acabadinho de fazer, bebia o seu leite e adorava ir à cave de um outro primo onde a família se juntava para grandes conversas regadas com vinho da pipa, presuntos pendurados a curar, outros cortados com mestria, queijos vários e um pão que sabia à vida.
De vez em quando bebia um copito de vinho.
E de vez em quando era muito, mas muito feliz.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

noventa e dois

Confesso-me dependente do audiovisual. Oiço muita música, passo muito tempo na net, adoro seguir seriados TV e perco-me com prazer nos muitos filmes que também vejo em casa. Se bem que a net tenha desculpa, pois trabalho com ela, há momentos em que penso na liberdade que vivi quando ela ainda não existia. Apanhava mais sol e ar puro, certamente. Mas os tempos eram outros e o ar que se respira na rua está longe da pureza de algumas décadas atrás. Criticam-me também por, como cinéfilo compulsivo, deixar de ter frequentado o escurinho das salas de cinema. Respondo sempre que quando vejo um filme gosto de apreciá-lo no mais puro dos silêncios e com a concentração aos níveis mais elevados que consigo e isso é impossível com a falta de educação que se verifica hoje por todo o lado, seja na forma de pipocas, sms, conversas já não abafadas ou melos de adolescentes que não têm onde mais ir. As séries televisivas são uma droga. Sigo uma vintena ou mais e dão-me prazer. O que posso fazer? Quanto à música, essa é outra história. Não sobrevivo sem ela, desde os meus clássicos às novas sonoridades que vou descobrindo e que tento apresentar aos amigos como um adolescente entusiasmado.
E a vida, perguntar-me-ão?
Bolas, e isto tudo também não a é?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

noventa e um

Ando estarrecido com alguns programas televisivos que, nas barbas de toda a gente informada, copiam integralmente algumas soluções e ideias de outros programas televisivos.
Exemplos? Os Gato Fedorento com este novo "Esmiúçar os Sufrágios" e uma fulana de olhos verdes (ou azuis) e corpo interessante que foi a cara do "5 para a Meia Noite" das últimas segundas-feira.
No caso do RAP e amigos, a colagem a esse extraordinário diário noticioso norte-americano que é o "The Daily Show" e ao seu apresentador/protagonista Jon Stewart é, por demais, evidente. No caso dos olhos verdes (ou azuis), a pilhagem de sketches do Conan O'Brien e Jay Leno é má demais para ser verdade.
Ambos perceberam que o que está a dar é agarrar num conceito com milhões de espectadores por todo o mundo e fazê-lo à portuguesa. E claro está, ambos se estampam. E isso é consfrangedor. Tenho para mim que, quando se rouba, há que fazê-lo com alguma pinta e tem que se ter como objectivo único ser melhor que o original. Pode ser que assim a coisa passe, que as pessoas até façam o jeitinho, que as críticas sejam atenuadas, que enfim, se consiga fazer a coisa e obter alguma notoriedade por parte dos mais ignorantes ou distraidos, alcançando um outro grande objectivo nacional que é o de pertencer às listas de convidados "vip" para as festas de Verão nas discotecas que só são in nessa época. Ah... e ser amigo das Mayas que pululam por aí.
RAP está sem jeito como Jon Stewart pois falta-lhe tudo o que este tem. Os olhos verdes (ou azuis) tem tanta gana de auto-promoção que já nem dá pena vê-la a babar-se ou a aterrorizar o idioma português. Os sketches de ambos os programas roçam o mediocre menos menos, embora os Gato consigam ainda sacar algumas gargalhadas, inclusivé minhas, quando fazem o que sabem fazer, ou seja, comentar as notícias e imagens do dia.
Contudo, mete medo saber que tudo é possível na televisão portuguesa. E mais medo mete o facto de percebermos que não há ideias novas. E isso sim, é trágico.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

noventa

Como já escrevi lá para baixo, estou e tenho tentado acabar com o que se alcunha de lixo da e na minha vida. Entenda-se esse lixo pela tralha que ocupa os aposentos, 90% dela que só serve para acumular pó ou ser rearrumada uma vez por ano aquando a limpeza geral.
Continuo com essa vontade e necessidade mas sofro de um complexo bipolar: às vezes tenho vontade de me desfazer de quase tudo, outras de quase nada.
Escrevo sobre isto porque a minha idade tende teimosamente a seguir em frente e porque tenho medo que a minha cabeça, num futuro, não seja capaz de se lembrar das memórias que os pertences evocam apenas pelo olhar. Imaginem a desgraça que é finalmente decidir limpar a nossa vida de tudo o que acumulámos para depois não nos lembrarmos de nada e precisarmos desse apoio material para pelo menos nos reconfortarmos.
É que tenho mesmo medo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

oitenta e nove

Muito se fala sobre o papel da Mulher nos tempos modernos sempre e cada vez mais influenciado pelas revistas, televisões, opiniões, anúncios, ilusões, necessidades, obrigatoriedades, encantos, desalentos, paixões, desamores, paparazos, imagem e imagens, tradições, modernidades, sexo, subtilezas, praias, modas, magreza, idolos, amantes e um nunca acabar de provocações, promoções, festas, alarido, cor rosa e sonhos photoshopianos.
Depois o mundo realkombat ataca esta ilusão com o concreto, as formas, rugas, os descaídos, a idade, gordura, os papos, a tristeza, desilusão, combate, fúria, doenças, maternidade, emprego, cansaço, carreira, "domesticidade", pavor, medos, fobias e os receios de perder, esgotar e ser trocada por um modelo mais novo.
No meio disto tudo estão os homens. Uns parvos ao ponto de acreditarem e seguirem o primeiro formato, outros conscientes que o segundo também não é assim tão mau.
O problema é que os homens ficaram impávidos e serenos a assistir a este endeusamento de uma Mulher que não existe (ou existem poucas) de formas bellucianas, sorrisos foxianos, sensibilidades penelopianas, graciosidades Berryanas e inteligência thurmaniana ou, para conter tudo no mesmo saco, aliar um cruzar de pernas ao QI superior de um alien chamado Stone o que, convenhamos, é uma pedra!
Mas tudo estava bem, pois nós homens gostamos de afirmar que gostamos delas grandes ou médias, deles grandes ou redondos, carnudos ou sensuais, longos ou encaracolados, dela curta ou comprida, dele a ver-se ou escondido, de fio ou body, de odor 5 ou natural, peluda ou pelada, loura ou morena, verdes ou negros, azuis ou castanhos ou, para terminar, cinzentos como eu gosto.
Num repente, tudo mudou graças ao que explanei no primeiro parágrafo. Devido a Bekhams ou Ronaldos e afins, somos neste momento confrontados com a dura realidade do excesso de peso, de pelo, da falta de um dente, de um sorriso menos branco, de um cabelo ao natural ou da falta dele, da roupa de marca x, p t ou ó, da sapatonga, do perfume certo no lugar certo, da forma de estar, de não poder gostar de jogos e desportos tradicionais como o futebol e bilhar e ter que admirar golfe ou poker, de ter o carro da moda como se de uma jóia se tratasse, de Spas, lamas, massagens, ginásticas, de estar sempre impec num mundo de impecs.

O problema é que vejo as senhoras que recusam ser fantoches a admirar este novo mundo em que o homem passa, também ele, a ser um boneco insuflado e falso.
Por um lado há aquelas que desdenham o David ou o Cristiano, pois por muito bons que sejam, são uns cretinos da pior espécie. Por outro somos confrontados pela grande verdade: se mesmo eles que são das barracas conseguem, porque é que tu, ó cota acabado e sisudo, não consegues pelo menos abater essa barriga? Olha que estás aqui estás a ser trocado por um modelo mais novo.

oitenta e oito

Há sitios netianos com vozes do além, despojos sentimentalistas, teorias conspirativas e, pasme-se, obituários sobre relações que não deram certo. Alertado por uma exclamação e respectivo link no FB, fui ver este local em que se despeja ódio, razões, falta delas e se apontam erros, descortesias, problemas e traições.
Li apenas as primeiras frases dos casos portugueses que escancaram as suas desilusões e fiquei cheio de medo. Tive a minha quota parte de namoricos e aventuras, vivências e exposições e comecei a pensar em algumas, exactamente nas que não terminaram bem. Se bem que me ache um tipo porreiro que cometeu certamente alguns erros, tenho a consciência limpa em 98% dos casos. Vá lá, 95%. Ok, 90%.
Desde tenra idade que fui namoradeiro, tinha boa figura e um sorriso bonito que aliado aos profundos olhos negros, convencia muita rapariga que poderia ser o tal. Confesso que tudo fiz para que se apaixonassem mas fugia delas a sete pés quando tal acontecia. Nesse aspecto serei um sacana? Depois defendia-me com duas situações: a primeira era fazer tudo por tudo para que elas acabassem o namorico, não eu, fingindo-me distante, desinteressado e não tão perfeito quanto um principe o é. A segunda era tentar depois uma ou duas razões para que o desenlace negativo fizesse sentido. Consegui algumas vezes esses intentos e noutras falhei rotundamente.
Já me chamaram muitos nomes feios por ter sido assim, mas na verdade só não falo com duas ou três pessoas que passaram pela minha vida, o que não me parece assim tão mau.
Contudo a experiência da vida mostra-me que não fui tão perfeito quanto pensava e que fiz sofrer algumas pessoas que não o mereciam. A elas fica aqui um pequenito mas sentido pedido de desculpas e que estou aqui para qualquer esclarecimento adicional... nem que seja apenas para não fazer parte desse site de falhanços.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

oitenta e sete

Oprah e BEP

Acho que é o primeiro video que publico neste espaço, mas quando o vi no YT senti um calafrio na espinha, daqueles bons quase arrepiantes de frio mas que nos dão uma boa sensação.
Não sou fã da Oprah, embora a ache um boneco audiovisual interessante e muito menos fã dos Black Eyed Peas, embora lhes reconheça um ritmo contagiante e belos videoclips para imitar a coreografia. Contudo, ambos reuniram mais de 20.000 fãs que estudaram toda uma complicada dança ritmada com um dos temas menos hip-hop do grupo, ou seja mais hip hip e hop hop.
O resultado é fantástico, quase surreal. Ver um mar de gente a adorar estar ali, a "botar cá p'ra fora" os maus fígados, a rir, sorrir, gritar e cantar em uníssono é bonito.
A música, qualquer que seja, tem este único dom: o de conseguir juntar credos e raças, velhos e novos, políticos e apolíticos, dançarinos e pezudos.

