sábado, 20 de março de 2010
cento e trinta e um
Mas escrevo isto porque ontem ouvi uma conversa entre alguns presentes, talvez por eu estar de fato, talvez porque pensavam que eu não estava a ouvir. A questão tinha a ver com o bom aspecto de um homem vestido com rigor ao invés de um homem que, como eu, prefere estar mais à vontade e, a meu ver, bem mais catita, moderno e original.
Fiquei atordoado. Então não é que as pessoas pensam que um homem de fato gasta mais dinheiro em roupa que um homem casual? Mas será que é possível estarem assim tão enganadas? Um fato é um fato, pode custar entre 100 a 500 euro. Depois uns sapatos foleiros pretos e de verniz, uma gravata, uma camisa branca e, presumo, umas cuecas e um par de meias. Ora tudo junto e sem poupar muito faz-se por 300 euro. Agora façam as contas a umas levi's (100€), uns Merrell (120€), boxers e meias (50€), cinto de cabedal (50€), uma t-shirt (20€), um casaco leve (150€) e etc. Já é bem mais oneroso e sem entrar em grandes marcas ou luxos. Mas agora é que são elas: um homem usa o mesmo fato uma semana inteira e ninguém aponta isso. Mas um tipo como eu, se surgir dois dias seguidos com o mesmo calçado ou casaco, é olhado com desdém. Portanto a roupa dita casual sai 700% mais cara que um fato que "fica e veste" bem.
Concluindo, o que parece não é.
Certo?
sexta-feira, 12 de março de 2010
Cento e trinta
Tenho tido a sorte de acompanhar a vida de malta nova numa base quase diária, malta ainda no liceu e que vai ser o futuro deste nosso país e mundo. O que tenho visto e ouvido dá-me a noção que o país ainda vai precisar, e muito, das gentes da minha geração.
É extraordinário revisitar as palavras do meu pai e mãe quando eu estudava e tinha dúvidas numa qualquer matéria. A resposta era automática: "Filho, eu aprendi isso tudo e mais alguma coisa na 4ª classe, mas que raio de escola é a actual?" Ficava a olhar para eles sem perceber a necessidade de saber de cor todas as estações e apeadeiros dos Caminhos de Ferro, assim como todos os rios e afluentes lusitanos. Mas lá ia aprendendo alguma coisa, nem que fosse por obrigação, como saber na ponta da lingua os tipos de nuvens, a tabela periódica, os reis e seus feitos, os poetas e ficcionistas, e tantos etc.
Hoje olho para esta nova geração e não evito exclamar "Mas eu aprendi isso tudo e mais alguma coisa na 4ª classe, mas que raio de escola é a actual?"
Só que neste momento, a malta jovem nem ouve o que digo, pois está de phones na cabeça e a teclar sms.
sábado, 16 de janeiro de 2010
cento e vinte seis
Confesso que tenho muitos, demasiados, contactos que não utilizo nem deverei vir a reutilizar. Então porque pura e simplesmente não os apago da memória, que está a abarrotar pelas costuras?
Por um lado penso que, quando regressar ao topo, já os tenho. Por outro penso, quando regressar ao topo, de que me interessa tê-los? Já mostraram bem o que valem. Mas na verdade na verdade e quando mudo de telemóvel (frequentemente), fico hesitante em carregar na tecla "apagar da memória?". Se escolho o Sim, fico um bocadito perturbado. Se escolho o Não, também.
Bolas, se sei que esta gente não vale nada, porque raio ainda me preocupo com a sua existência?
Sou mesmo tótó...
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
cento e vinte e quatro
Acordei também com uma grande vontade de não levar telemóvel para a rua mas sim um livro. E em vez de me encaixar no veículo automóvel, dei por mim a estudar a rede do metro que, confesso, me é estranha com tanta cor e estações de mudança das mesmas.
Antes de sair, olhei para os relógios que guardo na gaveta. Só um está com a hora certa e muitos sem pilha. Gosto muito de relógios e de canetas que são, no meu entender, as únicas jóias masculinas e vergasto-me por ter deixado de usá-las. O relógio deixou de ser uma necessidade já que o telemóvel, o tablier do carro, o auto-rádio e aqueles monumentos, perdão, mupis lisboetas com publiciade, horas e temperatura, estão sempre a apontar-nos a hora certa. Até o computador a mostra.
Estamos rodeados pelo tempo ao mesmo tempo que perdemos tempo a tentar viver neste tempo moderno que nos exclui de muitas coisas boas da vida, como por exemplo, escrever uma carta a um amigo, educar o aparo de uma caneta nova, encher o reservatório com tinta e olhar a coroa de uma peça intemporal que nos mostra o tempo real em que vivemos, pois ao fim e ao cabo, é esse o tempo que temos.
sábado, 2 de janeiro de 2010
cento e vinte e três
Entrei no 10 de uma forma calma, limpa e serena. Nem muito álcool nem muita galhofada. Foi simples, correcta, elegante, com brindes sentidos e outros acompanhados por olhares cúmplices de quem sabe o que este ano vai mudar.
E ai se vai mudar...
Talvez devido a isso, e deixando passar este fim de semana ainda festivo, vou mudar algumas coisas no meu dia a dia. Já acordo mais cedo, decidi deixar de ter tv no quarto (que me acompanhava as insónias e me embalava em inglês), de 40 passei para 5 cigarros (e já vou no 2º dia sem grande tormenta), vou tentar deixar-me da companhia irlandesa com gelo e com ou sem um farrapo de água, decidi beber apenas uma bica em vez das 10 e aproveitar a teína do chá, resumindo, vou mudar mesmo algumas coisas importantes.
Pode ser que estas pequenitas modificações sensoriais antecipem o que vem aí. A ver vamos. Até estou contente. Tenho muitas confusões para resolver, mas estou contente. Bom, talvez este não seja o sentimento certo... Entusiasmado? Pode ser, é melhor.
Vou é torcer para que na segunda feira nada de mau aconteça. Quero evitar sobressaltos que me provoquem alterações e me obriguem a refugiar em café e cigarros. Por via das dúvidas, já retirei a tv da parede do quarto e não consigo recolocá-la no grampo sem ajuda. Portanto vou entrar na semana sem ninguém ao lado para evitar uma recaída.
Ai... sózinho, sem tv, desorientado pela falta da cafeína e sem cigarros porque pensava que aqueles últimos cinco chegavam?
Já me estou a passar... e ainda é Sábado.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
cento e vinte e dois
O que fui fazer... impropérios, suores frios, desorientação espacial, tudo vi numa face que virou demoníaca. Isso fez com que lhe apontasse um demo interior o que, confesso, não foi a melhor continuação.
Depressa se passou para os gays e o seu casamento. De nada me serviu dizer-lhe frases feitas como "a minha liberdade acaba onde começa a de outrém" e anormalidades do género. A cada uma que proferia, pensando sempre nos exemplos históricos helénicos e românicos para citar os mais kitch, via crescer um ódio nazi que foi, inclusivé e não estou a brincar, reforçado com a frase "o Hitler é que tinha razão".
Sei que muitos teriam abandonado a questão e o local, mas... raios me partam, adoro (vivo) com uma situação destas, ou seja, a possibilidade de ser forcado à frente de um boi (única hipótese de olhar para uma tourada e pedindo-vos que a leiam como analogia) e chamar o bicho, a sua raiva e a sua... como se diz... investida.
E tal aconteceu!
Não vou repetir o que o homem disse em relação aos gays (a que juntou prostitutas, travestis, chulos e demais) pois até eu fiquei ruborizado. Mas uma coisa vos garanto: em pleno séc XXI e a poucos dias da sua segunda década, é-me complicado entender estas mentes tementes e prostradas a um deus católico e que admitem e proclamam a matança a todos os que não sejam, a seus olhos, normais.
Sem querer maçar-vos com mais pormenores, apenas exponho a última questão. Perguntei-lhe se, caso a sua filha menor sentisse que a sua vida, paixão e amor passasse pela homossexualidade, o que faria ele nessa situação. A resposta foi rápida e directa: "a minha filha??? NUNCA! E ISSO NÃO VAI ACONTECER! NUNCA! ERA O QUE FALTAVA!"
tadicho... falta-lhe bem mais do que um bocadinho assim.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
cento e vinte e um
Mas este ano a situação é ainda mais difícil pois passei a ser outra vez um futuro-qualquer-coisa paralelamente a primo oficial e oficioso, sobrinho, padrinho e quejandos. Como, então, descalçar a bota?
Olhei em redor, pesquisei, wikidipei e finalmente percebi o que tantas botas de pai natal fazem penduradas nas lareiras ou paredes ou portas... são o calçado de muita gente que, tal como eu, não pode sub-dividir-se molecularmente.
De repente dei por mim a tentar comprar botas de pai natal em filas intermináveis de gente com mau humor e numa correria desenfreada até à prateleira do linear que vende estas vestes específicas.
Estou cansado...
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
cento e vinte
Tenho uma forma de estar na vida muito simples: a minha liberdade termina onde começa a de outrém. Bolas, não é assim tão difícil apreender este principio. Portanto, sou uma pessoa básica e evito entrar em discussões sobre a coisa jurídica que afecta os homosexuais e, pasme-se, os heterosexuais. Mas existe uma questão fracturante em tudo isto. Se formos a ver bem, os não gays e não casados são também olhados de lado. Na verdade, as uniões de facto são um... facto cada vez mais comum na moderna sociedade e não é por isso que têm os mesmos direitos de um casamento civil ou católico. Não o têm e muito menos aos olhos de alguns truques das entidades fiscalizadoras e fiscais.
Então porque não fazer vigílias, manifestações de não-casados-power ou orgulho-unidos-factualmente?
Iamos para a rua, despidos de preconceitos, alugávamos um daqueles camiões que trazem aparelhagem e fazíamos um escarcel medonho na Av. da Liberdade. Paravamos para uma bucha naquele tasco das bifanas defronte à estação de comboios e com o papo cheio entraríamos de rompante na Loja do Cidadão exigindo igualdade de cidadania em relação aos oficialmente casados.
