domingo, 31 de outubro de 2010

A casa dos gordos que escondem magros segredos



Confesso, e porque tenho uns quilos a mais, dou por mim a ver os episódios dessa telenovela desagradável à vista que é o “The Biggest Looser”. Talvez seja para me sentir melhor na minha pele, pois não sou assim tão vasto, ou para tentar auto-convencer-me que preciso de dieta e ginástica afim de garantir resultados semelhantes.
Estes participantes escondem um segredo: é que odeiam ser gordos, por muito que sejam simpáticos e bem dispostos e que mimem os adversários com profundas declarações de amor, aquando a expulsão de um deles.
Num outro continente, está a decorrer uma telenovela cujos participantes também escondem segredos. Intitulada “A casa dos segredos”, estes são em tudo diferentes dos anteriores, pois em vez de exibirem banha, mostram músculos e tatuagens.
Nada podia ser tão diferente, mas os dois programas/concursos têm um factor comum: todos os intervenientes surgem em trajes menores que exibem a maior parte possível de pele e carne. Mas as coincidências não se ficam por aqui. Em ambos os shows televisivos, a carne que se nos apresenta é ...para canhão.
Os segredos, as manhas, as vigarices e os esquemas, fazem parte dos dois jogos, só que chamam-lhe “estratégia”.
Portanto, malta semi-nua, gorda ou musculada, são os novos estrategas ao Serão, que nos ensinam golpes baixos, sujos, mesquinhos e traiçoeiros, tudo em busca de um prémio monetário na precisa altura em que o dinheiro não abunda em lado algum.
Podemos olhar para os programas e decidir que um é menos mau que o outro. Eu já decidi! Perdi uns 15 minutos a assistir a vários segmentos da casa que esconde segredos, mas continuo a ver, quando me lembro, o programa em que se filma o esforço físico e psicológico. A razão é simples: é que enquanto estes portugueses farão sempre parte da escória e mete nojo da nação, os americanos vão deixar de sê-lo, pois passarão de sapos a príncipes e princesas. 
E, convenhamos, sabemos bem o que chamar aos intervenientes do programa da Júlia, e nunca será um epíteto nobre.

sábado, 30 de outubro de 2010

Acordar um acordo acordado pelo desacordo


Há pessoas que concordam e outras que acordam.
As concordantes são, geralmente, as que mais discordam de tudo o que não seja a sua opinião, vontade ou objectivo. As que acordam são as que estão, muitas e demasiadas vezes, adormecidas. No caso das primeiras, chegar a uma concordância implica cedência. Já para as segundas, o acordar dá-se, invariavelmente, tarde. E nem a cafeína ajuda.
Enquanto que o primeiro grupo se desfaz em acusações, avanços, recuos, mudanças e assinaturas, o segundo mantém-se mudo, quedo e só quer mesmo, na maior parte dos casos, voltar a adormecer.
O mundo seria mais justo se todos concordassem e chegassem a conclusões satisfatórias e positivas. Tenho a certeza que, se tal acontecesse, os adormecidos olhariam o novo dia sem ramelas, mas com vigor e vontade, destreza e novas capacidades.
O objectivo pode ser geral, mas parte sempre de uma noção particular. Se calhar, já é tarde para acordar. Mesmo depois de alguns concordarem que esse não é o melhor estado para se sobreviver. Mas de estado em ...estado, todos, sem excepção, vão adormecendo quem estava acordado porque, e sejamos sinceros, nenhum discorda que um outro, que luta contra a sonolência, lhe pode ser nefasto.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O GPS esconde um director de campanha política