Vale a pena rever.

oitenta e seis

Ahhhhhhhhhhhhhhh, estas pequenas férias revitalizaram-me. Descansei em dois locais principescos e algarvios. Estive em praias desertas de gente e onde se consegue caminhar nas águas tal como Moisés durante um pequeno periodo de tempo. Vivi a companhia de quem me acompanha e de mais uns convivas que aproveitaram um dos fins-de-semana. Aproveitei também para repôr leituras, ver uns quantos filmes que estavam empilhados e conversar. Conversar, não falar.
Existe uma enorme diferença.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

oitenta e cinco

Teleespectei (de teleespectador com ou sem hífen que hoje em dia já não percebo nada disto) o programa tv2 "curtas e tal" de hoje. Nele surgiu uma longa apresentação sobre o novo filme do Miguel Gomes que se intitula "a cara que mereces" ou similar, pois não me apetece de todo ir googlar a info. Ora o plot é atrevido com um pózinho de originalidade (a atirar para elementos Gillianescos e familiares modernos), ritmado q.b. e deverá ser marinado hora e meia antes de servir com um happy-end pouco normal para uma película portuguesa. Pois até me divertiu e encheu de curiosidade. Mas, e há sempre um mas, não entendi porque carga de água é que metade da apresentação foi dada em francês. Depois, quando parecia que já tinha terminado, surgiram mais cenas em português o que me fascinou ainda mais, pois e olá, temos uma apresentação bilingue!
Enquanto pensava nesta dualidade e injuriava o autor que apostou numa lingua morta em vez de na já admitida por todo o mundo como oficial, eis que percebo que o som enquanto francófono se percebia na perfeição ao contrário dos ruídos estranhos provocados pelas vozes dos autores quando falaram o português. E isso sim, concentrou-me as atenções. Mas porquê??? Será que os técnicos eram franceses e dos bons? Será que o microfone ainda estava novo? Será que será? Mas porque carga de água (H2Oh para mencionar o jPod) o som dos filmes portugueses é quase sempre uma imensa cacofonia de má qualidade? Não é dos actores, pois quando falam inglês ou francês soam bastante bem. Portanto só pode ser dos técnicos de som. Ou dos Nagras. Ou da fita magnética já muito gasta. Ou do material muito usado. Alguma coisa tem que ser. Mas bolas, numa época em que existe material de captação bom e barato, isto não deveria ocasionar um post. E o problema é que deixei de ter vontade de ir gastar dinheiro e ver um filme nacional.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

oitenta e quatro

Adoro jardins, a melodia do vento a passar por entre as folhas. Se calhar gosto é do vento num jardim e aproveitar as sombras aqui e ali. Ou então gosto é de sombras, quanto mais frescas melhor, pois não gosto e não me dou bem com calor. Não sei de onde vem esta minha aversão ao calor mas qualquer coisita acima dos 22, 23 graus já me incomoda. Não é que goste de andar cheio de roupa pois prefiro uma t-shirt, calças leves e um par de ténis, mas tal como tenho calor acima da temperatura mencionada também só sinto frio abaixo dos 10 graus. Ou seja, sou um fulano equilibrado.

É isso. Sou equilibrado.

domingo, 30 de agosto de 2009

oitenta e três

Após longos anos descobri a adjectivação ideal para dois tipos de gente que abomino e de quem tento, muitas vezes com esforço inglório, afastar-me. São as LF e as LS. Curioso como olho agora para quatro simples letras, uma delas até repetida, e percebo quanto demorei a encontrá-las. Mas acho que valeu bem a pena e vamos a isso!

As LF são as Lagostas Fingidas, gentalha que se queixa de tudo e mais alguma coisa como a gripe, a crise, o ponto de cruz, o souflé que não subiu, dos litros que o carro gasta, do preço sobrevalorizado do espumante champanhês, da disparidade de valor de uma salada de rúcula do Pingo para o Apolónia, do povo que está na praia que há vinte e tal anos era sua pertença, do sol que está forte, da nuvem que se coloca mesmo defronte do astro-rei, dos noticiários que só passam tragédias, da falta de elementos trágicos durante o Verão, da celulite das socialites, dos cremes que essas recebem de borla dos seus amigos cabeleireiros um bocado larilas, dos gays que estão ali mesmo à frente e dos corpos esbeltos que muscularmente exibem. As LF estão sempre descontentes mas há uma enorme diferença entre a LFH e a LFM, simples e directos sub-grupos. O Homem é mais desgraçadinho pois fala muito sobre as tragédias do emprego que ainda tem, sabe-se lá porquê. A Mulher vive apenas desgraçadamente exigindo ao seu H mais empenho, objectivos, capacidade de liderança e de trabalhar com espirito de equipa porque para o ano que vem aí mesmo já ao virar da esquina, precisa de uma temporada de liftings e upthings, solário e massagens, tai chi e tuchi e taiquemori para fazer boa figura no tchin-tchin… que só viverá com as amigas da mesma laia.

As LS são as Lagostas Suadas, gentalha que só se queixa do enorme esforço que dispende diária, mensal e anualmente para poder pagar todas as contas dos seus 2,3 filhos, 1,4 imóveis, 2.0 veículos automóveis ou outros, 12+2 mensalidades x X (veículos, imóveis, escolas, atls, ginásios, seguros, time-sharings e ….. – colocar o que falta pois não tenho paciência-), que o governo não presta mas vale mais que uma alternativa que não presta, que vota Isaltino, Felgueiras e demais mesmo sendo cúmplices (e vitimas) dos seus crimes, que acha graça às namoradas do CR7/9 mas repudia a falta de formosura dos elementos femininos da sua família, que o Beemer do vizinho tem um facelift mais actual que o seu modelo, que o pão cozido depois de congelado é mesmo muito mau mas já não há outro e que, raios partam isto tudo, a crise não há meio nem fim.

Agora que vos expliquei o que são LFs e LSs e as razões que me obrigam a fugir a sete pés, perguntar-me-ão se eu próprio não penso algumas destas coisas. E sim, claro que sim! Sou português, eterno insatisfeito, sebastiasnista e por conseguinte, atolado em tudo o que não tem importância alguma.

Como disse o outro e reforçando, se me é permitido, com o meu toquezito, “bolas pá, façamos o favor de ser felizes cum catano!Arrrrrrrrrrrrrrrrrreeeeeeeeeeeee!”.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

oitenta e dois

Sempre gostei do faz de conta. É, aliás, uma gentil e responsável arte quando se conheceu a sorte de ter sido bem educado pelos educandos e pela vida. Quando se tem dinâmica e reflexos rápidos, demonstra-se alguma lentidão para que os que nos acompanham não fiquem prejudicados. Quando se tem predicados e inteligência, evita-se falar de assuntos que mereceram longo estudo e interesse. Quando se tem dinheiro faz-se com que ele seja generoso e nunca obrigue outrém a fazer ginástica. E quando se tem hipótese, defendê-la como se nada fosse é apenas um verbo durante o dia.

Depois há o contrário: quando se tem alegria abunda-se-la no espaço, quando surge a tristeza afugentamo-la solitariamente e quando não se tem paciência apenas terminamos a situação mais cedo, sempre com um sorriso e sempre com um “até amanhã”.

A vida é deste modo tão mais fácil. E é por isso que se tem amigos com 30 anos de cumplicidades e recebemos os novos de braços abertos e sorriso galhardo.

Não é preciso ser valente nesta vida. Apenas ser humano é quanto basta. E isso devo-o totalmente aos meus pais e à sorte que foi ter sido mimado na vida por pessoas que conheceram a mesma fortuna que eu.

Um sorriso quanto baste, basta.

domingo, 23 de agosto de 2009

oitenta e um

Não sou vingativo. Minto. Penso nas vinganças ao menor detalhe e sigo a máxima de que se servem quando estiver mais frio. Não me dou bem é com injustiças e derrotas que promovem esse nosso feio comportamento, muito menos quando me têm como perdedor. Nessas alturas sou vingativo e como já referi, penso na resposta com calma, perfeccionismo e tenacidade. Mas o tempo passa e acabo sempre por ficar apenas com um amargo de boca já sem força ou vontade para dispender mais energia e apontando o dedo acusatório apenas contra essa minha sofreguidão. Deixo, portanto, que o tempo - esse grande conselheiro - coloque os pontos nos is. Não é que fique satisfeito, mas pelo menos olho para cima e digo em surdina "fez-se justiça!".
Dias atrás aconteceu uma dessas situações em que, passada uma década, olho a derrota de alguém que me derrotou anteriormente. Foi uma conversa olhos nos olhos, digna, séria e emotiva. A outra parte sabe que a sua carreira obrigou ao cancelamento da minha pois só havia um lugar no poleiro. Nunca falámos sobre isso, nunca foi preciso. E nesta altura menos boa, foi comigo que gritou o mesmo que eu já tinha gritado, que amaldiçoou os maus ventos gerais, injuriou uns quantos deuses e suspirou umas cem vezes.
No fim não me senti satisfeito nem justiçado. Até sofri uma pequena ponta de tristeza que rapidamente tentei afastar. Não é bonito sofrer uma derrota. Mas também não é bonito assistir à derrota de outrém.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