Será que a Igreja exigiria um referendo? Que algumas pessoas tementes a um deus que não é de todos andassem pela rua a pedir assinaturas contra esta terrivel doença? Que a sociedade lusitana se dividisse em duas? Que os GOI surgissem com balas de borracha e canhões de água?
Ora se nós, que escolhemos viver em harmonia com alguém evitando o embuste da assinatura do papelinho, não andamos a fazer figuras a exigir isto e aquilo, porque é que muitos gays o fazem? E reparem, muitos... não todos. Porque é que eles também estão divididos em relação a esta noção?
Porque é que há alguns que levam isto a peito mesmo com o brinde envenenado da adopção e outros há que continuam a sua vidinha, tratando das coisas (heranças, negócios, partilhas) por meio de advogados, e vivem felizes e contentes?
Mas, afinal, qual é a importância de um casamento? A meu ver é apenas meio caminho para o divórcio.
Mas isso sou eu... e a minha opinião vale o que vale.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
cento e dezanove
Reparei que andam mais motociclos nas ruas, facto que se deve à nova lei das 125cc. É bom, finalmente, ver uma lei decente aprovada neste país, um dos últimos dois (com a Holanda) que teimava numa enorme parvoíce.
A poluição é menor, o estacionamento facilitado, poupa-se tempo e stress. Há é que ter mil e um cuidados pois sabemos bem como os automobilistas reagem quando estão parados numa fila. A vontade enorme de ver esse "sacana" que a ultrapassa estatelar-se no chão é coisa de bárbaro, gente manhosa e profundamente infeliz. Mas é isso que somos e não há como evitá-lo.
Mas o que mais me desorienta sobre as duas rodas são as constantes mini-reportagens tv sobre a capital (e resto do país) europeia que juntou os povos para discutir novas políticas para a saúde do planeta. Só se fala e mostram centenas de bicicletas e de ciclovias. Que maravilha... Que bom deve ser andar de bicicleta de um lado para o outro sabendo que se tem prioridade sobre os veículos motorizados. Que gente nobre essa, que se faz ao frio com um gorro e cachecol. Que felizes.
O Sócrates deve ter pensado que fazendo ciclovias em Lisboa iria oferecer esses sentimentos aos olissiponenses e conseguir, mais uma vez, mentir sobre a crise. Esqueceu-se foi de fazer estudos sobre as sete colinas, os buracos e demais problemas que impossibilitam total e drasticamente a utilização desses gentis veículos numa cidade inimiga dos mesmos. É que nem a pé se pode circular...
Mas pronto, lá vamos vendo as tais reportagens tv sobre essa gente maravilhosa e sorridente que pedala sem fim.
Só mais uma coisinha. A minha enteada mais velha está a passar um ano nesse grandioso país de gente de bem com a vida e com o mundo. Sabem o que lhe aconteceu no primeiro dia que lhe deram a bicla para andar de um lado para o outro?
Roubaram-na!
Deve ter sido um tuga. É que só pode. Os dinamarqueses não fazem coisas dessas. São perfeitos...
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
cento e quinze
Mas, por outro lado, admiro a originalidade de um Dali, a pujança de um Pollock, o realismo de um Renoir, a abstracção de um Rothko ou a loucura pop de um Basquiat. Prefiro um espectacular Glória (que é exportado na sua quase totalidade) à fama de um Barca Velha. Adoro degustar o que os melhores chefs apresentam, inspeccionando a arte da apresentação e a sua relação com o palato.
Quem sou eu afinal?
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
cento e quatorze
Logicamente, esta situação tem a ver com a perseguição dos vários governos contra este tipo de troca de ficheiros (a CEE prepara-se para aprovar uma nova lei anti-pirataria) e defende os tão famosos direitos de autor nas suas variadas formas e fórmulas.
Defende?
Na minha sincera opinião, não! Pelo contrário e passo a explicar.
Sendo também um autor publicado, o primeiro crime que existe contra os meus direitos vem através da própria editora quando faz milhares de discos a mais numa fábrica brasileira que coloca à venda no mundo inteiro sem dar cavaco a ninguém. Ou seja, nem eu sei quantos discos vendi e vendo. Nem eu nem a SPA.
O segundo problema é a própria SPA, um antro de gananciosos e ladrões que vivem à custa dos meus royalties e que têm o descaramento de oferecer "adiantamentos" milionários aos artistas do costume que são os que menos precisam deles. Esta sociedade tem esquemas tão bem montados que os antigos gestores, após terem sido demitidos por gestão danosa, ainda ganharam um recurso que a obriga a pagar-lhes uma maquia de dinheiro digna de um prémio do euromilhões.
Depois vêm os direitos conexos, coisa juridicamente complicada, cujo pagamento é "esquecido" pelas entidades que utilizam a nossa imagem/nome/obra para se promoverem (tvs, rádios, revistas, etc).
O publishing é outra grande cantilena. São empresas que andam pelas SPAs de todo o mundo à caça do meu dinheirinho. Como é que um artista controla isto?
Finalmente, os armazéns de multimedia que revendem os cds às lojas (fora os esquemas e as compras directas às editoras), os distribuidores e as lojas que, todos juntos, conseguem vender um CD que custa dois euro a 15, 18 ou 20. Os artistas recebem uma mísera percentagem por cada CD à saída da fábrica, não ao preço da loja.
Ora com tudo isto é normal que quem faça música (ou outra arte que tenha suportes e esquemas de produção similares) não fique rico e que tenha nos concertos ao vivo o real ganho de sopa e pão.
Mas se não há disco, não há distribuição nem divulgação. Sem essas não há concertos. E pum!
Então porque é que, sendo artista, não concordo com o fecho de sites onde vou buscar de borla o que quero? Como é que defendo a ladroagem ao meu próprio bolso? Bom, convém dizer que pago principescamente o serviço net que assinei, portanto pago a alguém os royalties e demais direitos do que "saco" ou "baixo". Se a Meo/Zon/Clix/Sapo/etc não têm um acordo com a SPA, isso é um outro problema a resolver. E, sinceramente, o real!
A questão é que no ano passado comprei cerca de 100 cds dos 500 que ouvi. Se não tivesse ouvido não os tinha comprado, pois continuava a desconhecê-los e, convenhamos, pagar 18€ por um disco que não se sabe se é bom ou não é só para alguns. Este ano já comprei uns 40 dos 300 que ouvi.
Ou seja, devido à troca de ficheiros P2P comprei 140 cds em dois anos. E fiz outros comprarem-nos, pois teci elogios por mail, telefone ou facebook... façam as contas.
Como artista, o que me interessa é a divulgação e essa é feita através da net, pois as editoras e demais amigos não querem gastar dinheiro em promoção. Acho que é uma equação muito simples...
Existem outros problemas como, num país limítrofe e inculto como o português, sofrer o imenso azar de ter um gosto diferente da maioria. Ou seja, e mesmo que queira comprar o que procuro, não o encontro à venda nas lojas nacionais. Sou, portanto, obrigado a esforçar-me e ter um cartão de crédito e dar a ganhar o meu dinheiro às lojas internacionais.
Gosto muito de documentários, principalmente da BBC, e de outras divagações televisivas. Mas como aceder-lhes se os 100 canais de tv que pago nem sabem do que estou a falar?
Será que tenho que viver ignorante, tipo carneiro, e levar com o que os abutres, geralmente incultos que mandam nas estações televisivas e radiofónicas, gostam ou me querem impingir?
Desculpem mas não sou pimba. E tão pouco estúpido.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
cento e treze
Vamos por partes.
Quem não tem um ex-amigo que provou não ser merecedor da nossa amizade após longos anos de convívio? E será que somos tão bonzinhos que nunca decepcionámos alguém? Isso é a face oculta.
Não gostaríamos de subir na escada social pretendendo aquele lugar de direcção que está tomado por outrém? Isso é a hidden agenda.
E ao conversar telefonicamente com amigos, não soltamos umas quantas alarvidades, desde dizer mal de beltrano ou combinar um esquema para ganhar mais algum? Isso pode ser escutado e geralmente é-o por gente que está ao lado.
Nunca fugimos ao fisco com esquemas simples mas que nos garantem ficar com alguns euro no bolso? Isso são falcatruas.
E, por último, quem de nós não roubou um carrinho ao amigo, um chupa, uma pastilha, um livro? Portanto, somos ladrões.
Isto tudo para dizer que, afinal, não somos assim tão diferentes desta gente de gama alta que está ameaçada de prisão. A única diferença é que eles roubam milhões e, por milagre, são sempre soltos. Nós não declaramos a mais valia de uma coisa familiar e temos a vida estragada.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
cento e doze
As horas passaram como minutos e consegui estabelecer uma relação de amizade ainda trolha de meninice. No meio de brinquedos e computadores, fiquei a par de um mundo paralelo, rico em tradições milenares, cheio de criaturas que deveriam meter medo mas conseguem um sorriso cúmplice, nomenclaturas que fazem rir ao mesmo tempo que criam inveja por não ter sido eu a criá-las, inúmeras plataformas desde manuais a digitais trabalhadas com mestria, todo um universo único e fantástico.
Os megalómanos mostraram o propósito da sua vida que passa por um único sentido chamado "imaginação" e ficaram contentes por terem conhecido mais um pobre de espírito que se deixou fascinar pelas suas directrizes.
Depois meti-me no carro a caminho de casa e desde então tenho estado a pensar muito sobre o que vivi. Julguei que tinha sido uma sorte dos diabos mas à medida que os dias morrem percebo que foi um azar tremendo.