Tenho para mim que o GPS, esse aparelhómetro que ajuda pessoas como eu, eterno alfacinha que se perde quando chega à Amadora ou tem de ir a reuniões na Quinta da Fonte e think tanks similares, é um instrumento politico que nos apela ao sentido e obrigação cívica de escolher um dos lados do espectro político-partidário nacional.
Durante uma viagem, somos constantemente agredidos, por uma voz masculina ou feminina, para virar à esquerda ou à direita. Podemos seguir em frente durante um bom bocado, mas inevitavelmente, seremos obrigados a escolher um lado daí a uns centenas de metros ou quilómetros.
Se já não é fácil guiar num país que tem os maiores pilotos do mundo de estrada, para já não falar dos taxistas e de ambulâncias desgovernadas e, nunca esquecendo, peões kamikaze, pombos adormecidos e cães e gatos desorientados, ter uma voz alarmista que nos obriga a virar na próxima saída a 200 metros para um dos lados sem ter a noção do perigo e risco que essa manobra implica, é no mínimo, um completo e profundo exame às nossas capacidades psico-motoras.
Naturalmente, o software português que vem de origem nos GPS, conta com a nossa arte do desenrascanço. E este mesmo software foi a escolha de outros países, como a Turquia, Índia, Grécia e partes da Itália, quando perceberam que os condutores aumentam o volume do auto-rádio para abafar as ordens da maquineta, pois é uma vergonha para qualquer macho receber instruções e direcções, mas que, mesmo assim, ainda os ajuda muito de vez em quando.
Se fizermos o paralelismo para com os governantes, também o português médio escolhe a TSF para o ajudar a passar o tempo perdido nas filas de trânsito. Vai, assim, ouvindo as notícias sobre mais medidas impopulares e as repetidas entrevistas aos candidatos a qualquer cargo público, que se misturam com as tais ordens de viragem à esquerda ou direita. Podia ser confuso, mas não é. O português é teimoso e sabe a direcção que deve tomar, independentemente se for ou não a melhor para o resto dos condutores, passageiros ou restante população. E mesmo se a voz repetir que tem de voltar para trás logo que possível, ele está-se borrifando. Só lhe interessa o seu percurso e a sua noção do que é verdade. Que se dane se é melhor virar para um dos lados para chegar mais depressa a uma solução, leia-se destino. Se ele decidiu desde pequenino que vai virar à esquerda, virará sempre à esquerda, mesmo que o GPS lhe diga e repita que pela direita é o caminho mais acertado. O problema são as rotundas...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Manual de etiqueta em como ser-se bom vizinho



Vizinhos barulhentos...
Eu tenho.
São vários dentro de uma casa que de pequena nada tem.
Poderiam escolher uma das múltiplas divisões para gritarem uns com os outros. Mas não.
Escolheram a janela mais próxima da minha varanda para sala de estar, onde reuniram todos os apetrechos modernos: Televisor, Playstation e Singbox, Computador e colunas, etc.
Todos os dias, pelas 18h, dá-se início a um festival rocambolesco e histérico. Geralmente dura duas horas, até a telenovela começar, ou outro qualquer programa de teor mais popular.
Esta família conta com a sogra, o marido escanzelado, a mulher e mãe que deve ter sido catita antes de ter casado e parido, e três fedelhos.
São os fedelhos que fazem barulho. O mais velho, que saiu à avó, sugere não ter a totalidade da capacidade intelectual. Mas quando oiço as conversas no messenger, ao máximo que as colunas suportam, percebo que é somente muito parvo. Este é quem mais grita. Sobre tudo, futebol, jogos de computador, porque não gosta da comida, não gosta da escola, não gosta dos professores, enfim. Só gosta, e muito, do Sport Lisboa e Benfica.  Aliás, o momento glorioso da sua vidinha é um jogo transmitido pela Tv. Aí, pasme-se, faz-se um silêncio sepulcral naquela habitação.
No meio está outro fedelho. Saiu ao pai, de tão franzino e irritadiço. Já está de mal com a vida e ainda não concluiu a primeira década. É este que absorve mais de metade dos watts difundidos pelo mano. E ficar surdo não lhe vai servir de nada, pois também deverá ficar desfigurado, já que, de vez em quando, lhe é atirada qualquer coisa dura. E algumas fazem um som surdo, nada quebradiço como um vidro no chão, seguido pela choradeira que abafa qualquer apito de comboio ou alarme para evacuação de uma fábrica.
Os diálogos entre os manos são incompreensíveis. Comunicam por gritos, uns mais prolongados (como a raiva e o choro), outros mais incisivos (ordens, calão).
Nunca, mas mesmo nunca, lhes ouvi uma conversa.
Os pais só encontram forças para tentar calá-los, quando se apercebem da minha presença na varanda, fumando um cigarro ou tentando apreciar o meu rio. Mas tenho de estar lá fora! Convenhamos que, quando chove ou faz frio, não é agradável e eles também não olham para fora, portanto, a gritaria continua.
No fim da tabela está a coitada da catraia. Saiu à mãe. Não lhe oiço a voz nem lhe vejo o tímido sorriso quando me encontra na rua. Mas, porque há sempre um mas, faz-se ouvir a alto e bom som das 18h às 19h, através do sistema de karaoke e das colunas acima referidas, que conseguem, inacreditavelmente, piorar o som das músicas da Floribela, distorcidas nos graves e médios. A júnior canta com toda a força. Já conhece as letras de fio a pavio, gosta de repetir os temas e não parece, nem ninguém da alcateia, importar-se com o inaudível som da distorção.
Todos nós temos vizinhos.
E estes têm um rafeiro de porte médio.
E o que é que os cães fazem? Imitam os donos. É ou não é?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A extraordinária arte da escolha no acto da compra.