oitenta

Desde putos que os portugueses adoram tocar instrumentos. As familias mais à vontade pagam aulas de violino ou piano aos rebentos mas até esses se juntam aos demais para tocar o instrumento mais universal que há: a campainha de porta.
Antigamente era só vantagens. Barato, não pesava nem no bolso nem na mochila e não era preciso grande ginástica a não ser para correr umas dezenas de metros o que até obrigava os jovens a algum esforço físico salutar. Mas até as coisas mais simples da vida mudam. Se antigamente só tinhamos que aprender a técnica da fileira única (conjunto de campainhas reunido num lado da porta de entrada) ou a do Acordeon (campainhas divididas por dois paineis em ambos os lados da porta de entrada), hoje é preciso todo um curso bem superior do Técnico, Restart ou Etic para conseguir tornear a dimensão dos botões, sempre diferentes de prédio para prédio, a pressão do toque, ultrapassar por vezes a maior distância entre eles e esconder a cara com um collant, balão ou capuz para evitar ser apanhado pela câmara a preto e branco ou a cores.
Mas mesmo isso é tarefa fácil se comparado com a nova modalidade: a obrigação de ter que ler atentamente todo um manual de instruções com letras pequenitas e pouco iluminadas, para conseguir saber o código alfanumérico que tocará no andar pretendido após um Enter.
Isto sim, poderá ser o golpe final numa das maiores tradições com que os petizes se entretêm desde os tempos dos nossos avôs. Depois não se queixem da obesidade infantil.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

setenta e nove

Não nasci num Portugal com fracos valores mas num de mudança maior que implicava vontade, energia, caminho e objectivo. Tudo isso falhou mas uma coisa não o deveria e é essa que mais me preocupa, agora que também me toca e persegue.
Se contarmos 80 anos como uma vida, ter 40 é estar na meia idade. Ora em Portugal isso é quase sinónimo, caso nos sintamos obrigados ou com vontade de recomeçar (tão simplesmente e repito, recomeçar), do final da vida útil. É-se um velho, fora da realidade, sem conhecimentos desse novo mundo da web e redes sociais. É-se gasto, out, ultrapassado. Está-se caduco, não maduro. Cansado, não sereno. Louco, não perspicaz. Sonhador, não aventureiro.
Tenho pensado sobre a meia idade. Ao fim e ao cabo, com 40 anos quero fazer muito mais coisas do que fiz até agora. Chamam-me nomes e gozam comigo pois deveria era estar a pensar na reforma para depois poder fazer as coisas que gosto e/ou viajar. Ora tive, talvez, sorte na vida e consegui fazer muita coisa que sempre gostei e até viajei um bocadinho do mundo. Portanto, não é por aí e continuo a querer fazer mais coisas do que fiz até agora. E antes de ouvir outra resposta ou aconselhamento sobre esta grande imbecilidade, construi uma resposta simples e bastante concreta:
Ora se os meus primeiros 15 anos foram de aprendizagem básica, depois mais dez de aprendizagem teórica, depois mais cinco de aprendizagem prática, na verdade só comecei a viver o eu aos trinta anos. Ou seja e por esse ponto de vista, a meia idade profissional é aos 50 (25 de aprendizagem básica + teórica) e terei mais 25, no mínimo, para fazer as tais coisas que quero ainda tentar e conseguir. Ora 50 para 80, noves fora nada, ainda dá uns belos 30 para o antes e o depois, ou não?
Nunca fui bom a matemática, mas bolas... é que nem de uma equação se trata.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

setenta e oito

Chegado de um provençal jantar onde conheci pessoas que deverão fazer parte da minha vida futura, chego à conclusão - mais uma vez - que não me calo quando quero ficar bem no fotomaton. E depois vergasto-me porque o percebo, consciente que se calhar e talvez fui um chato do camandro. Reconhecem a sensação? A que, por um lado, respondemos ao que talvez fosse já o nosso retrato previa e socialmente esperado mas que, por outro lado, poderíamos ter ficado caladinhos e tentado (mais uma vez) aquela coisa de ser um tipo "estranho", fugidio, interessante e misterioso?
Ai o que dava por ser um desses tais misteriosos, fechado numa capa de concentração e interesse, ávido por ler nas retinas o que vai na mente, esperar a altura certa para proferir uma qualquer concordância ou evitar iniciar uma discussão politica, tão em voga neste periodo pré-eleitoral.
Mas sou um livro aberto e nem utilizo aquela máxima "quem gosta gosta, quem não gosta..." pois por muito que a defenda, não a assino assim tão por baixo. Talvez de lado e com um xis para não ser apanhado num tempo próximo.

Mas que chatice...

domingo, 16 de agosto de 2009

setenta e sete

Dos sete aos 77 anos, assim anunciava Hergé o target do seu herói Tintin. Confesso que, embora tenha a colecção a 90%, nunca fui grande fã deste modelo de virtude (?) eternamente jovem e muito fiel à sua Milu. A minha preferência recai toda no extraordinário Capitão Haddock com o qual aprendi as minhas primeiras asneiras (ex: Cercopiteco, Bexigoso, Ostrogodo e a minha preferida e que ainda utilizo nos dias de hoje, Iconoclasta). De resto temos os gémeos Dupond e Dupont, a Castafiore e o Prof Girassol, pouca parra para tanto sucesso. Como slogan, "dos sete aos 77 anos" ficou na ponta da lingua mas ao final destes anos tenho para mim que são os putos de sete que vão continuar a revisitar as aventuras deste herói até prefazerem os 77.
Se calhar quando tiverem 78 vão ler o que sempre preferi - Astérix, Michel Vaillant, Spirou e Fantásio e Lucky Luke só para citar alguns dessa época de ávidas leituras - e com muita muita sorte conseguir folhear os dois títulos do Hum-pá-pá, o pele vermelha.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

setenta e seis

Numa época GPS é bastante estranho como uma coisa pequenita, digamos um petroleiro ou cargueiro, possa desaparecer sem rasto de um mundo constante e totalmente observado. Alarmantes estes modernos sinais em que uma das mais frescas notícias acusa um fabricante de smartphones de monitorizar a vida de quem comprou o mais recente modelo. Cá nas nossas terras, o futuro é chipado nas matrículas dos automóveis que garante ao big brother a total devassa sobre a nossa privacidade. E todos nos calamos assinando aqui e ali uma qualquer petição que sabemos não ir a lado algum.
O verdadeiro herói dos tempos modernos - e com acesso à internet - é o eremita 2.0*, alguém que tenta a todo o custo auto-excluir-se das teias das redes sociais, dos blogs, chats, etc. Alguém que foge a sete pés de um mundo global e à distância de um click (para quem tem mac) ou dois (para quem tem PC) e se recusa a fazer parte de todo esse clã universal.
Encaro essas pessoas - e conheço algumas - como indivíduos um tanto ou quanto sonhadores pois a maior parte tem, para além do IP, um telemóvel e outros gadgets sofisticados. Ou teimosos, pois utilizam o bom que a tecnologia oferece mas recusam as maleitas esféricas de uma liberdade que já não existe.
O grande problema é que também eles sabem que num futuro muito próximo irão ter filhos chipados (com a desculpa de monitorizar o estado de saúde e precaver futuras e graves maleitas), automóveis eléctricos e verdes que garantem um constante blip num ecrã com radar, um cartão único de cidadania já com o que falta no de hoje (e que defende a praticabilidade escondendo o cruzamento de todos os dados e movimentos) e tantos mais truques mascarados de evolução.
Hoje olha-se de lado para o dono que larga o seu cão da trela. Amanhã olhar-se-á da mesma forma para o pai que desliga o chip electrónico do pescoço do seu filho.

*gostei de ter inventado isto.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

setenta e cinco

Numa das semanais tertúlias noctívagas acompanhado pelos comensais de quase sempre, discutimos a questão do oriente e ocidente, dois mundos que queira "deus" nunca se encontrem.
É interessante pensarmos no factor "deus" mas a conversa tentou outra estrada devido às cada vez mais constantes e destruidoras modificações climáticas.
É assustador olhar as imagens de Taiwan e relembrar o tsunami. É complicado assistir ao isolamento de milhões de chineses e queixarmo-nos do calor que suportamos. Tanto lá como cá, com as devidas importâncias, o tempo muda. O mundo muda. E o petróleo continua o seu império, as modernas escravaturas gerem cada vez maiores lucros e o poder não muda de mãos.
Terá que vir uma verdadeira enxurrada na forma de degelo para que os sobreviventes tentem a mudança de comportamentos.

domingo, 9 de agosto de 2009

setenta e quatro

O país está de luto por causa do desaparecimento de um grande humorista e pelo que toda a gente que privou com ele garante, um grande e bom homem.
Seguem-se as homenagens, as palavras, as entrevistas, os especiais, a gula e a chico-esperteza.
Enquanto o Raúl Solnado esteve vivo, lutou como poucos pela sua profissão, ajudou muita gente, conseguiu por milagre fazer a Casa do Artista, era amigo do seu amigo e amigo de quem mostrava que até queria ser amigo. Enquanto esteve vivo sofreu a bom sofrer para conseguir dignidade e atenção para os autores e actores. Enquanto vivo lutou contra o abandono de teatros, pela melhoria das condições de trabalho e tantas mais coisas. Poucos lhe ligaram e ajudaram, principalmente aqueles que têm o poder nas mãos. Agora são esses que estão na primeira fila para dizer um último adeus. É a triste sina dos portugueses que são diferentes dos engravatados. Têm que morrer para serem levados a sério.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

setenta e três

Tentei convencer um amigo norte europeu que está de visita ao nosso país a apreciar alguns petiscos muito próprios e muito saborosos. Achei piada ao fascínio imediato pela sardinha assada (que comeu com as mãos depois de aprender a técnica de retirar os lombinhos de uma só vez), o arrepio na espinha aquando a degustação de um bacalhau à lagareiro (depois de ultrapassada a dúvida sobre comer a casca da batata), o vício imediato pelo nosso tinto e branco fresquinho e o sonho que são alguns doces conventuais.
Os problemas existem mais nas entradas. Ele não compreende como se pode comer orelha de porco (não sabia o que era até lho explicar), salada de búzios, não conseguiu abrir um percebe e abominou o exagero de gordura nas nossas excelentes azeitonas quando reforçadas com azeite.
Hoje vamos tentar uns caracóis e levo camara de filmar.