Se já sentia uma enorme repulsa por este Portugal que não entendo, agora sinto uma raiva capaz de o estrangular. O motivo é simples: este casal de megalómanos (vamos chamar-lhes Tolucling ou Luctoling... ou Linglucto) são, e acreditem em mim, a mistura de três génios. Explico: os papás dos Tolucling são dois homens e uma mulher (o que deve ter sido muito engraçado) de nome Tolkien, Lucas e Rowling. Conjuguem essas três imaginações juntas numa só cabeça e têm o mundo que vi e assimilei. Então porque é que foi um azar tê-los conhecido e porque grito blasfémias contra a minha terra? O motivo é tão simples que dói. E dói muito, bem fundo na alma que deveria ter honra em ser lusitana.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
cento e onze
De uma forma simplicista, o HPA é ter na mesma empresa dois tipos de empregados: o profissional e o amador. Assim se conseguirá o equilibrio entre a experiência vs entusiasmo, noção vs engodo, old vs new school e um imenso e abrangente etecétera.
O HPA é, assim, uma tremenda dor de cabeça para qualquer gestor. Em primeiro lugar porque tem que pagar mais ao P, mas cuidar melhor o A. Tem que conversar mais com o P mas falar mais com o A. Tem que perceber os atrasos provocados pela família do P e os atrasos provocados pelo cocktail noctívago do A. Enfim, toda uma confusão desnecessária quanto obrigatória.
Logicamente que esta necessidade empresarial existe no 1º mundo, não em Portugal. Por aqui o híbrido é outro. Ou outros. Temos, por exemplo, o HAB (híbrido Amador Barato) que trabalha que nem um cão a troco do passe social, o HPF (híbrido Político ou Familiar) que domina o mercado luso e o mais importante HCED (híbrido Chico-Esperto e Desenrascado) que proporciona, aos tugas em geral, um maior income mensal sem taxas e mais-valias.
O problema são, e peço desde já desculpa por mencioná-lo, os NHPA nos quais me incluo. Os Não-Híbridos Profissionais e Amadores são pessoas que vegetam neste mundo português. Têm vasta experiência em muitos sectores profissionais, sendo portanto acusados de Multidisciplinarismo, mas uma idade superior ou igual a 40 anos, o que implica contrato de trabalho, descontos e seguros para a entidade patronal.
Então porque é que continuo, assim como tanta gente de valor (reparem que me incluo nesta) a tentar ganhar o pão que cada vez é mais escasso? Terei que ser HCC (híbrido Come & Cala)?
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
cento e dez
O que ganhei ao longo de todos estes anos em que ainda relembro o primeiro bloco de ferro da Nokia com uma antena ridícula e falsa? O que ganhei ao querer o último modelo porque fazia mais x que y? O que ganho actualmente quando olho o Satio na montra? A quem interessa, sem ser para mim, o facto de conseguir com este novo modelo ver o que tenho no disco rígido da PS3 que está em streaming com o iMac, em qualquer lugar remoto?
Sei que ganho momentos de prazer. Sou um confesso gadgetfreak, adoro tecnologia, todos os seus pequenitos avanços, sinto-me bem quando demonstro e ensino todos os que me rodeiam, gosto de ser considerado como guru destas artes e ciências modernas.
Adoro perder-me nos sub-menus indecifráveis para a maioria, como receber chamadas de gente em pânico porque o computador (pc ou mac) deu raia. Gosto de provar que, afinal, não sou assim tão geek ou tecnofreak, pois também detesto os nerds informáticos e similares.
Ao fim e ao cabo, acho que sou um gajo moderno, sofisticado q.b. e continuamente interessado no próximo passo.
A questão é que no século anterior, pessoas como eu ainda tinham a sua graça e utilidade. Com a passagem do milénio, surgiram novas infra-linguagens pseudo-técnicas que fazem todo um esforço para que não sejam compreendidas por pessoas nascidas antes de 1980 que é o meu caso.
Quanto a essas, no way, nunca me ultrapassarão.
O problema é outro. É a questão da liberdade, da disponibilidade, do ser e não estar, como do parecer e não querer. Longe vão os tempos em que combinavamos com os compinchas às tantas horas naquele preciso lugar. Não tinhamos carro, nem GPS, nem telemóvel e quem chegava atrasado 15 minutos já sabia o que ia enfrentar. Hoje estamos disponíveis para as desculpas e atrasos dos outros. Ficamos à seca, pois somos do tempo em que a pontualidade era in ao invés de forex. Somos, portanto, gozados.
Ou seja, o nosso telemóvel plimplimplim é a última prisão. Recebe chamadas, mensagens escritas, faladas e imagéticas, recebe emails, tem já um A.GPS incorporado para mostrar onde estamos, é camara foto e videográfica que nos transforma em jornalistas ou paparazis, liga-nos ao Facebook, Twitter, Myspace, Netlog, Plaxo, Netmeeting, HoresOnLine, Continente, análises clínicas, fisco, StarTracker, Amazon, youtube, farmácias, trânsito, banca, pagamentos de serviços, Wikipedia, Fnac, Worten, Vobis, Stick-a-Skin, Cp, Refer, Benfica, Atlético Clube de Alvalade, Supremo tribunal de Justiça, jornais on line, Nasdac, leilões, Remax, Bimby, Torrents, Mundo, sub-mundo, extra-mundo, Scully, MacGyver, blogger, wordpress, podcasts e mais tudo.
O que nos resta então? Qual é o nosso tempo? Como podemos ler livros e escrever os próximos? Como podemos pensar nas soluções para amanhã? Como podemos ouvir música e desejar fazê-la? Como podemos ser unos quando estamos tão unidos?
Eu não pedi para ser irmão de toda a gente ou o tio dos mais pequenos ou o amante dos mais desesperados. Mas caí na própria teia. Tenho saudades de ter tempo e de ser quem fui. Tenho saudades do tempo. Da liberdade. Da individualidade.
Tenho saudades de mim, quando quis mudar o mundo, pois era imortal e tão garboso que levaria a minha nave a conquistar o desconhecido.
Agora...
Bom, agora só penso em desligar para sempre o telemóvel.
Mas sei que vou ferir toda a gente que pensa em mim, que me quer bem e que está habituada a que eu exista. É que hoje em dia, desligar o telemóvel é como desligar a máquina que nos sustenta a respiração e a identidade.
Se o desligar, morro.
Creio nisso.
E ainda sou novo....
terça-feira, 10 de novembro de 2009
cento e nove
Quando olhamos os nossos jovens percebemos que a grande maioria, mesmo com um canudo na mão, não sabe onde está nem para onde vai. E é mais assustador quando observamos os ainda mais novos a copiar o estilo de vida norte-americano que vale o que se sabe.
O que é curioso é a conclusão de tudo isto: enquanto os recém-licenciados ainda tentam encontrar um emprego, os recém-desempregados tentam reconquistar esse mesmo emprego. O problema é que os primeiros vivem à conta dos segundos e o desespero dos últimos é bem maior que dos primeiros.
Temos portanto uma luta sem quartel no mais impenetrável castelo que são as nossas próprias casas.
Isto vai dar buraco...
Este país que teima à força em mostrar-se moderno e capaz às altas instâncias europeias, com dados falsos e passagens de ano administrativas, está-se nas tintas para o futuro próximo. É que nem se sente envergonhado quando emprega nas obras homens louros com canudos debaixo do braço, ao invés de convidá-los para ajudarem naquilo que dominam e que nos faz falta. Neste ponto, os EUA foram bem mais inteligentes que nós, extraordinários patrícios que berramos a nossa história quase milenar.
Por outro lado, os que têm agora entre 40 e 50 anos não sabem como se safar, pois a experiência, conhecimento, método, trabalho e sacrifício, deu lugar ao desenrascanço, cunha, batotice e arrogância. O que fazer então, visto que a maior parte ainda está muito capaz e vê os mais novos tirarem-lhes o posto sem fazerem o mínimo para isso (leia-se trabalhar de borla contra contratos de trabalho)?
Tenho uma solução.
Bastaria um mês para que todos os homens e mulheres que ainda são úteis e experimentados vissem o seu valor novamente reconhecido. Era só deixar o local de trabalho durante esses 30 dias! Imaginem comigo o dia a dia deste país se os jornalistas, fotógrafos, arquivistas, enfermeiros, cozinheiros, fiscais, engenheiros, arquitectos, escritores, pensadores, agricultores e todos os restantes deixassem as suas artes aos mais novos, acabadinhos de saír das universidades com aquele canudo tão bem preparado...
Isto ia dar um buraco...
Ops... disse "ia"?
cento e oito
O amigo reflecte e diz que tem saudades dos primeiros telemóveis de ecrã verde e letras pretas, pois hoje em dia já não percebe nada dos novos e até lhe é difícil fazer uma simples chamada.
Eu ataco-o veemente e entusiasticamente, gritando que somos a geração que viveu o analógico, todas as grandes transformações tecnológicas e que sei que, daqui a uma década, vamos olhar para estes monstros multimedia e touchscreen com alguma saudade e escárnio.
Ele respondeu que não tem paciência, eu retorqui com mais ecrãs que se adaptam ao corpo, gravadores de imagem e som orgânicos, finalmente a verdadeira realidade virtual.
Ele olhou-me com alguma pena e perguntou se podia ir checar os emails, o blog, o facebook e twittar umas cenas.
Eu sorri...
cento e sete
Tenho a sorte (e o azar) de trabalhar em casa o que facilita observar mais noticiários, seguir mais sites e opiniões, ouvir mais informação e etc. E se por um lado fui espectador directo das grandes mudanças sociais e físicas (desde a queda do muro aos ataques 9/11, passando pelo tsunami e derrocada de pontes com autocarros), continuo a gostar de imagens com som, nomeadamente filmes e seriados.
Foi com eles que percebi que um presidente afro-americano estava para breve após ver inúmeros filmes que o apresentavam e depois com essa série intitulada 24. Quando reparei no senador Obama, exclamei "vai ser este, vai ser este e é já!" e poucos acreditaram.