É cada vez mais complicado viver neste mundo digitalmente moderno.
Se ainda ontem telefonávamos uns para os outros através de um aparelho pesado, preto e com 10 buracos numa circunferência móvel, hoje...

- Boa tarde, quero comprar um telemóvel!
- Muito bem, caro cliente. Tem alguma necessidade específica?
- Sim, telefonar...
- Posso indicar-lhe um modelo com sistema operativo Android?
- Pode.
- Ora aqui está um, mas vai na versão 2.1. A 2.2 está mesmo a saír.
- E por aí adiante, não é?
- Sim. Pode também optar pelo sistema proprietário da Blackberry.
- Mhhhh...
- Ou então os Nokia. Eles usam um sistema também próprio, o Symbian.
- Não gosto de Nokias.
- Pode então esperar um mês, pois vão ser lançados terminais com o Windows 7?
- Tive um com Windows 6.1 e não gostei.
- Pode sempre escolher um iPhone, é fantástico e totalmente diferente.
- Não pago 1000 euros por um telemóvel....
- Bom, tem todos os outros disponíveis, com interfaces de cada marca, uns touch, outros com teclado qwerty ou muitos outros mais simples. Temos também terminais com dois cartões sim, uns musicais, outros com grandes aptidões fotográficas...
- Olhe, vou pensar. Obrigado.

Fora da loja, retirei o actual do bolso. Olhei-o bem. Ainda é bonito, tem um ano. Possui leitor de música, câmara fotográfica, AGPS, Wifi, Bluetooth...
Mas porque carga de água entrei no estabelecimento?

A partir de hoje, nova vida no mesmo blogue.

É verdade.
Não mudei de vida (ainda) mas vou mudar este blogue, simplesmente alargando-o a outros interesses. Vai passar a ser uma completa confusão.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Convite

Venho propôr-lhes para visitarem e assinarem um blog que iniciei ontem, onde vou publicar textos que disse na rádio ou editei por aqui e ali.

Sei que não tenho vindo aqui, mas o tempo é algo que se me escapa por entre os polegares.
:)

Um obrigado e até já.

http://ocorvodelx.blogspot.com

quinta-feira, 22 de abril de 2010

cento e trinta e cinco

Um dia como o de ontem, em que obtive várias respostas de interesse para um projecto já com algum tempo e que, por não ser populista, conhece enormes dificuldades em vingar, fez-me abrir um sorriso franco e largo.
Pode não dar em nada, mas esses interesses vários demonstram, apenas e só, que pelo menos o que fiz tem alguma qualidade. É um bónus, uma mais valia. É aquele empurrão que dá mais um bocadito de força para continuar ou recomeçar melhorando.
E pensei cá para mim: "se chegar a bom porto, junta-se aos impossíveis que já fiz". Se esse dia chegar, olharei para o meu passado com mais orgulho e uma enorme ternura. E conquistarei a total certeza com que poderei, finalmente, aconselhar com mais alento quem me procura porque, por muito que o sonho seja alto, às vezes consegue-se lá chegar.