setenta e dois

Tenho reparado no olhar do Louçã. Mete medo com a sua raiva apontada aos holofotes do momento com um discurso repetitivo contra qualquer coisa sem apresentar uma única solução.
Tenho reparado nos tiros no pé da Manuela. Sei que existe uma hidden agenda para afastar o que será o próximo primeiro ministro daqui a dois anos e alguns meses.
Tenho reparado no discurso embevecido do Paulo. É contido e educado, coisa que não lhe dará mais votos num país de gente à nora.
Tenho reparado no discurso dos representantes do PS, tão contentes com tudo o que se está a passar mesmo estando desesperados com o que vai acontecer.
Não tenho reparado no discurso do PCP.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

setenta e um

A questão dos horários nocturnos do Bairro Alto é melindrosa. De um lado estão os que se queixam, como os moradores. Do outro os que se queixam, como os visitantes. E no meio os que se queixam, como os empresários.
Todo este queixume esconde uma realidade. O BA há muito que perdeu os noctívagos que o fizeram, os empresários com gosto pela cultura (vá lá, ainda sobram dois ou três) e a atmosfera da famosa "movida" que fez Lisboa apetecível durante os 80 e parte dos 90.
Mudam-se os tempos e as vontades, mas com o que se fez e aprendeu poder-se-ia ter aproveitado uma vantagem única e reforçar este bairro com serviços de apoio decentes, uma atenção máxima ao conforto de quem nele reside e aumentar a qualidade geral para quem o visita, só para citar algumas forças.
Mas não. Deixou-se andar e estragar. A falta de respeito pela propriedade alheia (que é a de todos nós) só há pouco tempo conheceu uma pseudo-solução. Admito que era um desses jovens que frequentou o bairro nos seus tempos áureos e que até fazia parte do seu rebanho e foi com uma extrema vergonha, tristeza e raiva que, aquando a última vez que o visitei, descobri uma nova Beirute, um bairro em estado de sitio, os grafities desde o chão até ao ponto mais alto possível, a sujidade, o caos.
Nunca mais regressei e por isso sinto a tal coisa que se chama saudade. Não do local mas de tudo o que deu a quem o amou.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

setenta

Não compreendo como se desculpa a silly season. Na época em que tinha empregador e até horas extraordinárias, escolhia sempre o Agosto para ficar em Lisboa, minha terra querida e de regresso para mim e conterrâneos durante 30 dias. Empreguei bem este tempo, tendo acumulado funções de colegas que se iam, aproveitando o parco trabalho para fazê-lo como mestria e assim subir a pulso nessa multinacional, pois e apenas, dava nas vistas. Tão simplex.
Como eu outros amigos o fizeram e em poucos anos subimos aos cargos mais desejados. Gostavamos de discutir esta nossa política em restaurantes vazios de barulho e com serviço mais esmerado, embalados pela curva ascendente e mais-valias resultantes.
Passaram alguns anos e juntámo-nos novamente esta semana quando percebemos que mais uma vez seríamos nós a ficar na capital. Em anos de vacas magras e sem empregadores, discutimos as tristezas das nossas empresas pessoais e sociais, o fundo do túnel com a lâmpada fundida, a viragem à direita do próximo governo, a luta infantil pela CML, as futuras apostas em mercados estrangeiros como opção não de mercado mas de vida.
Dos seis ex-rapazolas garbosos e donos do mundo, estavam cinco homens tristonhos e cansados. Um já foi para Angola, dois vão rumar também para África e outro para o norte europeu. Os dois que restam estão demasiado agarrados a um ex-luxo que custa muito suor e insónias.
Aqui não se vive, sobrevive-se e não sei porquê, tenho a sensação que estes dois foram pensar muito bem sobre o futuro próximo para as suas vidas e não me admiraria que também eles optem pela emigração.
É assim que Portugal trata toda uma geração que apostou forte no seu país para agora estar com a corda na garganta. E é assim que vai perder, talvez, a última geração que ainda teve coragem e determinação para empreender um futuro.
Mesmo com horas extraordinárias sem serem pagas.

sábado, 1 de agosto de 2009

sessenta e nove

Achei por bem aguardar este escrito, presenteado pelo número mágico que faz sorrir, e tentar escrever uma qualquer parvoíce quando já estou ébrio. Sim, a noite de despedida dos convivas que partem para merecido descanso teminou à pouco e foi dura e longa e num repente quedei-me sózinho neste meu novo mundo.
Confesso que reli inúmeras vezes o parágrafo anterior e estou a fazer um enorme esforço para não escrever erroneamente uma qualquer palavra, quanto mais frase.
Tenho para mim que o álcool, ingerido com comensais que o sabem e conhecem, é uma mais valia na nossa vida. É com ele que conseguimos ser mais afoitos, directos, progressivos e com que, geralmente, até conseguimos chegar ao objectivo quando ele se bamboleia naquele vestido de Verão, mais solto e floral, mais colado e convidativo.
Ou então não, fechamo-nos em copas, armamo-nos na couraça intransponível e achamo-nos melhores que todos os outros, porque assim sim e porque assim sim senhor. Ela até vai perceber que eu fechado em educação sou melhor que o badboy que não a larga...
Confesso aqui e agora que não é raro deixar-me e continuar-me ébrio após longas horas de convívio. Continuo solitariamente em busca daquele mundo cor-de-rosa, ou botão, meto os phones xpto hifi e blablabla na cabeça e redescubro os discos que fazem parte da minha vida, com décibeis pouco salutares e figuras que fariam capa de uma qualquer revista rosa, se eu assinasse esse tom (que não sou em ambos os sentidos).
Curioso... demorei imenso tempo a reler o primeiro parágrafo e agora estou-me nas tintas para os seguintes.
Estou ébrio, só pode.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

sessenta e oito

Num país de grande nobreza e justiça, como o Portugal dos dias de hoje, é normal que me apeteça ser um autarca de uma cidade pequena ou vilória grande, como Felgueiras, Matosinhos, Maia, Leça, Figueira, Oeiras e tantas outras.
Como autarca poderia ajudar o clube da minha terra, oferecer electrodomésticos aos populares e até agraciar primos no estrangeiro com grandes somas de dinheiro.
Com outro dinheiro poderia dar novas rotundas, arranjos florais, um lar de terceira idade e embelezar umas quantas praças e avenidas para o povo revotar em mim.

É uma vida boa ser autarca neste país.
Melhor só mesmo ser dirigente futebolístico e autarca... paralelamente.

terça-feira, 28 de julho de 2009

sessenta e sete

Reparei que ofereci com o meu suor 1.000.000 de magalhães.
Estou com urticária e falta de ar.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

sessenta e seis

Sou padrinho de três jovens pessoas mas dou-me somente com duas, pois perdi o rasto à terceira e aos seus pais que rumaram para muito longe para se abrigarem da fúria a que se chama crise.
Senti-me bem quando fui convidado para apadrinhar estas três almas e prometi solenemente que, na falta dos pais, seria eu a indicar-lhes o caminho em frente.
Sinto-me bem neste papel e até orgulhoso. Não pelo convite, pois já demonstra a confiança que depositam em mim, mas pela atitude dos júniores que abrem um grande sorriso quando me reencontram sem olhar para as mãos em busca do presente mais especial.

É bom, sim senhor, e recomendo.

sessenta e cinco

Sou urbano, cosmopolita, olissiponense e adoro. Como eu, muitos amigos e amigas dessa teia denominada Facebook gostamos de sentir o pulsar da cidade e ficamos perdidos no meio de um qualquer campo.
Portanto, é curioso que toda a gente queira ser agricultor como se pode ver pelo imenso e crescente número que têm farmvilles e farmtowns. Uns até atinam e alguns são uma perfeita desgraça.
Esta vida moderna em que nos enfiamos nos computadores para fazer tudo o que se fazia sem eles há 20 anos atrás começa a demonstrar a insanidade de um mundo.
Mas até eu tenho uma quinta com bichos, árvores e culturas...

sessenta e quatro

Há por aí um blog de uma tal Margarida que se afirma virgem e faz gala nisso/disso. Esta miuda tem sido convidada para inúmeros shows televisivos, peças jornalísticas e uma promoção invulgar por gente que, acho, deixou de ser virgem há algum tempo.
De início achei piada à moça que tem a liberdade de dizer e defender o que quer nem que seja uma virtude que o vai deixar de ser brevemente. É conhecida e reconhecida na rua, recebe muito correio de raparigas que se julgavam sózinhas e até refila contra o hatemail com que é brindada.
Mas, e há sempre um mas, tudo muda quando percebo que a Margarida está a escrever um livro e que há um clube de virgens em que o acesso é vedado a todos os que o não são.
Algo está mal e vamos por partes.
O livro.
A moça escreve mal que se farta e os erros são uma constante na sua sebenta digital; contudo alguma editora apostou na sua verdade e dará ao mundo mais uma nobre escritora que vai fazer-nos reflectir sobre a justeza de ser editada ao invés do hímen que é retratado.
O clube a que chama Forum Privado.
Eu sempre lutei para ser indiferente à diferença mas esta moça alimenta-a de forma gratuita como se fosse uma qualquer brincadeira de mau gosto. Mas o que é mesmo muito mau (e o que me fez escrever este post) é saudar quem visita o blog com um espantoso e pouco comum "Olá pessoal do bem ;)" e isto sim é demoníaco.
Vou escusar-me a tecer comentários sobre a virgindade. Cada qual é livre de viver a sua intimidade da forma que deseja. Mas a minha liberdade acaba onde começa a dos outros (sim, o Direito e a sua esfera jurídica) e encontrei nesta existência Margaridesca um desconforto que não deveria sentir.

E sinto-me, vá lá, desflorado.


blog virgem

sexta-feira, 24 de julho de 2009

sessenta e três

Há homens que precisam mesmo de uma grande mulher a seu lado. Confesso ser um e não é difícil entender as razões e os porquês. Muito resumidamente, sou daqueles fulanos que não aprende com os erros. Assusto-me, mudo um hábito ou mania, mas não aprendo a lição continuando a ser tão fiel a mim e às minhas manias que até enjoa.
Já tive algumas vezes a oportunidade de resolver situações que depois continuam a ser problemas. Se bem que não tenho a solução, tenho a enxada o que já não é nada mau. Mas lá continuo no meu torpor à espera de melhores dias, queixando-me ao sol e à lua e tentando explicar-me que, afinal, não serei feito do mesmo calibre de alguns homens que fazem acontecer o impossível.
Também tive mulheres que eram grandes à sua maneira, mas perseguiam tanto os seus fantasmas que não tinham tempo - nem paciência - para serem a grande mulher por trás de um homem como eu. Se calhar nunca lhes pedi mas, lá está, também acho que é uma coisa que não se pede. Adivinha-se.