Hoje relembro e estou muito atento a outro "aviso" que é, simplesmente, o fim do mundo. As séries são muitas e os filmes às dezenas. Desde invasões de aliens que não o atarracado ET a explosões nucleares, tudo está a acontecer nos médios e grandes ecrãs. Algo se passa e os senhores do mundo, que pelas minhas contas são oito marmanjos, já sabem o quando. Vamos ver é se aceitamos de mão beijada este destino ou, a fazer fé nos sítios e opiniões cada vez mais esclarecidas e menos histéricas dos conspirativos teóricos, estaremos mais avisados e quiçá preparados para deixarmos de ser cada vez mais cordeiros e ordeiros alegremente caminhando para uma realidade Orwelliana.
Isto de um planeta mais verde, veículos eléctricos, transportes colectivos, lâmpadas de luz tão fria quanto horrível, bi-horários, vidrões e pilhões, apelos vegan, casamento homossexual, adopção de crianças vietnamitas, lince ibérico e, mais recentemente Sporting, são causas tão perdidas quanto ineficazes se, por exemplo, o sol espirrar um atchim. E aí não haverá protector e demais protecções que nos protejam protegendo um mundo que há muito não nos protege.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
cento e seis
Imaginem comigo um professor com uma arma numa sala de alunos complicados, os representantes do governo a trabalhar o que o povo ordenava, os ladrões a ficarem mesmo presos, a vergonha pública dos maus gestores com a consequente perda de bens, os empréstimos bancários garantidos e facilitados para quem quer produzir e melhorar a vidinha, as doenças atacarem-nos fortemente no primeiro dia para depois sumirem do corpo, as igrejas despojarem-se dos luxos e convidarem-nos à elevação real da alma, os divórcios serem o princípio e não o fim, os vícios não fazerem mal, etc e etc e etc.
Relendo o parágrafo reparo que alguns exemplos, no papel, até foram pensados para funcionarem. Onde é que perdemos o rumo?
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
cento e cinco
Fica então aqui uma homenagem em jeito de história melómana e modus-vivendi para as gerações mais novas que se julgam donas da matéria e da razão.
O António Sérgio (AS) marcou a minha geração. Com a sua escolha e divulgação musical que desde o início foi pautada pela novidade e diferença, fez com que um puto como eu tivesse comprado vinis atrás de vinis (enquanto a mesada durava) de nomes estranhos, sonoridades ímpares, letras e palavras cheias, rebeldia q.b., múltiplas linguagens rítmicas e melódicas com essências tão díspares que iam do punk à new wave.
Passei horas defronte à aparelhagem por elementos separados, como convinha, e que contava com um gira-discos da Onkyo, um amplificador vintage da mesma marca, um deck de cassetes da Nec e umas colunas da B&W. O meu pai, que pouco ouvia música, pelo menos tinha comprado o que era bom e, talvez por isso, a qualidade do som encheu-me os canais desde tenra infância, ajudado por uns imensos e pesados auscultadores da Senheiser.
Essas horas fizeram-me mal às costas, pois estava sempre curvado para carregar no botão Rec quando os primeiros segundos das músicas que perseguia soavam como se fosse um alarme.
Depois era uma camada de nervos sem igual até que a música atingisse o seu final, onde era necessária muita rapidez e mestria para carregar no botão Rec/pausa afim de não gravar a publicidade ou a voz do AS. Como puto, eu queria só as músicas...
Essas cassetes que foram crescendo em número e qualidade (de normal a dióxido de crómio e metal, estas muito caras e raras) deram-me alento diário, juntaram-me aos demais ouvintes em romarias no início do Bairro Alto para as matinés do Rockhaus, levaram-me a frequentar últimos pisos em prédios dos Olivais onde existiam rádios pirata e a fazer a minha primeira banda pop/punk/synth/newwave.
Foi com o AS que este país medíocre e inculto saíu do labirinto das FM e das suas leituras juvenis, dos atropelos à liberdade a mandato dos padres da RFM, entre outros casos e politicas.
Se o AS nos dava as novidades, nós repassámos-las nas ondas hertzianas piratas para todo um bairro estar curvado para a tecla Rec dos respectivos gravadores.
Foi assim que grandes nomes da pop/rock começaram a visitar o nosso país, alertados por notícias de uma movida 80 que estava a acontecer na juventude lisboeta e é por isso que nos dias de hoje temos salas cheias com os Massive Attack ou o Steve Reich, festivais extraordinários um pouco por todo o lado, festas melómanas, rádios ainda como deve ser (Radar, Oxigénio e Europa) e um parco mas importante número de pessoas ávidas pelo diferente, não comercial e mais adulto som e imagem.
O AS não foi, portanto, apenas um lobo da rádio com a sua eterna voz de bagaço, a sua inquietação quando ouvia algo novo, a sua alegria quando trocava nomes e experiências.
Pelo contrário, foi alguém que formou muita gente, pessoas que agora tentam incutir nos seus mais novos toda essa liberdade de um mundo outsider das editoras mainstream, das políticas terroristas das playlists, de um imenso programa estupidificante e global que tem como propósito abafar quem pensa diferente das maiorias, quem gosta de ir mais além, quem tem mais do que os cinco sentidos básicos com que nasceu.
O problema é que AS só houve um e não há lugar para mais nenhum, pois até ele foi múltiplas vezes atacado e abandonado pelos seus pares mandantes. Pares esses que agora o choram... quando ainda ontem lhe fizeram a cama.
Desgraçado este povo e este país que vê a cultura por um canudo cada vez mais estreito. E desgraçada destas novas gentes, pupilos de uma MTV vendida e que abraça modas, credos e vestes de gente que nada nos diz. Nem a nós nem ao mundo. Quando acordarem já vai ser tarde.
Um grande abraço António. E um grande e sentido bem haja por me teres ajudado a ser quem sou.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
cento e três
Como é que ultrapassaria a vergonha de ver em tribunal todos os familiares que utilizam o meu apelido? E os amigos que me confiaram segredos ao longo dos anos? E o olhar incrédulo de um pai? E os vizinhos? E o fiado que tenho nas mercearias, quiosques e tascos aqui do bairro?
Por tudo isto, e por muito que até saiba alguns truques desse sub-mundo que é o poder aliado à gatunice, não teria coragem para enfrentar tantas lanças olhadas contra mim.
Sofro desse sentimento que se chama vergonha. Na cara, no corpo, na rua, no trabalho, relações e amizades. Nesta altura em que o dinheiro custa cada vez mais a ganhar de uma forma, vá lá e digamos, honesta, seria muito fácil resvalar para caminhos de triangulação empresarial, orçamentos feitos em papel pardo e sem iva, renomear outrém (menor se fosse possível) para os bens móveis e imóveis, apresentar despesas invulgares ao fisco e ter com amigos essa maravilha que é uma off-shore.
Mas não consigo. Por muito que uma vida de ladrão de jóias e arte me fascine, há sempre a possibilidade de ser apanhado e de ter que telefonar à mãe da prisão.
E isso é impensável.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
cento e dois
E é sobre tradições que me debruço. A constante importação de inglesismos só tem paralelo na cedência das nossas coisas para dar lugar a outras que nunca foram nossas. E, pasme-se, isto não tem a ver com fluxos migratórios que escolhem o nosso país para viver (senão teríamos o carnaval brasileiro ou o KaZantip ucrâniano, para não falar das Festas do Mar angolanas ou as Companhias de São Benedito de Moçambique e etc), mas sim uma questão de marketing puro e duro promovido por marcas ou promotores.
Vejam o ridículo que é dançar desdunada no carnaval de Torres com um frio que se cola à celulite e uma chuva miudinha que atrapalha o sambar. Ou as festas de Saint Patrick, verdes como o nosso verde, mas com roupa e botinhas um bocado larilas e uns chapelitos estranhos, sem falar nessa coisa burlesca denominada gnomos...
O Valentine's Day também enche as montras de coraçõezinhos cor de rosa e vermelhos, dizeres em postais e cartões e anéis que prometem futuros a dois. Depois vem a factura no bolso e no projecto.
Agora é o Halloween. Mas o que é que temos nós a ver com a abóbora, somente indicada para sopa? E mascararmo-nos com vestes assustadoras e esqueletos falsos, pintando a cara como mortos-vivos e andando a pedir de porta em porta um qualquer caramelo ou partida? Mas o que vem a ser isto?
Querem festa? Promovam o que é nosso!
É que somos ricos em festividades, folia e tradições seculares.
Máscaras temos muitas e bem mais catitas que as norte-americanas.
Adoramos os "assaltos" e bater em panelas.
Danças originais desde Miranda ao Algarve.
Santos para todos os gostos e feitios.
Procissões várias que até são salutares.
Gastronomia sem par.
Superstições e lendas dignas de Hollywood.
Opá... e no meio disto tudo esqueci-me: a Oktober Fest está a acabar. Volto já.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
cento e um
Vivi 10 longos anos com este ser. Diariamente.
Lembro-me que foi escolhido porque lambeu o dedo enquanto os irmãos mo morderam. Tinha também uma mancha enorme na cabeça que parecia um choné. Foi logo alcunhado de Camões mas depressa passou a Ega e de seguida a Óscar. Óscar Wild, não Wilde. Não interessam as razões da mudança de nomenclatura, mas posso adiantar que teve a ver com a fraca noção cultural de quem se lhe apresentava ao caminho. Ok, não resisto: Ega era nome de menina...
Desde cedo se percebeu que o trôpego era muito inteligente pois fazia as necessidades em cima das enormes A3 do jornal "espesso" que eram sempre distribuidas pelas várias cozinhas ou marquises dos visitados. Nunca fez porcaria fora delas o que denotava uma inclinação precoce para as artes.
Foi autor de um mensário que prefez o seu primeiro ano e viu-se convidado para ser admirado online, numa altura em que pouca gente sabia que existia esse sub-mundo.