sábado, 20 de março de 2010

cento e trinta e um

Ontem tive que me vestir como as regras impõem, ou seja, socialmente correcto com calças cujo tecido condiz com o casaco. Mesmo assim, recusei a gravata o que é muito moderno e tal. Chegado ao local do convívio, todos me olharam e comentaram "estás tão bem vestido porque é que não te arranjas assim todos os dias?". Ora bolas, será que é difícil as pessoas perceberem que uns jeans e uma camisola são bem mais confortáveis que um fato? E se eu escolhi uma vida "artística", alguma da percentagem teve exactamente a ver com a possibilidade de me vestir como bem quero e não como me obrigariam por contrato ou dress code. Um áparte: o que me rio quando vejo as pessoas sorridentes à sexta-feira por causa da hipótese "casual"...
Mas escrevo isto porque ontem ouvi uma conversa entre alguns presentes, talvez por eu estar de fato, talvez porque pensavam que eu não estava a ouvir. A questão tinha a ver com o bom aspecto de um homem vestido com rigor ao invés de um homem que, como eu, prefere estar mais à vontade e, a meu ver, bem mais catita, moderno e original.
Fiquei atordoado. Então não é que as pessoas pensam que um homem de fato gasta mais dinheiro em roupa que um homem casual? Mas será que é possível estarem assim tão enganadas? Um fato é um fato, pode custar entre 100 a 500 euro. Depois uns sapatos foleiros pretos e de verniz, uma gravata, uma camisa branca e, presumo, umas cuecas e um par de meias. Ora tudo junto e sem poupar muito faz-se por 300 euro. Agora façam as contas a umas levi's (100€), uns Merrell (120€), boxers e meias (50€), cinto de cabedal (50€), uma t-shirt (20€), um casaco leve (150€) e etc. Já é bem mais oneroso e sem entrar em grandes marcas ou luxos. Mas agora é que são elas: um homem usa o mesmo fato uma semana inteira e ninguém aponta isso. Mas um tipo como eu, se surgir dois dias seguidos com o mesmo calçado ou casaco, é olhado com desdém. Portanto a roupa dita casual sai 700% mais cara que um fato que "fica e veste" bem.
Concluindo, o que parece não é.
Certo?

sexta-feira, 12 de março de 2010

Cento e trinta

Se houve alturas em que pensei que a minha já não tão jovem idade me atiraria à pobreza e solidão quando as minhas profissões fossem tomadas pelas castas mais jovens, hoje percebo que não é nem vai ser assim.
Tenho tido a sorte de acompanhar a vida de malta nova numa base quase diária, malta ainda no liceu e que vai ser o futuro deste nosso país e mundo. O que tenho visto e ouvido dá-me a noção que o país ainda vai precisar, e muito, das gentes da minha geração.
É extraordinário revisitar as palavras do meu pai e mãe quando eu estudava e tinha dúvidas numa qualquer matéria. A resposta era automática: "Filho, eu aprendi isso tudo e mais alguma coisa na 4ª classe, mas que raio de escola é a actual?" Ficava a olhar para eles sem perceber a necessidade de saber de cor todas as estações e apeadeiros dos Caminhos de Ferro, assim como todos os rios e afluentes lusitanos. Mas lá ia aprendendo alguma coisa, nem que fosse por obrigação, como saber na ponta da lingua os tipos de nuvens, a tabela periódica, os reis e seus feitos, os poetas e ficcionistas, e tantos etc.
Hoje olho para esta nova geração e não evito exclamar "Mas eu aprendi isso tudo e mais alguma coisa na 4ª classe, mas que raio de escola é a actual?"
Só que neste momento, a malta jovem nem ouve o que digo, pois está de phones na cabeça e a teclar sms. 

sábado, 16 de janeiro de 2010

cento e vinte seis

O poder e riqueza toldam até o mais puro dos justos. Não o neguemos. Quantos de nós perdemos o contacto com aquela gente que é nossa "amiga" quando estamos bem, mas que desaparece sem registo quando ficamos menos bem? Vamos fazer um teste, olhar para os nossos contactos no telemóvel e emails e ver quantos deles estão "desconectados" da nossa existência. Se calhar, mais de metade. Ou para quem não utiliza o SIM para tudo e mais alguma coisa, um pouco menos.
Confesso que tenho muitos, demasiados, contactos que não utilizo nem deverei vir a reutilizar. Então porque pura e simplesmente não os apago da memória, que está a abarrotar pelas costuras?
Por um lado penso que, quando regressar ao topo, já os tenho. Por outro penso, quando regressar ao topo, de que me interessa tê-los? Já mostraram bem o que valem. Mas na verdade na verdade e quando mudo de telemóvel (frequentemente), fico hesitante em carregar na tecla "apagar da memória?". Se escolho o Sim, fico um bocadito perturbado. Se escolho o Não, também.
Bolas, se sei que esta gente não vale nada, porque raio ainda me preocupo com a sua existência?
Sou mesmo tótó...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