Recentemente tive a fortuna de ser escolhido por uma nova mulher, numa altura que pensava que tal já não fosse possível, o que acontece sempre quando se está de ressaca de uma longa relação.
Esta mulher não sabe que eu tenho este blog. Mesmo se soubesse creio que nunca o visitaria, pois é daquelas pessoas que respeita o mundo de outrém e que esse, por vezes, é privado.
Esta belíssima mulher já demonstrou que é a tal Mulher que um homem como eu precisa durante a sua vida.

Sou um sortudo, eu sei.

É-me difícil não pensar nela a cada minuto, de querer estar com ela, de poder mimá-la até conseguir combater as dúvidas que ainda tem em relação à minha permanência na sua vida.

Nunca fui muito bom a declarar o amor, apenas satisfação e bem estar.
Mas já lhe disse que ela deveria ter entrado na minha vida há 25 anos atrás, quando tudo era possível inclusivé mudar o mundo.
Agora o meu vai mudar por ela. E com ela.

E não sei o que mais acrescentar.

sessenta e dois

Ontem acordei a pensar que era sexta feira e não fiquei muito satisfeito por ganhar mais um dia na vida. Não fiquei porque não percebo muito bem como é que saltei um dia, pois não bebi, não fiz directa... apenas fiz o que um homem faz com bastante gana e vontade, felizmente recíproca.
Hoje acordei e quase que me ia acontecendo a mesma coisa, será sexta ou sábado?
Mas o que raio é que se está a passar?

quinta-feira, 23 de julho de 2009

sessenta e um

Não costumo escrever sobre gadgets e novidades tecnológicas pois há outros e muito bons locais para se saberem as últimas propostas. Contudo, este Natal vai trazer alguma nostalgia/alegria para tipos como eu - e para a maior parte dos homens nascidos antes dos telemóveis - no regresso do temível e fascinante cubo de Rubik.
Confesso que tive um e sim, acabei-o. Depois guardei-o em cima de uma prateleira para todas as visitas admirarem o quanto eu era inteligente e perspicaz e deu-me um colapso quando o descobri todo remexido e ainda hoje estou a tentar saber quem foi para lhe aplicar castigo condigno.

Tudo isto para dizer que está quase a chegar o novo cubo de Rubik redenominado Rubik's TouchCube. Claro que hoje em dia é tudo touch para aqui touch para acoli, mas este vai ser um novo vício para muito boa gente. Ora espreitem o videotubo.

Rubik'sTouchCube

sessenta

Acabei de visitar uns 10 blogs só para me alhear da limpeza de Verão que tenho que fazer.
Não resultou.

cinquenta e nove

As conversas são como as cerejas e há aquelas que convém anotar no moleskine ou qualquer outra sebenta para mais tarde recordar. Esta passou-se há pouco tempo com três convivas a saborearem um bacalhau perfeito ali para os lados de Xabregas. Falava-se de escritores e escritos, poetas e inventores, poemas e invenções e depois passou-se para a muito natural parvoíce.
O tema foi a cegueira parcial do nosso muy nobre Luiz Vaz De. É que ao fim e ao cabo ninguém sabe mesmo como ele vazou o olho. Após mais um digestivo, chegámos a estas cinco hipóteses:

uma - Ah, foi numa batalha e tal.
duas - Enquanto agarrava os escritos com uma mão e nadava com o outro braço, veio uma gaivota e comeu-lhe o olho.
três - Desmaiou no alto mar, veio um peixe e fez o que alguns humanos fazem a eles: chupou-lhe o olho.
quatro - foi uma prostituta genovesa com um stiletto. A coisa correu mal.
quinta - o diabo esfregou-lhe o olho.

Fui o autor da quarta e mantenho a minha noção.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

cinquenta e oito

Nós, homens, seremos sempre putos por vezes estúpidos, outras parvos e muitas idiotas chapados. Somos assim, não há mesmo nada a fazer. Mas o que nos dana é esse feminíssimo olhar embevecido com aquele sorriso magnético, olhar compenetrado, lábios húmidos, uma atenção graciosa e um risinho charmoso após cada piada dita, por vezes, sem graçola nenhuma.
Vocês alimentam essa nossa meninice, esse lado pouco ajuízado, essa forma de viver a vida ainda e sempre a pensar em tropelias, batatada, bicicletas e aventuras várias.
Depois de nos fazerem crer que até gostam de nós porque somos assim, são as primeiras a atirar a pedra quando já nos têm para todo, presumivelmente, o sempre.

É que não se compreende.

cinquenta e sete

Dias atrás uma jovem senhorita jurava a pés juntos que um homem vestido com um sobretudo em pleno Verão se tinha desnudado à sua frente mostrando-lhe as partes. A jovem estava ainda chocadíssima, mais a mais porque ainda tem uma relação mal resolvida com um apêndice que lhe vai mudar parte da vida. Veio inquirir-me sobre esta pouca vergonha a que, muito sinceramente, não consegui responder. Quando tentei falar do sexo masculino ficou ainda mais perturbada exclamando vários "que nojo! que nojo!" e depois fiquei eu com má fama.

Mulheres... mesmo jovens já nos dão volta à cabeça.

cinquenta e seis

No outro dia fui acusado de ser um bocado chato quando falo das coisas preferidas nesta e desta vida. Fiquei atordoado pois até pensava que as pessoas gostavam de ouvir as minhas opiniões e, quiçá, aprender alguma coisa com elas assim como eu gosto de ouvir e aprender com os outros.
Mas não, mas não.
E a maior chatice é mesmo estar a pensar nisso. É que doeu um bocadinho.

cinquenta e cinco

Tenho um conflito com as capicuas. Se por um lado as acho agradáveis, redondas e perfeitas, por outro provocam-me alguma angústia e até medo. Não sei porquê nem consigo encontrar razões para essa fobia, mas que tenho aquela comichão na barriga quando penso nisso ou dou por uma...

Bom, podia dar-me para pior.

terça-feira, 21 de julho de 2009

cinquenta e quatro

Penso chegar aos 54 anos. Penso e quero. Aliás, ai de quem se meta à minha frente com uma pistola, um capuz, um boletim de voto sem alternativa democrática, um automóvel desgovernado, uma doença xpto, uma naifa, uma conta por pagar, um ciume, uma macumba, uma gripe qualquer meio marada, mais uma capa com a ana malhoa desnudada, um ovo podre ou uma ostra passada.

Penso e quero. Mas não mando.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

cinquenta e três

Danou-me ver dias atrás a imagem de um enorme armazém cheio de automóveis que o fisco retirou aos endividados. Se por um lado senti até uma certa ponta de justiça ao reparar em inúmeros topos de gama, por outro fiquei raivoso quando vislumbrei carros de quem mesmo precisa deles para trabalhar, como Ibizas, 205, Corsas e etc.
Sabemos que o fisco não tem tento nem é justo e que promove a perseguição a quem faz tudo para sobreviver, mas as represálias sobre os contribuintes alimentam uma cada vez maior crise social e uma vergonha humana tão típica das nossas gentes.
Este governo que alimenta noticiários com números enganadores sobre o desemprego, não faz as contas aos milhares de empresários falidos que não têm direito à segurança social e subsídios que pagam há muitos anos. Em vez de 10 seriam uns escandalosos 30%, pois sabemos bem como é feito o tecido empresarial português.
Há um paralelismo que são as vítimas mortais dos acidentes automóvel. Só se conta as que perecem no local e não as que vêm a falecer após internamento no hospital. Mais um escândalo a que a Comissão Europeia faz vista grossa.
Estamos rodeados de mentiras e mentirosos.

cinquenta e dois

Marte fica um bocadito fora de mão para a tecnologia de hoje. Mais vale ir novamente à Lua e construír a base lunar Alfa. Pelo menos, mesmo com uma década de atraso, seria engraçado sabermos que andavam por lá uns quantos tipos a fazerem experiências com plantas e drogas que levariam à extinção de algumas doenças que ainda nos atacam e matam em pleno séc XXI.
Mas não, mas não, queremos é ir a Marte.

cinquenta e um

Crise, crise, festivais de música à parte.
Pelo menos não todos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

cinquenta

Os argentinos descobriram que o governo lhes mentiu em relação à gripe, os ingleses andam a fazer festas para apanhá-la antes do inverno e a ministra portuguesa é das únicas que ainda não percebeu a gravidade e só fez uma pré-encomenda da vacina.
A H1N1 vai ser terrífica e por cá ainda ninguém percebeu. Há médicos que querem proibir desde já as entradas e saídas do país enquanto o governo lança uns pequenos avisos para lavarmos as mãos. As empresas estão em pânico pois ficar sem trabalhadores em momentos de crise é catastrófico... ou talvez não e é uma bela desculpa para o layoff. Tenho amigas que já lutam contra a falta de clientela em pequenos espaços comerciais, como restaurantes ou cafés, e sabem que não vão conseguir aguentar a renda e demais despesas se perderem mais clientes. Outras não sabem se deixarão os filhos ir à escola já em Setembro, quando há quem defenda um adiamento do início do ano lectivo para Outubro ou mesmo Novembro.
Andamos a brincar com mais um virus lançado para fazer a fortuna de alguns. E não, não é uma teoria da conspiração (nem da constipação), pois basta ver quem é o dono da farmacêutica que detem o único medicamento contra o bicho e que controla 80% das plantações dessa planta milagrosa e etecétera e tal e coiso.
Andamos adormecidos ou este será mais um virus que ajudará os "controladores" no seu genocídio programado e anunciado? 2012, não é?
E para saberem quem são estes senhores, vejam uma série tv com 10 anitos intitulada "Millenium". É engraçado ver as coincidências... tal como foi engraçado ver todas as outras (desde o 24 aos filmes) que tinham como presidente norte-americano um negro.