Há muito para contar sobre as primeiras aventuras no exterior, as folhas outonais que lhe viravam a atenção, a esquina preferida para o primeiro alívio, as viagens mais longas de carro, veículos que a partir daí passaram de egoístas duas para cinco portas para ele poder ser admirado por quem vinha nos carros atrás.
Fez muitos amigos! O maior de todos, Zorba! Estão juntos neste momento. Depois havia os outros, inclusivé da mesma raça, mas a relação com o grego foi duradoura. Imaginem um jardim em que todos os dias um Dálmata passeava com um Boxer e em que depois se juntavam todas as raças e credos, tamanhos e feitios, donas e donos, amigos e amigas... era um jardim feliz de Lisboa.
O Óscar conheceu ao longo da sua existência três tipos de pessoas:
a) as que o adoraram desde o início.
b) as que detestavam essa coisa denominada cão mas que ficaram rendidas.
c) as que tinham pavor que ele ajudou a ultrapassar.
Também conheceu inúmeras pessoas de quadrantes diversos, desde engenheiros a políticos, arquitectos a fotógrafos, designers e pintores, poetas e desesperados, pais e mães, irmãos e irmãs, filhos e filhas e afilhado/as e enteadas.
Mas de todos, com quem mais (sobre)viveu foram os músicos. Imaginem um ser que tem não sei quantas vezes mais audição que nós levar desde puto com violinos, gaitas de foles, guitarras várias, flautas, caixas de ritmos e programas software que faziam imenso ruído mas que ele também entendia como música... ah valente. Interessante relembrar agora o rol de músicos e artistas tão famosos e inalcansáveis que lhe fizeram tantos afagos no alto da tola...
Também viveu as mulheres que fazem parte de uma vida, sem um queixume, um ciúme, um desentendimento, um desamoro ou desnorteio. Ajudou a amar e foi por isso também amado. Ah, valente!
Ultrapassou sem mágoa os bons e maus ventos de quem o tinha, ajudando à reavaliação e ao reacordar diário, sempre com um mimo, sempre com um primeiro sorriso, sempre com aquela força que só eles conseguem visitar todo os dias. Tão valente!
Tanto afocinhava as malas de quem prometia guloseimas, como oferecia os pertences a quem o visitava.
Tanto era a alegria de todas as casas como a preocupação de todos os seus membros.
Tanta coisa que deu e tanto mimo que recebeu.
Quem não se lembra dos "olhinhos", do fazer-se pequenino para conseguir subir para um colo, de uma cama sempre ao seu dispôr mesmo à revelia do dono, do apetite voraz por queijo flamengo ou pelo silêncio astuto com que enganava o dono enquanto recebia mil e um bocados de comida dados com segredo por baixo da mesa pelos convivas de repasto?
É também indissociável nas aventuras empresarias, sendo mascote de escritórios que foram mudando com o tempo e vida. Era matreiro a escolher clientes como calmo nas discussões criativas mais acesas.
Era, acima de tudo, educado (fora os dias difíceis que lhe surgiam mesmo em frente às narinas) e extremamente asseado. Podia largar pelo duas vezes por ano (seis meses no inverno e seis meses no verão), mas parecia um felino com a paranóia da auto-limpeza.
Muito, mas mesmo muito fica por mencionar.
Nos últimos tempos, foi-se abaixo das canelas, mas sempre garboso e pedante, amuava cada vez que se tentava ajudá-lo a transpôr qualquer obstáculo mais complicado. Não gostava mesmo nada disso mas lá se ia deixando empurrar por mãos amigas, por gente que o amava. Mas amuava. Amuava porque sabia que já estava a ser uma preocupação, um temor, uma tristeza, um daqueles males de que o coração sofre. O coração do dono.
Nestes últimos meses conseguiu proezas dignas de realce: ficou muito amigo de 1/3 de gatos, tirou o medo a quem tinha pavor, fez catpeople olharem para a sua raça como fantástica e ainda foi buscar a bola amarela cada vez que o benfica marcava um golo ou quando a ferrari estava quase a vencer um grande prémio neste ano menos bom.
A bola amarela...
Há três tipos de pessoas que sabem o que é:
a) as que a adoraram desde o início.
b) as que detestavam essa coisa mas que ficaram rendidas.
c) as que tinham pavor mas que ele obrigou a ir buscar... e buscar... e rebuscar.
Um grande ão, amigo.
Que as minhas últimas lágrimas façam parte do rio que tanto gostavas de cheirar.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
cem
Tenho gostado muito de escrever este blog e, confesso, nunca pensei chegar a um número tão alto de escritos.
Poderia ser um terminus bonito e elegante... cem. Mais a mais porque coincide com uma tristeza particular profunda (e não tem nada a ver com as legislativas nem autárquicas, embora sinta alguma desconecção com o meu próprio país) que me vai mudar radicalmente o dia a dia e a noção que tenho dele. Pensei por isso em terminar este capítulo, mas por outro lado acho bem mais interessante em jeito de memória e de celebração de vida, continuá-lo com gosto e garra.
Ele há coincidências interessantes nesta vida. Nem que seja através de um bonito e redondo número.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
noventa e nove
Fiquei esclarecido e tomei uma decisão: também eu quero pertencer à Gebalis, Recria, Metro, Carris, Porto Lx, Expo, Casa do Gil e demais associações, institutos ou empresas que ajudam, e muito, a edilidade.
O meu próximo post será o centésimo e coincidirá com o novo presidente que, espero, não seja nenhum dos que se apresentaram.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
noventa e oito
Exmo Sr. Presidente da CML,
1. Deixe-se de merdas! Limpe-a da Câmara, pois está lá muita e comece a colocar gente que quer e sabe trabalhar. Limpe as ruas! Limpe as fachadas! Limpe os monumentos! E limpe as barracas que são as constantes barbáries com que brinda esta cidade, seja em más medidas, péssimas medidas e roubos descarados.
2. Deixe-se de merdas! Precisamos de túneis e muitos! Dois que continuem o eixo Olaias/Campo Pequeno. Precisamos de um nesse cruzamento e outro na Praça de Espanha para não ter que se fazer aquela rotunda para saír da cidade. Que ridículo! Outro no Campo Grande/Lumiar. Outro no Largo do Rato. Outro no Cais do Sodré. E etc.
3. Deixe-se de merdas! Precisamos da Baixa Pombalina sem pombos e com pessoas. Invista na cultura que também é o comércio tradicional. Tire já os ministérios da Praça! Mas é já! Faça esplanadas, restaurantes, museus, ateliers de arte, exposições, casas de cultura! E uma merda de um parque de estacionamento, seja em prédios devolutos, seja no que tiver que ser.
4. Santa Apolónia! Uma porta da cidade que é degradante, seja pelos prédios vizinhos, pelos tascos circundantes, pelos sem abrigo, pela sujidade e caos terceiro mundista. Que vergonha.
5. Metro em toda a Lisboa! As obras podem durar 5 ou 10 anos, mas bolas, uma cidade de colinas e buracos e carros no passeio tem que servir quem a pisa. Linha das Colinas para a frente e continuação para ambos os lados da barracada da estação do Cais do Sodré, para Belém inclusivé e até à expo inclusivé.
6. Frente Rio oriental. Mas o que é isto? Vá a Barcelona, Berlim, Londres, Paris, Istambul!!! VIAJE! Veja o que grandes cidades fazem das suas frentes ribeirinhas. Porto de Lisboa? Mas o que é isso? Quem são esses criminosos? Prisão já!
7. Continue a esquecer a parte mais importante de Lisboa que é a Oriental. Deixe caír Xabregas, Madredeus, Beato, Poço do Bispo, Matinha. Toda uma frente que dignificaria uma capital, com mudanças radicais e obras profundas. Toda uma nova cidade à espera de uma qualquer inteligência.
Isso dava dinheiro, muito muito muito dinheiro. Mas o melhor, porque também dá trabalho, é fechar os olhos e andar de Audi com batedores da PSP.
8. Parque Mayer. É para mandar abaixo. Esqueçam essa merda e continuem o Jardim Botânico com espaços lúdicos, para a criançada aprender o que é a natureza e hotéis de charme. Revista à Portuguesa???? Por amor de deus!
9. Feira Popular. Sou contra, mas sei que há muita gente que a deseja. Espaço não falta em Lisboa. Olhem para a parte oriental. Agora fazê-la em Monsanto? Mas está tudo louco?
10. Serviços Sociais! Braga Parques? Prisão! Terrenos do Campo Grande têm que ser para as pessoas que merecem e necessitam de apoio. Todo um parque de apoio social, com habitação assistida para a terceira idade, instalações para grupos de apoio, serviços básicos de caridade, etc. Uma cidade também foi feita pelos seus velhos! Tem que existir para eles!
Deixe-se de merdas e peça-me mais 10 passos, pois eu tenho uns 1000.
Cordialmente!!!
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
noventa e sete
noventa e seis
É intrigante, direi mesmo aterrador, conversar com um adolescente de 13, 14, 15 anos. Escrevi conversar? Esqueçam. Tentar um diálogo com mais de cinco minutos com atenção focalizada, isso. Não pode ser normal perceber que os jovens não sabem nada de nada e, pior, nem querem saber. Enquanto lhes tentamos incutir alguns valores, eles são-nos ripostados com coelhinhas da playboy, simpsons, extreme makeovers, miamis inks e um sem número da patetices tão graves quanto estúpidas. Também, e agora falo só de mim, era um revoltado nessa idade, contra tudo e todos e com muitas certezas sobre os enigmas da vida. Mas bolas, tinha alguma cultura geral pois a isso era obrigado. Sabia que os EUA têm 50 estrelas correspondentes aos estados e fazer um ovo estrelado. Sabia que Camões tinha safo os escritos mas não o olho, ao mesmo tempo que olhava o mundo num globo iluminado. Sabia muita coisa sobre diversas matérias escolares. Sabia aritmética e tinha inteligência para decifrar pequenos problemas diários e, atenção, utrapassá-los sózinho. Hoje em dia e com a mesma idade que corresponderia a mais cinco anos que no nosso tempo, os petizes só pensam em sexo, roupa, moda, sexo, dinheiro, sexo, dinheiro, saír de casa aos 20 e ter grandes casas e carros de luxo nem que, e aqui está o busílis, seja necessário o sexo para lá chegar. Mas o que se passa? E não me venham dizer que há putos e putos, pois sempre haverá. O problema aqui é que não estamos a falar sobre júniores sem condições para estudar e ir longe na vida, mas exactamente sobre os meninos e meninas que até nasceram confortavelmente.