cento e vinte e quatro

Hoje acordei com uma necessidade estranha de escrever cartas com a Montblanc que tenho ali parada, desejando tudo de bom a quem é bom. Cartas... que raio. A última vez que escrevi um longo texto à mão fiquei com ela toda dormente e dorida. Os ossos já não se adaptam à cerâmica do corpo de uma boa caneta, assim como a pressão exacta para desenhar os rabiscos que se transformam em palavras no papel, já não me é imediata e confortável.
Acordei também com uma grande vontade de não levar telemóvel para a rua mas sim um livro. E em vez de me encaixar no veículo automóvel, dei por mim a estudar a rede do metro que, confesso, me é estranha com tanta cor e estações de mudança das mesmas.
Antes de sair, olhei para os relógios que guardo na gaveta. Só um está com a hora certa e muitos sem pilha. Gosto muito de relógios e de canetas que são, no meu entender, as únicas jóias masculinas e vergasto-me por ter deixado de usá-las. O relógio deixou de ser uma necessidade já que o telemóvel, o tablier do carro, o auto-rádio e aqueles monumentos, perdão, mupis lisboetas com publiciade, horas e temperatura, estão sempre a apontar-nos a hora certa. Até o computador a mostra.
Estamos rodeados pelo tempo ao mesmo tempo que perdemos tempo a tentar viver neste tempo moderno que nos exclui de muitas coisas boas da vida, como por exemplo, escrever uma carta a um amigo, educar o aparo de uma caneta nova, encher o reservatório com tinta e olhar a coroa de uma peça intemporal que nos mostra o tempo real em que vivemos, pois ao fim e ao cabo, é esse o tempo que temos.

sábado, 2 de janeiro de 2010

cento e vinte e três

Finalmente vamos conseguir falar desta década como deve ser, ou seja, vamos dizer anos 10. Acabou-se, pelo menos para nós que (sobre)vivemos actualmente, a nomenclatura demasiado estranha dos zeros. Esta década foi até um zero à esquerda a diversos níveis, tanto pessoais como globais. Foi mesmo para esquecer como se tivesse nascido para ser limpa da nossa memória. Pelo menos, da minha vai.
Entrei no 10 de uma forma calma, limpa e serena. Nem muito álcool nem muita galhofada. Foi simples, correcta, elegante, com brindes sentidos e outros acompanhados por olhares cúmplices de quem sabe o que este ano vai mudar.
E ai se vai mudar...
Talvez devido a isso, e deixando passar este fim de semana ainda festivo, vou mudar algumas coisas no meu dia a dia. Já acordo mais cedo, decidi deixar de ter tv no quarto (que me acompanhava as insónias e me embalava em inglês), de 40 passei para 5 cigarros (e já vou no 2º dia sem grande tormenta), vou tentar deixar-me da companhia irlandesa com gelo e com ou sem um farrapo de água, decidi beber apenas uma bica em vez das 10 e aproveitar a teína do chá, resumindo, vou mudar mesmo algumas coisas importantes.
Pode ser que estas pequenitas modificações sensoriais antecipem o que vem aí. A ver vamos. Até estou contente. Tenho muitas confusões para resolver, mas estou contente. Bom, talvez este não seja o sentimento certo... Entusiasmado? Pode ser, é melhor.
Vou é torcer para que na segunda feira nada de mau aconteça. Quero evitar sobressaltos que me provoquem alterações e me obriguem a refugiar em café e cigarros. Por via das dúvidas, já retirei a tv da parede do quarto e não consigo recolocá-la no grampo sem ajuda. Portanto vou entrar na semana sem ninguém ao lado para evitar uma recaída.
Ai... sózinho, sem tv, desorientado pela falta da cafeína e sem cigarros porque pensava que aqueles últimos cinco chegavam?
Já me estou a passar... e ainda é Sábado.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