Confesso que estou bastante preocupado pois não gosto de hospitais.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

quarenta e nove

Abomino ter que esperar por um contacto previamente combinado e ter que ser eu a fazê-lo. E depois quando não atendem sinto o sangue a latejar nos olhos, o coração a mostrar que existe e um enorme nó na garganta que por vezes passa para o estômago.
É sexta, quase final da tarde útil e tenho que calcorrear meia cidade e apanhar filas atrás de filas para chegar ao destino depois de confirmar se sim ou não.
Detesto, detesto, detesto!

quarenta e oito

Quando comecei este não sabia muito bem para que serve um blog. Entusiasmei-me de início e escrevi coisas que saíam facilmente como se o pequeno rectângulo branco me ordenasse uma qualquer suposição, suspiro ou lamento. Dei por mim a tratar coisas que julgava esquecidas e outras que pensei terem-me esquecido.
É engraçado isto da memória.
Mas continuo sem saber para que serve este blog e muito menos quanto mais tempo o escreverei.
Prometo apenas que continuarei até ao dia que não.
É uma promessa fácil de se cumprir.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

quarenta e sete

Descobri hoje um blog de uma jovem que já morreu. Deixou um último post de despedida a quem a amou e uma ode à vida. Coisas simples como comer caracóis, um bigmac, ir à piscina ou à praia molhar os pés foram para ela verdadeiros momentos de celebração de e da vida.
E nós andamos cegos.

terça-feira, 7 de julho de 2009

quarenta e seis

Se há coisa que me fascina é esta constante falta de memória lusitana reforçada com ataques diários a todos os restantes devido à inveja e à preguiça. Mas que raio de natureza a nossa pá!

quarenta e cinco

Um sorriso franco é algo que encanta. Pode ser traquinas, sexual, amigo, contagiante. É sempre algo que se pega aos demais e recebe sempre outro de volta.
Que capacidade rara e humana esta. Que extraordinários músculos faciais o provocam. Que bonitas rugas de expressão criam na mais bela prancha da vida: uma cara que viu e viveu momentos felizes.

Há outra coisa com quase todas estas capacidades: o bocejo.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

quarenta e quatro

O que é o roubo? Roubar o coração de alguém é um acto nobre mas roubar o doce a uma criança é cruel. Roubar o estado e as finanças é de gajo com eles no sítio e roubar uma caixa multibanco é de gajo com passaporte estrangeiro. Roubar um fruto porque se tem fome é desculpável mas roubar o fruto de uma vida de trabalho não tem perdão.
Roubar é como um roll-bar (aqueles ferros que reforçam o interior de um automóvel de corridas para safar quem os guia): o ladrão só anda às cambalhotas se for apanhado. E depois há ladrões e ladrões.
Confesso que desde puto gostava de ser um, daqueles que roubam uma jóia ou um quadro de um cofre-forte impossível de penetrar, equipado com um belo fato preto e cheio de gadgets electrónicos. Ser ladrão, uma única vez na vida, podia dar um jeito do catano.
E, neste único caso, é romântico, elegante, profissional, perfeccionista, radical, corajoso e demais adjectivos. Pensando bem, não é isso que procuramos na vida?

Estou confuso.

domingo, 5 de julho de 2009

quarenta e três

Retrato-me como sortudo na vida romântica mas não muito forte nas artes do amor. Sempre tive uma tendência para seguir em frente sem olhar ao futuro e muitas vezes perdi tempo. Não acho que más vivências sirvam para nos dar mais conhecimento e experiência, muito pelo contrário. Corrompem o que há de bom em nós, tiram-nos os melhores anos e endurecem-nos dia a dia.
Conseguir nem que seja encontrar forças para lutar por um novo alguém é obviamente algo tão especial e raro que tem duas opções. Ou pensamos que não vale a pena ou arriscamos tudo mais uma vez. Afinal, isto até é simples, não é?

sábado, 4 de julho de 2009

quarenta e dois

Recebi a notícia que mais um amigo se vai da sua terra natal e cidade fetiche da luz e sete colinas. Vai sem emprego certo e sem poiso combinado. Tem 4o anos e simplesmente vai. Está calmo, aliás, bem mais calmo que o normal, mais solto e posso até dizer, sem ser um palavrão, feliz.
Ele também sabe dos meus planos e referiu que até foi uma das certezas que lhe deu mais força.
Não temos dupla nacionalidade nem um tacho fadado do estado, mas temos ainda coragem para recomeçar toda uma vida. Ou continuar o resto dela.
Pensámos nos amigos que não tiveram esta oportunidade e que se perderam na má vida ou encontraram o seu final mais cedo. Também isso nos dá força para que o nosso possa ser escrito em livro e passado para uma experiência multimedia e multiplataforma de razoável qualidade. Desde que tenha a Angelina Jolie, naturalmente. Há que acabar num tcham!

quarenta e um

Sempre lhes ensinei que o dinheiro não sai dos multibancos como nunca caiu das árvores quando eu era o mais novo. Mas não entendem pois, ao fim e ao cabo, há alguém lá dentro que escolhe as notas que pedimos e depois as enfia pelo buraco. Longe de mim ousar explicar o que é a robótica aliada à informática, também não o conseguiria, mas preocupa-me cada vez mais esta noção que as gerações mais novas têm em relação ao dinheiro. Afinal tudo é fácil, os euros até são poucos para aquilo que é (realmente um computador custar 400 euro não é o mesmo que custar oitenta mil escudos ou contos de reis), os cartões é que pagam e, pasme-se, há-os para cada loja, portanto só se pode ir a tais lojas com tais cartões.
Dizer não porque o fim do mês não permite mais extravagâncias ou excessos, é o mesmo que dizer não aos pedidos e depois a eles próprios quase como se fosse um castigo.
Ninguém entende que já não há, acabou, terminou, finito, kapput, the end, adiós. No more.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

quarenta

Chegado à quarta dezena de escritos, apetece-me deixar uma imagem de esperança e fé para quem ainda quer ser um bom cidadão português na forma de uma gentil e pequena fábula que me vou esforçar por inventar.
Era uma vez um jovem português que queria ser um bom português. Olhou para o horizonte que seria o seu futuro e decidiu-se por uma carreira nas engenharias. Começou como civil mas depressa percebeu que era a tecnologia e informática o passo certo.
E assim fez, tornando-se num excelente e notabilizado jovem com média 20.
Como o seu país lhe fechava as portas e ele ainda continuava a querer ajudá-lo, decidiu aceitar o convite da maior empresa tecnológica mundial. Falta-lhe ainda uns 30 anos para pedir a reforma e prometeu que regressaria a Portugal, investindo numa casa verde com piscina e águas quentes pelo sol, adquirindo participações na JSáCouto e comprando um automóvel eléctrico ao consórcio da Nissan.
Deste modo ajudará tudo e todos.

trinta e nove

Pois estou tão revoltado desde que acordei que nenhum sentimento bonito surge para poder escrevê-lo. Lá se foi o meu estado zen. Este país emperra na burocracia constante, velhaca e antiquada. Assim não vamos lá.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

trinta e oito

Realmente a vida não pára de surpreender-me.
Sou um bocadinho adverso a grandes mudanças e até já perdi um par de oportunidades de mudar de poiso, país e quem sabe se agora estaria mais realizado.
Mas optei sempre pelo conforto tão lusitano, este apego à terra e às minhas gentes, este sentimento tão complicado que é o ser-se português.
No ano passado vivi uma grande mudança. Ainda estou a tentar ambientar-me quando, em poucos meses, tudo parece querer mudar. A princípio foi um complemento normal na vida dos homens, seguiu-se outra que o reforçou e avizinha-se a maior delas todas, daqui a um ano ou pouco mais.
Num repente, vou viver outra ainda muito mais cedo do que estava à espera.

Para quem não gosta de mudar, vai lá vai.

trinta e sete

Após o desabafo de ontem encontro-me extenuado mas a viver um estado zen. Estou perturbado com algumas coisas complicadas mas, pela primeira vez em muitos anos, tenho esperança que o futuro me traga coisas boas que entretanto a vida se esforça por combater.
A minha, como tantas outras, é feita de altos e baixos. E agora que olho para trás não me posso queixar pois se perdi alguma pujança nos últimos anos, consegui bastantes coisas anos antes. Agora está na altura de fazer um balanço a sério, não daqueles que prometemos na passagem do ano ou aquando o aniversário, mas um verdadeiro e completo check-up para perceber finalmente que tudo o que vem a seguir só pode ser bom porque simplesmente tenho a hipótese de o poder fazer e viver.

Não sei se me entendem.

terça-feira, 30 de junho de 2009

trinta e seis

Ando há que tempos a querer expôr num local público um veemente protesto contra quem manda no Metro de Olissipo assim como um outro tipo post scriptum a desfavor do... como colocar isto sem ser ofensivo... inteligente que comanda camarariamente os destinos de quem ainda teima em viver numa cidade cada vez mais feita para quem não mora nela.
Pois tenho a dizer que sou totalmente contra a construção de linhas e paragens de Metro para os arrabaldes enquanto não o fizerem na ex-nobre e esbelta cidade.
Não admito que um tipo que habite na Expo, antes de Loures ou Moscavide, não tenha uma linha directa para Santa Apolónia que passe por aldeias fantásticas como a Madredeus, Poço Bispo, parte do Beato e ainda uma parte mais pequena de Xabregas.
Não admito que a tão badalada Linha das Colinas não presenteie Sé, Alfama, Castelo, Graça, Sapadores, Penha de França, Paiva Couceiro, Alto de São João e Afonso III com um modernismo só ao alcance de alguns iluminados, como o Sebastião Carvalho e Melo.
Aliás, reparem: estas duas linhas poderiam ser intersectadas por uma que vinha directamente de Arroios ou Alameda. Que coisa mais inteligente e inovadora, "pá".
Isto já para não falar da Portela e aquela coisa pouco importante que se chama aeroporto ou lá o que é. E Santos, Belém, Memória? Nunca mais saíamos daqui.
Mas não, mas não... Odivelas, Amadora e outros arrabaldes cujas casas são a metade do preço de Lisboa, os impostos mais baixos, a Emel que não existe, os polícias que não multam e etc é que têm direito a um transporte que foi moderno há um século atrás.
Enquanto isso, o olissiponense come, cala, paga e é tratado como um Afegão.
O segundo caso tem a ver com o Terreiro do Paço e esta curiosa e estonteante ideia do senhor costa. Vê-se que não mora na capital e que anda de cú tremido em carros de alta cilindrada pagos por nós, com gasolina paga por nós, seguro contra todos pago por nós, motorista pago por nós e batedores pagos por nós.
Quando esse senhor cair do poleiro e quiser fazer um mísero quilómetro do Cais do Sodré até ao Terreiro em cerca de duas horas com alguma sorte, vai deitar as mãos à cabeça. Ou então, se bem o entendo, até vai achar lindo aquele chão ridículo em losângulo que vai acabar por destruír a praça mais simbólica de uma nação.