Dir-me-ão "é tirar o telemóvel", "é cortar os canais cabo", "especificar horas de internet", etc e tal. Sabemos bem o que estes passos provocam e por muitos castigos, proibições, policiamento e monitorização que consigamos, eles estão sempre tempo a mais sózinhos. Antigamente, quando fomos catraios, também fazíamos muita merda, mas não a pensavamos com orgulho nem a defendíamos com sangue. E de vez em quando, ouviamos mesmo os mais velhos pois lá no fundo no fundo, sabiamos que eles tinham razão. Hoje tudo mudou e a falta de respeito só tem paralelo na falta de inteligência.
E o que fazemos na maior parte dos casos? Imitamos a avestruz! Só que colocamos a cabeça no buraco não porque estamos assustados, mas porque ficamos com vergonha daquilo que acabámos de ouvir.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
noventa e cinco
Mas o exercício que depois pensei é que me fez escrever este post:
E ao contrário de tudo, será possível viver uma vida sem colocar o pé fora de casa?
Vamos a isto!
Trabalho online, garante de sustento e de recebimentos/pagamentos via banca online: check.
Supermercado online (fora as pizzas, frangos e demais serviços): check.
Compras diversas online: livros, discos, AV, móveis, etc: check.
Comunicação triple play: check.
Médico ao domicílio: check.
Prostitutas ao domicílio: check.
Trolhas, técnicos diversos para pequenas obras no domicílio: check.
Finanças (pagamento de impostos): check.
Ao fim e ao cabo, tudo check.
Portanto, é muito possível viver toda uma existência sem colocar os pézinhos na rua (reparem que não estou a falar de mais nada a não ser da possibilidade pura e simples).
Ao fim e ao cabo, e posso estar em erro, só não podemos ir ao dentista, operação cirúrgica e votar. Os primeiros são complicados, mas o último... poderia viver muito bem sem assinar a cruz pois são sempre os mesmos e nada muda.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
noventa e quatro
Ultimamente tenho observado algumas mudanças comportamentais, reflexos da crise existencial e social, e a coisa não está a ser bonita. Exemplos? As pessoas SA, LDA e SARL.
As SA são as que Sofrem por Antecipação. Choram-se por tudo e por tudo, antecipam que vai correr mal, são nervosas, quizilentas, agressivas e barulhentas. Por muito que se lhes tente incutir alguma realidade e a nuvem de uma úlcera nervosa, a resposta é sempre curta, grossa e mal educada. Só apetece fugir mas depois entra a tal coisa da amizade e lá vamos continuando a levar porrada.
As pessoas LDA são as Loucas Da Alma, tristes e abafadas, sofrem em surdina sem querer alterar uma vírgula na vida de alguém que está ao lado. Choram compulsivamente sem entender porquê, mas sempre no esconderijo do WC ou no quarto com a almofada a abafar o soluço. A ajuda que tentamos é sempre aceite com uma tal tristeza no rosto que pensamos imediatamente em retirá-la. Só apetece fugir mas depois entra a tal coisa da amizade e lá vamos continuando a levar porrada.
As pessoas SARL são as Solitariamente Agressivas com Registo Libertino, grandes objectos de desejo, sempre impecáveis e bem tratadas, mas donas de uma arrogância tal que pensam conseguir esconder a sua extrema tristeza e solidão com uma vida abundante de amantes, compras, recheios e viagens. São muito complexas e mudam drasticamente de feitio várias vezes ao dia. Só apetece fugir mas depois entra a tal coisa da amizade e lá vamos continuando a levar porrada.
Perguntar-me-ão, mas bolas, não conheces gente "normal"? Claro que sim! São as COM, pessoas Comunicativas, Organizadas e Maduras. Mas onde está o gozo, a aventura, a novidade? Onde está a necessidade de quebrar a regra ou a rotina com uma graça fora do sitio certo, uma aventura fora de horas, qualquer coisa que não esteja na agenda filofaxiana? Só apetece fugir mas depois entra a tal coisa da amizade e lá vamos continuando a levar porrada.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
noventa e três
Tinha a companhia de primos e era uma algazarra empoleirar-mo-nos nos pequenos espaços livres das carroças puxadas por bois, cheias de uva acabadinha de apanhar. Nesse caminho até ao lagar, comiamos quilos de uva preta pequenita e depois ajudavamos na pisa. Normalmente o resultado era um extremo e sonolento (quase embriagado) cansaço infantil e uma forte diarreia, mas no dia seguinte ninguém nos proibia a mesma viagem. Nessa mesma altura comia queijo de cabra acabadinho de fazer, bebia o seu leite e adorava ir à cave de um outro primo onde a família se juntava para grandes conversas regadas com vinho da pipa, presuntos pendurados a curar, outros cortados com mestria, queijos vários e um pão que sabia à vida.
De vez em quando bebia um copito de vinho.
E de vez em quando era muito, mas muito feliz.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
noventa e dois
E a vida, perguntar-me-ão?
Bolas, e isto tudo também não a é?
terça-feira, 22 de setembro de 2009
noventa e um
Exemplos? Os Gato Fedorento com este novo "Esmiúçar os Sufrágios" e uma fulana de olhos verdes (ou azuis) e corpo interessante que foi a cara do "5 para a Meia Noite" das últimas segundas-feira.
No caso do RAP e amigos, a colagem a esse extraordinário diário noticioso norte-americano que é o "The Daily Show" e ao seu apresentador/protagonista Jon Stewart é, por demais, evidente. No caso dos olhos verdes (ou azuis), a pilhagem de sketches do Conan O'Brien e Jay Leno é má demais para ser verdade.
Ambos perceberam que o que está a dar é agarrar num conceito com milhões de espectadores por todo o mundo e fazê-lo à portuguesa. E claro está, ambos se estampam. E isso é consfrangedor. Tenho para mim que, quando se rouba, há que fazê-lo com alguma pinta e tem que se ter como objectivo único ser melhor que o original. Pode ser que assim a coisa passe, que as pessoas até façam o jeitinho, que as críticas sejam atenuadas, que enfim, se consiga fazer a coisa e obter alguma notoriedade por parte dos mais ignorantes ou distraidos, alcançando um outro grande objectivo nacional que é o de pertencer às listas de convidados "vip" para as festas de Verão nas discotecas que só são in nessa época. Ah... e ser amigo das Mayas que pululam por aí.
RAP está sem jeito como Jon Stewart pois falta-lhe tudo o que este tem. Os olhos verdes (ou azuis) tem tanta gana de auto-promoção que já nem dá pena vê-la a babar-se ou a aterrorizar o idioma português. Os sketches de ambos os programas roçam o mediocre menos menos, embora os Gato consigam ainda sacar algumas gargalhadas, inclusivé minhas, quando fazem o que sabem fazer, ou seja, comentar as notícias e imagens do dia.
Contudo, mete medo saber que tudo é possível na televisão portuguesa. E mais medo mete o facto de percebermos que não há ideias novas. E isso sim, é trágico.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
noventa
Continuo com essa vontade e necessidade mas sofro de um complexo bipolar: às vezes tenho vontade de me desfazer de quase tudo, outras de quase nada.
Escrevo sobre isto porque a minha idade tende teimosamente a seguir em frente e porque tenho medo que a minha cabeça, num futuro, não seja capaz de se lembrar das memórias que os pertences evocam apenas pelo olhar. Imaginem a desgraça que é finalmente decidir limpar a nossa vida de tudo o que acumulámos para depois não nos lembrarmos de nada e precisarmos desse apoio material para pelo menos nos reconfortarmos.
É que tenho mesmo medo.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
oitenta e nove
Depois o mundo realkombat ataca esta ilusão com o concreto, as formas, rugas, os descaídos, a idade, gordura, os papos, a tristeza, desilusão, combate, fúria, doenças, maternidade, emprego, cansaço, carreira, "domesticidade", pavor, medos, fobias e os receios de perder, esgotar e ser trocada por um modelo mais novo.
No meio disto tudo estão os homens. Uns parvos ao ponto de acreditarem e seguirem o primeiro formato, outros conscientes que o segundo também não é assim tão mau.
O problema é que os homens ficaram impávidos e serenos a assistir a este endeusamento de uma Mulher que não existe (ou existem poucas) de formas bellucianas, sorrisos foxianos, sensibilidades penelopianas, graciosidades Berryanas e inteligência thurmaniana ou, para conter tudo no mesmo saco, aliar um cruzar de pernas ao QI superior de um alien chamado Stone o que, convenhamos, é uma pedra!
Mas tudo estava bem, pois nós homens gostamos de afirmar que gostamos delas grandes ou médias, deles grandes ou redondos, carnudos ou sensuais, longos ou encaracolados, dela curta ou comprida, dele a ver-se ou escondido, de fio ou body, de odor 5 ou natural, peluda ou pelada, loura ou morena, verdes ou negros, azuis ou castanhos ou, para terminar, cinzentos como eu gosto.
Num repente, tudo mudou graças ao que explanei no primeiro parágrafo. Devido a Bekhams ou Ronaldos e afins, somos neste momento confrontados com a dura realidade do excesso de peso, de pelo, da falta de um dente, de um sorriso menos branco, de um cabelo ao natural ou da falta dele, da roupa de marca x, p t ou ó, da sapatonga, do perfume certo no lugar certo, da forma de estar, de não poder gostar de jogos e desportos tradicionais como o futebol e bilhar e ter que admirar golfe ou poker, de ter o carro da moda como se de uma jóia se tratasse, de Spas, lamas, massagens, ginásticas, de estar sempre impec num mundo de impecs.