Desculpem.
Desculpem.
Mas nunca tive um espaço público.

trinta e cinco

Curioso lembrar-me desta carreira da Carris que apanhei durante largos e bons anos, ainda fedelho e sem o medo recente dos malfeitores, pedófilos, raptores e demais.
Aliás, muito mudou desde há uns 20 anos. Não querendo massacrar-vos com mais memórias, posso dizer que o café não sabe ao mesmo, os pastéis de nata são uma tremenda porcaria, já não existem aquelas padarias às tantas da matina onde quem era mais noctívago conseguia matar o bicho, os senhores polícias já não têm barriga nem bigode, dos quatro partidos políticos temos apenas quatro e meio, enfim. Nunca mais saía daqui. Mas o 35 era um bom autocarro.

trinta e quatro

Já viram bem as pessoas que estão a morrer actualmente? Fawcet, Jackson, Pina Bausch e todos aqueles ainda mais importantes que perecem em acidentes estúpidos sem culpa nenhuma?
Resta o consolo de uma criança com três anitos de idade.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

trinta e três

Números que me levam a revisitar tempos idos.
"Diga trinta e três!"
Automaticamente transporto-me para a lata de leite condensado surripiada às escondidas e que me acompanhava a leitura de BD naquele pequeno espaço entre a janela e o reposteiro do meu quarto. As deliciosas bombocas de baunilha, os gelados de cone comprados na escola com um guardanapo a tapá-los das intempéries, os pirolitos, a Canada-Dry, a gasosa BemBoa, os bolos dentro de caixas de madeira e vidro nas tardes de praia, os bocados de polvo assado que custava um balúrdio nas noites dessas praias, as visitas de estudo a Alverca e Alfeite, as primeiras matinés no Porão da Nau, Picapau e mais tarde Jukebox, os discos de vinil que chegavam em caixotes para vários amigos, as rádios-pirata, a tentativa de encontrar o sinal noctívago de uma estação TV pirata em televisores convencionais, o Betamax e a sua guerra com o VHS, as noites nos cinemas Quarteto e City-Cine com as extraordinárias sessões duplas à meia noite, os saudosos cadeirões do Star, o Estúdio por cima do Monumental, o canto escondido do 7ª Arte, a biblioteca e centro de fotocópias da Gulbenkian, os ciclos de video no Centro de Arte Moderna, as romarias à Bertrand do Chiado para encontrar o Melody Maker e a Bravo britânica, os Lábios de Vinho, as primeiras Doc Martens, a aventura que foi ser-se jovem quando Olissipo acordou para a Europa e mundo.

Estou velho e tenho saudades.

trinta e dois

Chegado à conclusão que a extraordinária educação que os meus pais me deram não serve de nada num mundo em que a honra e a sua palavra deixaram de ter nobreza, continuo nesta labuta diária de exigir o que é meu por direito.
Trabalho e esfalfo-me que nem um cão para depois sofrer horrores e maus momentos à espera do chequito ou tranferência bancária.
Como não aprendi a gritar, injuriar e ameaçar, dou por mim a ficar sempre como último na fila da lista de pagamentos a fornecedores.
Eu sei que sou parvo, passo algumas dificuldades de vez em quando e, como português, só me queixo aos amigos deste infortúnio.
Eu bem que quero mudar e até me esforço, mas isto é como aquela história do escorpião que pede boleia ao sapo para atravessar o riacho.
A natureza é um desatino.

trinta e um

Tenho muito medo do histerismo de massas.
Já passei por duas situações complicadas em que quase fui esmagado e naturalmente sofro de uma fobia. Nunca fui a um jogo de futebol, ir a concertos ao vivo é complicado e só vou se tiver lugar sentado nas bancadas ou camarotes. Dizem-me que assim não gozo os artistas e estar no meio do maralhal é que é bom, mas desculpem, não. Tenho medo, muito medo do povo, da sua desordem, pânico e loucura.

Quando vejo mais de 20 pessoas a dirigirem-se a mim só me apetece gritar.

domingo, 28 de junho de 2009

trinta

Preparo-me para a maior viagem da minha vida e as dúvidas começam a ser reais. Sempre fui muito materialista, gosto de colecções e de me rodear com memórias, coisas bonitas, alguma tecnologia que me garanta excelência na qualidade audiovisual e guardo tudo, tudo.
Para uma pessoa como eu, esse tudo são bastantes coisas e perturba-me, por exemplo, o anúncio de um novo suporte de audio ou video. É que não consigo deitar fora as VHS que comprei em lojas europeias e que me fizeram dono de um espólio cinematográfico invulgar em Portugal.
Se aplicarem esta situação à demais tralha percebem que a minha gentil casota está atafulhada de coisas. Mas são as minhas coisas.
Ora voltando ao início do escrito, essa viagem vai ser também uma aventura, toda uma nova vida.
Levar tudo o que tenho e gosto é, para além de tarefa hercúlea e dispendiosa, uma estupidez.
Eu sei disso mas está a custar.
E começa a doer.

vinte e nove

Tenho uma parte da vida arrumada em caixotes ali na arrecadação da direita. Não estou a falar de memórias, mas de equipamento tecnológico que já trabalhou muito e me rodeou mais de 10 anos.
Contudo houve um dia em que escolhi afastá-lo. Não fiz o que costumo nestas ocasiões que é vender tudo a qualquer pessoa e limpar qualquer traço da sua existência. Decidi apenas escondê-lo mas não muito longe.
Se calhar não estou a fazer sentido, mas para mim faço.
É que um dia destes pode dar-me aquela vontade outra vez.

vinte e oito

Se pudesse escolher uma mentira para enganar o mundo, qual seria?
Tenho estado a pensar nisso e é um turbilhão.

vinte e sete

Este número diz-me muito pois estava pintado numa carroceria vermelha de um automóvel de verdadeiras corridas. E como agora estou a relembrar toda essa vida, celebro-a com um silêncio que poucos irão entender.

vinte e seis

Hoje senti-me velho. Bom, muitas vezes é como me sinto mas depois escondo-me na noção que tenho do mundo global, de alguma cultura que fui conseguindo e com as memórias que só alguns anos permitem.
Mas é complicado gerir a descoberta de um jovem moçoilo de 14 anos que idolatrou uma data de nomes emetevianos até à morte de um verdadeiro símbolo pop. Este jovem não sabia que os passos de dança usados pelos seus modernos e actuais ícones já tinham sido inventados. Ficou perplexo quando percebeu que conhecia todas as melodias sem saber de quem eram. Ficou agarrado à tv 24 horas seguidas. Talvez mais, com um intervalo para uma bucha e uma sesta.
Este jovem, nascido na era na comunicação, não sabe o que é a net 2.0. Não entende o que é a globalização pois nasceu com ela. Mas, graças a deus, percebeu que antes de toda a sua verdade, existiu um gajo que uniu os continentes apenas com o seu nome.
Perguntei-lhe o que é que achava disso ao que me respondeu "man, não sei".

sábado, 27 de junho de 2009

vinte e cinco

As redes sociais são um dos muitos sinais da progressão do big brother nesta nossa sociedade cada vez mais imberbe, adormecida, extenuada e receosa.
Os mais novos fazem duas coisas na vida: teclam ao telemóvel e teclam ao computador sempre para os mesmos amigos com quem passam grande parte do dia.
Tenho reparado nos dramas juvenis que até são semelhantes aos adultos, com chatices, convulsões, traições e discussões. Fazem-se e perdem-se os melhores amigos - os best - num único dia.
A vida está toda escancarada, um livro aberto que em vez de dar cultura ou satisfação chupa sem dó a alegria e a pujança de uma tenra existência.
Esta loucura global com festas marcadas pelo twitter, facebok, hi5 e outras denominadas redes sociais para celebrar a morte de um menino-homem, provoca-me um sentimento dúbio.
Por um lado o mundo onde vivo está mais próximo que nunca e ao alcance de um simples dedilhar.
Por outro lado, bolas pá, deixem-me estar sossegado no meu cantinho para que ninguém saiba se ressono à noite ou faço muito barulho nos lavabos.

É que ainda tenho as minhas vergonhas.

vinte e quatro

Fico aparvalhado quando percebo o início do final de uma amizade que foi também em tempos mais idos uma aventura a dois.
Ao fim e ao cabo, superaram-se graves problemas e condicionantes, coisas menos boas e alguns disparates. Se se conseguiu isso porque raio é que agora, quando quase tudo até estava a correr bem, há uma parte que se afasta sem explicação e encerra assim um capítulo da sua/nossa história que até me foi importante?

sexta-feira, 26 de junho de 2009

vinte e três

É raro estar doente e nem apanho as gripes invernais. Só tenho, de vez em quando, uma dor de cabeça derivada dos excessos noctívagos. Nessas alturas engulo duas aspirinas e, não sendo tiro e queda, alivia bastante. Aliás, trato quase tudo à lei da aspirina e não me tenho dado mal com essa simplicidade.
Logicamente que vivendo num país angustiado e sobredopado com anseolíticos, nunca tenho em casa medicamentos para atenuar dores mais fortes que as minhas.
Aconteceu isso uns dias atrás quando uma amiga cá pernoitou chorando compulsivamente o final abrupto da sua paixão.
Sem mais palavras perguntei-lhe se queria uma aspirina.
Ela, conhecendo-me esta política na vida, parou de fungar, olhou-me nos olhos, sorriu e gargalhou.
A noite foi menos má a partir daí.

Afinal, a aspirina cura quase tudo.

vinte e dois

Há quem se perca por sapatos, malas, relógios ou outros ítems.
Ou por bons vinhos e petiscos. Ou por desejos carnais difíceis de esconder.
Ou por amor ao próximo ou próximos. Até por amor a Deus.