O problema é que vejo as senhoras que recusam ser fantoches a admirar este novo mundo em que o homem passa, também ele, a ser um boneco insuflado e falso.
Por um lado há aquelas que desdenham o David ou o Cristiano, pois por muito bons que sejam, são uns cretinos da pior espécie. Por outro somos confrontados pela grande verdade: se mesmo eles que são das barracas conseguem, porque é que tu, ó cota acabado e sisudo, não consegues pelo menos abater essa barriga? Olha que estás aqui estás a ser trocado por um modelo mais novo.
oitenta e oito
Li apenas as primeiras frases dos casos portugueses que escancaram as suas desilusões e fiquei cheio de medo. Tive a minha quota parte de namoricos e aventuras, vivências e exposições e comecei a pensar em algumas, exactamente nas que não terminaram bem. Se bem que me ache um tipo porreiro que cometeu certamente alguns erros, tenho a consciência limpa em 98% dos casos. Vá lá, 95%. Ok, 90%.
Desde tenra idade que fui namoradeiro, tinha boa figura e um sorriso bonito que aliado aos profundos olhos negros, convencia muita rapariga que poderia ser o tal. Confesso que tudo fiz para que se apaixonassem mas fugia delas a sete pés quando tal acontecia. Nesse aspecto serei um sacana? Depois defendia-me com duas situações: a primeira era fazer tudo por tudo para que elas acabassem o namorico, não eu, fingindo-me distante, desinteressado e não tão perfeito quanto um principe o é. A segunda era tentar depois uma ou duas razões para que o desenlace negativo fizesse sentido. Consegui algumas vezes esses intentos e noutras falhei rotundamente.
Já me chamaram muitos nomes feios por ter sido assim, mas na verdade só não falo com duas ou três pessoas que passaram pela minha vida, o que não me parece assim tão mau.
Contudo a experiência da vida mostra-me que não fui tão perfeito quanto pensava e que fiz sofrer algumas pessoas que não o mereciam. A elas fica aqui um pequenito mas sentido pedido de desculpas e que estou aqui para qualquer esclarecimento adicional... nem que seja apenas para não fazer parte desse site de falhanços.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
oitenta e sete
Acho que é o primeiro video que publico neste espaço, mas quando o vi no YT senti um calafrio na espinha, daqueles bons quase arrepiantes de frio mas que nos dão uma boa sensação.
Não sou fã da Oprah, embora a ache um boneco audiovisual interessante e muito menos fã dos Black Eyed Peas, embora lhes reconheça um ritmo contagiante e belos videoclips para imitar a coreografia. Contudo, ambos reuniram mais de 20.000 fãs que estudaram toda uma complicada dança ritmada com um dos temas menos hip-hop do grupo, ou seja mais hip hip e hop hop.
O resultado é fantástico, quase surreal. Ver um mar de gente a adorar estar ali, a "botar cá p'ra fora" os maus fígados, a rir, sorrir, gritar e cantar em uníssono é bonito.
A música, qualquer que seja, tem este único dom: o de conseguir juntar credos e raças, velhos e novos, políticos e apolíticos, dançarinos e pezudos.
Vale a pena rever.
oitenta e seis
Existe uma enorme diferença.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
oitenta e cinco
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
oitenta e quatro
Adoro jardins, a melodia do vento a passar por entre as folhas. Se calhar gosto é do vento num jardim e aproveitar as sombras aqui e ali. Ou então gosto é de sombras, quanto mais frescas melhor, pois não gosto e não me dou bem com calor. Não sei de onde vem esta minha aversão ao calor mas qualquer coisita acima dos 22, 23 graus já me incomoda. Não é que goste de andar cheio de roupa pois prefiro uma t-shirt, calças leves e um par de ténis, mas tal como tenho calor acima da temperatura mencionada também só sinto frio abaixo dos 10 graus. Ou seja, sou um fulano equilibrado.
É isso. Sou equilibrado.
domingo, 30 de agosto de 2009
oitenta e três
Após longos anos descobri a adjectivação ideal para dois tipos de gente que abomino e de quem tento, muitas vezes com esforço inglório, afastar-me. São as LF e as LS. Curioso como olho agora para quatro simples letras, uma delas até repetida, e percebo quanto demorei a encontrá-las. Mas acho que valeu bem a pena e vamos a isso!
As LF são as Lagostas Fingidas, gentalha que se queixa de tudo e mais alguma coisa como a gripe, a crise, o ponto de cruz, o souflé que não subiu, dos litros que o carro gasta, do preço sobrevalorizado do espumante champanhês, da disparidade de valor de uma salada de rúcula do Pingo para o Apolónia, do povo que está na praia que há vinte e tal anos era sua pertença, do sol que está forte, da nuvem que se coloca mesmo defronte do astro-rei, dos noticiários que só passam tragédias, da falta de elementos trágicos durante o Verão, da celulite das socialites, dos cremes que essas recebem de borla dos seus amigos cabeleireiros um bocado larilas, dos gays que estão ali mesmo à frente e dos corpos esbeltos que muscularmente exibem. As LF estão sempre descontentes mas há uma enorme diferença entre a LFH e a LFM, simples e directos sub-grupos. O Homem é mais desgraçadinho pois fala muito sobre as tragédias do emprego que ainda tem, sabe-se lá porquê. A Mulher vive apenas desgraçadamente exigindo ao seu H mais empenho, objectivos, capacidade de liderança e de trabalhar com espirito de equipa porque para o ano que vem aí mesmo já ao virar da esquina, precisa de uma temporada de liftings e upthings, solário e massagens, tai chi e tuchi e taiquemori para fazer boa figura no tchin-tchin… que só viverá com as amigas da mesma laia.
As LS são as Lagostas Suadas, gentalha que só se queixa do enorme esforço que dispende diária, mensal e anualmente para poder pagar todas as contas dos seus 2,3 filhos, 1,4 imóveis, 2.0 veículos automóveis ou outros, 12+2 mensalidades x X (veículos, imóveis, escolas, atls, ginásios, seguros, time-sharings e ….. – colocar o que falta pois não tenho paciência-), que o governo não presta mas vale mais que uma alternativa que não presta, que vota Isaltino, Felgueiras e demais mesmo sendo cúmplices (e vitimas) dos seus crimes, que acha graça às namoradas do CR7/9 mas repudia a falta de formosura dos elementos femininos da sua família, que o Beemer do vizinho tem um facelift mais actual que o seu modelo, que o pão cozido depois de congelado é mesmo muito mau mas já não há outro e que, raios partam isto tudo, a crise não há meio nem fim.
Agora que vos expliquei o que são LFs e LSs e as razões que me obrigam a fugir a sete pés, perguntar-me-ão se eu próprio não penso algumas destas coisas. E sim, claro que sim! Sou português, eterno insatisfeito, sebastiasnista e por conseguinte, atolado em tudo o que não tem importância alguma.
Como disse o outro e reforçando, se me é permitido, com o meu toquezito, “bolas pá, façamos o favor de ser felizes cum catano!Arrrrrrrrrrrrrrrrrreeeeeeeeeeeee!”.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
oitenta e dois
Sempre gostei do faz de conta. É, aliás, uma gentil e responsável arte quando se conheceu a sorte de ter sido bem educado pelos educandos e pela vida. Quando se tem dinâmica e reflexos rápidos, demonstra-se alguma lentidão para que os que nos acompanham não fiquem prejudicados. Quando se tem predicados e inteligência, evita-se falar de assuntos que mereceram longo estudo e interesse. Quando se tem dinheiro faz-se com que ele seja generoso e nunca obrigue outrém a fazer ginástica. E quando se tem hipótese, defendê-la como se nada fosse é apenas um verbo durante o dia.
Depois há o contrário: quando se tem alegria abunda-se-la no espaço, quando surge a tristeza afugentamo-la solitariamente e quando não se tem paciência apenas terminamos a situação mais cedo, sempre com um sorriso e sempre com um “até amanhã”.
A vida é deste modo tão mais fácil. E é por isso que se tem amigos com 30 anos de cumplicidades e recebemos os novos de braços abertos e sorriso galhardo.
Não é preciso ser valente nesta vida. Apenas ser humano é quanto basta. E isso devo-o totalmente aos meus pais e à sorte que foi ter sido mimado na vida por pessoas que conheceram a mesma fortuna que eu.
Um sorriso quanto baste, basta.
domingo, 23 de agosto de 2009
oitenta e um
Dias atrás aconteceu uma dessas situações em que, passada uma década, olho a derrota de alguém que me derrotou anteriormente. Foi uma conversa olhos nos olhos, digna, séria e emotiva. A outra parte sabe que a sua carreira obrigou ao cancelamento da minha pois só havia um lugar no poleiro. Nunca falámos sobre isso, nunca foi preciso. E nesta altura menos boa, foi comigo que gritou o mesmo que eu já tinha gritado, que amaldiçoou os maus ventos gerais, injuriou uns quantos deuses e suspirou umas cem vezes.
No fim não me senti satisfeito nem justiçado. Até sofri uma pequena ponta de tristeza que rapidamente tentei afastar. Não é bonito sofrer uma derrota. Mas também não é bonito assistir à derrota de outrém.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
oitenta
Antigamente era só vantagens. Barato, não pesava nem no bolso nem na mochila e não era preciso grande ginástica a não ser para correr umas dezenas de metros o que até obrigava os jovens a algum esforço físico salutar. Mas até as coisas mais simples da vida mudam. Se antigamente só tinhamos que aprender a técnica da fileira única (conjunto de campainhas reunido num lado da porta de entrada) ou a do Acordeon (campainhas divididas por dois paineis em ambos os lados da porta de entrada), hoje é preciso todo um curso bem superior do Técnico, Restart ou Etic para conseguir tornear a dimensão dos botões, sempre diferentes de prédio para prédio, a pressão do toque, ultrapassar por vezes a maior distância entre eles e esconder a cara com um collant, balão ou capuz para evitar ser apanhado pela câmara a preto e branco ou a cores.
Mas mesmo isso é tarefa fácil se comparado com a nova modalidade: a obrigação de ter que ler atentamente todo um manual de instruções com letras pequenitas e pouco iluminadas, para conseguir saber o código alfanumérico que tocará no andar pretendido após um Enter.
Isto sim, poderá ser o golpe final numa das maiores tradições com que os petizes se entretêm desde os tempos dos nossos avôs. Depois não se queixem da obesidade infantil.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
setenta e nove
Se contarmos 80 anos como uma vida, ter 40 é estar na meia idade. Ora em Portugal isso é quase sinónimo, caso nos sintamos obrigados ou com vontade de recomeçar (tão simplesmente e repito, recomeçar), do final da vida útil. É-se um velho, fora da realidade, sem conhecimentos desse novo mundo da web e redes sociais. É-se gasto, out, ultrapassado. Está-se caduco, não maduro. Cansado, não sereno. Louco, não perspicaz. Sonhador, não aventureiro.
Tenho pensado sobre a meia idade. Ao fim e ao cabo, com 40 anos quero fazer muito mais coisas do que fiz até agora. Chamam-me nomes e gozam comigo pois deveria era estar a pensar na reforma para depois poder fazer as coisas que gosto e/ou viajar. Ora tive, talvez, sorte na vida e consegui fazer muita coisa que sempre gostei e até viajei um bocadinho do mundo. Portanto, não é por aí e continuo a querer fazer mais coisas do que fiz até agora. E antes de ouvir outra resposta ou aconselhamento sobre esta grande imbecilidade, construi uma resposta simples e bastante concreta:
Ora se os meus primeiros 15 anos foram de aprendizagem básica, depois mais dez de aprendizagem teórica, depois mais cinco de aprendizagem prática, na verdade só comecei a viver o eu aos trinta anos. Ou seja e por esse ponto de vista, a meia idade profissional é aos 50 (25 de aprendizagem básica + teórica) e terei mais 25, no mínimo, para fazer as tais coisas que quero ainda tentar e conseguir. Ora 50 para 80, noves fora nada, ainda dá uns belos 30 para o antes e o depois, ou não?
Nunca fui bom a matemática, mas bolas... é que nem de uma equação se trata.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
setenta e oito
Ai o que dava por ser um desses tais misteriosos, fechado numa capa de concentração e interesse, ávido por ler nas retinas o que vai na mente, esperar a altura certa para proferir uma qualquer concordância ou evitar iniciar uma discussão politica, tão em voga neste periodo pré-eleitoral.
Mas sou um livro aberto e nem utilizo aquela máxima "quem gosta gosta, quem não gosta..." pois por muito que a defenda, não a assino assim tão por baixo. Talvez de lado e com um xis para não ser apanhado num tempo próximo.
Mas que chatice...
domingo, 16 de agosto de 2009
setenta e sete
Se calhar quando tiverem 78 vão ler o que sempre preferi - Astérix, Michel Vaillant, Spirou e Fantásio e Lucky Luke só para citar alguns dessa época de ávidas leituras - e com muita muita sorte conseguir folhear os dois títulos do Hum-pá-pá, o pele vermelha.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
setenta e seis
O verdadeiro herói dos tempos modernos - e com acesso à internet - é o eremita 2.0*, alguém que tenta a todo o custo auto-excluir-se das teias das redes sociais, dos blogs, chats, etc. Alguém que foge a sete pés de um mundo global e à distância de um click (para quem tem mac) ou dois (para quem tem PC) e se recusa a fazer parte de todo esse clã universal.
Encaro essas pessoas - e conheço algumas - como indivíduos um tanto ou quanto sonhadores pois a maior parte tem, para além do IP, um telemóvel e outros gadgets sofisticados. Ou teimosos, pois utilizam o bom que a tecnologia oferece mas recusam as maleitas esféricas de uma liberdade que já não existe.
O grande problema é que também eles sabem que num futuro muito próximo irão ter filhos chipados (com a desculpa de monitorizar o estado de saúde e precaver futuras e graves maleitas), automóveis eléctricos e verdes que garantem um constante blip num ecrã com radar, um cartão único de cidadania já com o que falta no de hoje (e que defende a praticabilidade escondendo o cruzamento de todos os dados e movimentos) e tantos mais truques mascarados de evolução.
Hoje olha-se de lado para o dono que larga o seu cão da trela. Amanhã olhar-se-á da mesma forma para o pai que desliga o chip electrónico do pescoço do seu filho.
*gostei de ter inventado isto.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
setenta e cinco
É interessante pensarmos no factor "deus" mas a conversa tentou outra estrada devido às cada vez mais constantes e destruidoras modificações climáticas.
É assustador olhar as imagens de Taiwan e relembrar o tsunami. É complicado assistir ao isolamento de milhões de chineses e queixarmo-nos do calor que suportamos. Tanto lá como cá, com as devidas importâncias, o tempo muda. O mundo muda. E o petróleo continua o seu império, as modernas escravaturas gerem cada vez maiores lucros e o poder não muda de mãos.
Terá que vir uma verdadeira enxurrada na forma de degelo para que os sobreviventes tentem a mudança de comportamentos.
domingo, 9 de agosto de 2009
setenta e quatro
Seguem-se as homenagens, as palavras, as entrevistas, os especiais, a gula e a chico-esperteza.
Enquanto o Raúl Solnado esteve vivo, lutou como poucos pela sua profissão, ajudou muita gente, conseguiu por milagre fazer a Casa do Artista, era amigo do seu amigo e amigo de quem mostrava que até queria ser amigo. Enquanto esteve vivo sofreu a bom sofrer para conseguir dignidade e atenção para os autores e actores. Enquanto vivo lutou contra o abandono de teatros, pela melhoria das condições de trabalho e tantas mais coisas. Poucos lhe ligaram e ajudaram, principalmente aqueles que têm o poder nas mãos. Agora são esses que estão na primeira fila para dizer um último adeus. É a triste sina dos portugueses que são diferentes dos engravatados. Têm que morrer para serem levados a sério.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
setenta e três
Os problemas existem mais nas entradas. Ele não compreende como se pode comer orelha de porco (não sabia o que era até lho explicar), salada de búzios, não conseguiu abrir um percebe e abominou o exagero de gordura nas nossas excelentes azeitonas quando reforçadas com azeite.
Hoje vamos tentar uns caracóis e levo camara de filmar.
setenta e dois
Tenho reparado nos tiros no pé da Manuela. Sei que existe uma hidden agenda para afastar o que será o próximo primeiro ministro daqui a dois anos e alguns meses.
Tenho reparado no discurso embevecido do Paulo. É contido e educado, coisa que não lhe dará mais votos num país de gente à nora.
Tenho reparado no discurso dos representantes do PS, tão contentes com tudo o que se está a passar mesmo estando desesperados com o que vai acontecer.
Não tenho reparado no discurso do PCP.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
setenta e um
Todo este queixume esconde uma realidade. O BA há muito que perdeu os noctívagos que o fizeram, os empresários com gosto pela cultura (vá lá, ainda sobram dois ou três) e a atmosfera da famosa "movida" que fez Lisboa apetecível durante os 80 e parte dos 90.
Mudam-se os tempos e as vontades, mas com o que se fez e aprendeu poder-se-ia ter aproveitado uma vantagem única e reforçar este bairro com serviços de apoio decentes, uma atenção máxima ao conforto de quem nele reside e aumentar a qualidade geral para quem o visita, só para citar algumas forças.
Mas não. Deixou-se andar e estragar. A falta de respeito pela propriedade alheia (que é a de todos nós) só há pouco tempo conheceu uma pseudo-solução. Admito que era um desses jovens que frequentou o bairro nos seus tempos áureos e que até fazia parte do seu rebanho e foi com uma extrema vergonha, tristeza e raiva que, aquando a última vez que o visitei, descobri uma nova Beirute, um bairro em estado de sitio, os grafities desde o chão até ao ponto mais alto possível, a sujidade, o caos.
Nunca mais regressei e por isso sinto a tal coisa que se chama saudade. Não do local mas de tudo o que deu a quem o amou.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
setenta
Como eu outros amigos o fizeram e em poucos anos subimos aos cargos mais desejados. Gostavamos de discutir esta nossa política em restaurantes vazios de barulho e com serviço mais esmerado, embalados pela curva ascendente e mais-valias resultantes.
Passaram alguns anos e juntámo-nos novamente esta semana quando percebemos que mais uma vez seríamos nós a ficar na capital. Em anos de vacas magras e sem empregadores, discutimos as tristezas das nossas empresas pessoais e sociais, o fundo do túnel com a lâmpada fundida, a viragem à direita do próximo governo, a luta infantil pela CML, as futuras apostas em mercados estrangeiros como opção não de mercado mas de vida.
Dos seis ex-rapazolas garbosos e donos do mundo, estavam cinco homens tristonhos e cansados. Um já foi para Angola, dois vão rumar também para África e outro para o norte europeu. Os dois que restam estão demasiado agarrados a um ex-luxo que custa muito suor e insónias.
Aqui não se vive, sobrevive-se e não sei porquê, tenho a sensação que estes dois foram pensar muito bem sobre o futuro próximo para as suas vidas e não me admiraria que também eles optem pela emigração.
É assim que Portugal trata toda uma geração que apostou forte no seu país para agora estar com a corda na garganta. E é assim que vai perder, talvez, a última geração que ainda teve coragem e determinação para empreender um futuro.
Mesmo com horas extraordinárias sem serem pagas.