Eu sei quase sempre o meu caminho. Mas tenho que pensá-lo antes da viagem.

vinte e um

Da minha sala vejo parte de uma parede e chaminé brancas e, logo depois, uma enorme palmeira recortada num bonito céu azul.
Por vezes isto basta.

vinte

Estou com mais uma insónia das que me acompanham desde tenra idade - já fui a tudo e todos, esqueçam lá as mezinhas - e são sempre mais graves quanto o mais cedo tenho de acordar para um qualquer compromisso.
Já sei como é e rodeio-me de episódios de séries tv, filmes, livros, revistas e jornais. O resultado é este: cinco da manhã e reunião às nove.
Regressarei à cama daqui a um minuto. Sei que vou ver as seis.
Talvez as sete.
Até logo.
Pelo menos foi bom desabafar.

dezanove

Sou mesmo um fraco. Dou por mim a quebrar promessas, só porque tenho a desculpa que a coisa não está fácil e porque me surge uma dúvida que eu esperava não ter que sentir novamente.
Não é pela dúvida que quebro essas tais promessas mas é pela aposta que não teria mais dúvidas.
Pois tenho.
E que bem que sabe.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

dezoito


Recebi durante a janta - que até estava a ser sobre trabalho - cerca de duas dezenas de sms (eu sou velho, não utilizo essas modernices como push-email e facebook no telecas) que me garantiam ser verosímil a notícia sobre a morte do ex-rei da pop.

Fiquei assim a modos que nem sei. É que não me aquece nem arrefece. Desculpem, mas é a verdade. Estou-me completamente nas tintas para este acontecimento.

Pelo menos vai fazer juz à foto acima se é que já não o fazia.

Eu sei que estou a ser um bocadito insensível mas aquela questão da pedophilia ainda está muito fresca.

dezassete

Sempre fui um medroso no que toca a grandes mudanças na vida.
E sabem que mais? Estou mais crescido.
Já não tenho medo.
Só um pequeno receio.

dezasseis

Hoje falei com uma amiga de infância através do facebook. Um intervalo com 20 anos que me reforça a idade e obriga a visitar memórias naquela arca ali do fundo cheia de pó.
O facebookar com alguém dessa altura transporta-me imediatamente para a namorada, que era a melhor amiga desta pessoa, os jantares, a romaria diária pelo BA, a vivência de uma certa movida lisboeta, a noção de conquista, de aventura, de progresso, de objectivos e de loucuras.

É bom relembrar os meus melhores anos. Meus e nossos.

quinze

Isto de já ter uns anos dá-me alguma experiência em como tratar ou retratar amigos e amigas que são, digamos e para evitar equívocos, hipocondríacos.
Hoje enviaram-me um link que me fez rir a bom rir. E fiquei fã.
Uma coisa é fazer propaganda outra é mencionar uma boa ideia e ajudar assim quem a teve.


Esta é uma das t-shirts dessa loja online de que eu nunca tinha ouvido falar e na qual vou gastar alguns trocados.

A loja é a Bom Povo e termina com um .pt.

quatorze

Telefonaram a perguntar o que eu quero para almoço.
É uma regalia viver numa capital europeia e ter um serviço destes tão confortável quanto amável.
E não tem a ver com a crise pois a Dona Esmeralda faz isto a todos os seus queridos amigos que lhe enchem o tasco diariamente.
A Dona Esmeralda tem mão portuguesa no tacho e corpo a condizer. Rechonchuda e pesada mas com uma energia ímpar, tem gosto ao ver-nos comer e avisa sempre que não quer levar restos lá para dentro. Temos que comer tudo, tudinho, o que por vezes é dificil.
Hoje a escolha viaja pelos caminhos de Portugal.
1. Dobrada
2. Chanfana
3. Robalo e Dourada para grelhar
4. Iscas
5. Panadinhos com arroz de tomate
6. Vitela estufada
7 e para os putos. arroz de ervilhas com ovo mexido e salsicha.

Ainda estou confuso.

treze

Gosto muito deste número. É dinâmico, forte e dito de duas formas. Não sei porquê, mas é-me confortável e só posso mesmo adorá-lo.
Para uns é sinónimo de azar, para outros de nada e para os restantes não tem qualquer importância. A não ser que coincida com uma sexta-feira. Nesse caso, até os mais ousados pensam sempre duas vezes quando se cruzam com um gato preto, um escadote ou uma escada, um carro funenário ou um guarda-chuva aberto no interior de uma casa.
Estas fobias são muito engraçadas e é com elas que passamos o exame de menino para moço.
Lembro-me bem de um dia desses, tinha os meus 13 anos. Era sexta-feira, chovia a potes e fazia frio. No caminho para o liceu um gato preto correu-me à frente, passei por baixo de um escadote de um fulano dos TLP, vi um caixão a ser arrumado numa carrinha preta e não fechei o guarda-chuva no hall do liceu.

Estou vivo, não estou?

doze

Em conversa com amigos veio a lume este meu blog. E então do que vais falar, tratar, criticar e tal? Pois ainda não sei muito bem, mas é preciso um conceito? Claro que sim, obrigatório senão ninguém te leva a sério. Epá, quero lá saber disso. Ai vais querer vais, começam os comentários, as guerras, as visitas, se és um sucesso ou não... Epá, isso é para os outros blogs. Este é clean, simplex e nada de especial.

A conversa continuou até que chegou ao manual de instruções.

Olha pá, se queres garinas é fácil. Escreve sobre ti e mostra o teu lado feminino, uma atitude de abandono, critica os teus passos, manhas, forma de estar. Mostra-te tímido mas sempre com um toque de cultura. Fala de Kant, Pessoa, Picasso e dos Monólogos da Vagina.

E se eu não quiser garinas?
Então para que é que tens um blog?

onze


Tenho tentado assistir aos "5 para a meia noite" da rtp2 ou canal2 ou 2 ou lá como quiserem designar.
O conceito até é engraçado pois cada noite tem o seu apresentador, tudo muito late night show, tudo muito pós-stand-up, tudo muito divertido, moderno e inteligente.

Mas o conceito cai pela raiz pois o programa começa, com aviso, aos vinte minutos após a meia noite. Ou seja, começa logo com uma mentira.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

dez


Tive pressa em chegar à dezena. É sempre redonda e aconchegante.
Não vale de muito mas sugere um passo bem dado e firme. E isso dá-me autoconfiança para, quem sabe, continuar neste espaço a preto e branco e um bocado de laranja durante mais tempo do que adivinhei.

Até que estou um bocadito contente.

nove

Não sei muito bem para que serve um blog.
Pode ser intimista, provocatório, social, humorístico...
Pode ser cruel, efervescente, acusatório e difamador...
Pode ser decente, amoroso e bem-aventurado...
Pode ser tanta coisa.
Não sei muito bem como vai ser o meu blog.

oito


Há gritos que acordam almas!

sete

Sempre considerei o sete como o meu número azarento.
Não sei bem porquê, talvez por ter tido um ano liceal menos bom quando era chamado por ele.
Ou porque a semana custa a passar ou passa demasiado depressa.
Talvez por não ter gostado dessa colecção da Blyton.


Só sei que o considero nefasto.

seis

Perguntaram-me porque escolhi intitular os escritos com números em vez de palavras.
Olha, porque sim.

cinco

Estou à espera dessa tal paz que vem com o acumular da idade. E da paciência também. Mas ou sou diferente dos demais ou houve qualquer coisa que se partiu pelo caminho.
A meada perdeu o seu fio, só pode. É que não tenho pachorra para repeats e nesta vida raramente se sai de um loop.

quatro

Detesto o silêncio contudo venero-o.
Adoro o frio mas gosto de sentir o meu corpo a latejar.
Sou pacífico mas tenho vontade de esmurrar muita gente.
Sou sincero mas minto várias vezes.
Sou sociável mas tímido quanto o sol no inverno.
Tenho a mania que sou maníaco.
Gosto de acri-doce mas sou gajo de salgadinhos.
Abuso do álcool sem ter feridas.
Sou um viciado sem vícios pesados.
Detesto um país que venero.
Estou quase, quase a saber quem sou.

três

Tenho memórias maradas. Também tenho conta bancária, uma namorada séria e recente e um nib ou nif ou o raio que parta. Tenho gana, génio (do bom), tristeza e alheamento. Tenho um carro quase pago, uma renda mensal e um telemóvel.
Tenho um computador, uma ligação net, tv com 100 canais, um animal de estimação e roupa variada.
Tenho uma cozinha equipada e vários restaurantes preferidos.
Tenho amigos e amigas, conhecidos e conhecidas e inimigos e inimigas.
Tenho família.
Tenho todos os sentidos e o corpo ainda funciona.
Ao fim e ao cabo, tenho tudo.

dois

Existem bocados da vida que são de difícil digestão. Duros, sensaborões, criam cáries e afectam o nosso hálito social, o que nos leva a fechar corpo e alma e a mudarmos alguns hábitos diários, costumes que pensavamos rotineiros.

Geralmente são provocados por alguém. Raras vezes por algo. Esses alguém são pulgas que mordem e que por vezes até fazem sangue. Grande parte do seu dia a dia é sofrido à espera que qualquer nova atitude desencadeie alguma frustração na vítima. Pior, não desistem facilmente mesmo encontrando no alvo uma pessoa normal.

Resta abrigarmo-nos dos maus ventos e fígados e torcermos para que esses alguém, 99% das vezes anónimos, encontrem paz na sua existência sofredora.

um

Houve uma altura em que desejei mudar o mundo. Era puto, queria saír à noite e não me deixavam, guiar sem ter carta, viajar sem guito. Depois alguém disse "muda-te primeiro" e fiquei sem saber o que fazer. Decidi então experimentar drogas. A primeira foi um corpo feminino. Descobria assim uma das poucas razões que me leva a estar vivo, ainda hoje.

As outras são fáceis de enunciar: bom vinho, boa comida, boa dormida, bons objectivos, boa música, bons amigos e boa vida.

Até agora consegui todos e perdi alguns.

Mas o corpo feminino continua a ser a droga que me leva ainda a querer mudar o mundo.