cento e vinte e dois

Vivi um encontro imediato do 3º grau, não com aliens, mas com uma familia alien bem tuga constituida por pai, mãe e filha menor. Pai agente da autoridade, mãe não sei bem o quê e filha estudante num ano qualquer. A conversa... mhhh.... antes discussão, iniciou-se com as hostilidades do costume: deus versus a não existência dele próprio, a liberdade de escolha e tal e coiso. Ao argumento do ovo e da galinha eu, confesso e vergasto-me, não soube responder. Tal incúria foi-me logo apontada como o exemplo máximo divino de que tudo foi criado por alguém e que só isso prova que deus existe. Perplexo, pois nunca pensei no big bang como clara e ovo, mantive-me hirto. Por uns momentos, poucos segundos, encostei o chefe de família bastante pensativo: a questão tinha a ver com a possibilidade de Eva ter nascido de Adão o que, a meu ver, faz dela filha dele com costela e tudo. O ADN comprovaria-o se o CSI existisse na altura mas como não vivemos num mundo perfeito ainda reforcei a situação com o facto não muito eclesiástico de que Adão e Eva teriam cometido adultério para povoar o mundo, visto serem os únicos habitantes deste planeta ao universo plantado.
O que fui fazer... impropérios, suores frios, desorientação espacial, tudo vi numa face que virou demoníaca. Isso fez com que lhe apontasse um demo interior o que, confesso, não foi a melhor continuação.
Depressa se passou para os gays e o seu casamento. De nada me serviu dizer-lhe frases feitas como "a minha liberdade acaba onde começa a de outrém" e anormalidades do género. A cada uma que proferia, pensando sempre nos exemplos históricos helénicos e românicos para citar os mais kitch, via crescer um ódio nazi que foi, inclusivé e não estou a brincar, reforçado com a frase "o Hitler é que tinha razão".
Sei que muitos teriam abandonado a questão e o local, mas... raios me partam, adoro (vivo) com uma situação destas, ou seja, a possibilidade de ser forcado à frente de um boi (única hipótese de olhar para uma tourada e pedindo-vos que a leiam como analogia) e chamar o bicho, a sua raiva e a sua... como se diz... investida.
E tal aconteceu!
Não vou repetir o que o homem disse em relação aos gays (a que juntou prostitutas, travestis, chulos e demais) pois até eu fiquei ruborizado. Mas uma coisa vos garanto: em pleno séc XXI e a poucos dias da sua segunda década, é-me complicado entender estas mentes tementes e prostradas a um deus católico e que admitem e proclamam a matança a todos os que não sejam, a seus olhos, normais.
Sem querer maçar-vos com mais pormenores, apenas exponho a última questão. Perguntei-lhe se, caso a sua filha menor sentisse que a sua vida, paixão e amor passasse pela homossexualidade, o que faria ele nessa situação. A resposta foi rápida e directa: "a minha filha??? NUNCA! E ISSO NÃO VAI ACONTECER! NUNCA! ERA O QUE FALTAVA!"


tadicho... falta-lhe bem mais do que um bocadinho assim.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

cento e vinte e um

Tentei, sem êxito, não me preocupar com prendas natalícias. E por variadíssimas razões. A primeira é o estado sofrível da conta bancária, a segunda o cada vez maior número de participantes, a terceira todo o folclore e carnaval consumista que ataca tudo e todos e a quarta a total falta de paciência para encarar filas de mau humor e correrias desenfreadas para conseguir a última embalagem de um qualquer produto apadrinhado pela tv. Nunca gostei do Natal que é, quanto a mim, uma obrigação. E como não gosto de ser obrigado a fazer o que não quero, fico totalmente confundido nesta quadra, ciente que os meus próximos desejam a minha presença, os meus não próximos desejam votos e os meus mais longínquos choram saudades por sms ou videoposts. Desde há uns anos a esta parte, encaro-o não como um frete com dia e hora marcada, mas com mais suavidade e até algum divertimento. Toda a minha vida foi passada em algumas casas e com famílias que não a minha, pela única razão que lá em casa o meu pai tinha outros afazeres na noite da consoada, como por exemplo, ganhar algum dinheiro extra que servisse para mimar os empregados com mais um reforço. A minha mãe, pouco ou nada religiosa, assumia a noite como mais uma do ano e só durante a manhã e almoço do dia 25 é que se cheiravam os presentes e os... ausentes. Celebrei assim muitos natais infantis e juvenis e, conforme a vida nos ensina, passei depois a frequentar casas de namoradas cujas famílias levavam e levam ao pormenor toda esta tradição. Na verdade, nunca me senti um outsider e é com grato prazer que recebo convites das ex-famílias que me têm em boa conta e me passaram a tratar por primo em vez de futuro-qualquer-coisa.
Mas este ano a situação é ainda mais difícil pois passei a ser outra vez um futuro-qualquer-coisa paralelamente a primo oficial e oficioso, sobrinho, padrinho e quejandos. Como, então, descalçar a bota?
Olhei em redor, pesquisei, wikidipei e finalmente percebi o que tantas botas de pai natal fazem penduradas nas lareiras ou paredes ou portas... são o calçado de muita gente que, tal como eu, não pode sub-dividir-se molecularmente.
De repente dei por mim a tentar comprar botas de pai natal em filas intermináveis de gente com mau humor e numa correria desenfreada até à prateleira do linear que vende estas vestes específicas.
Estou cansado...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

cento e vinte

Será que se pode considerar toda esta hipocrisia em relação ao casamento gay a nova luta entre os sexos? E a questão da adopção? E o repetitivo histerismo do clero e do seu rebanho? Porque é que as pessoas que não concordam falam e gritam "contra" como se, de facto, estivessem contra? O que é que elas sabem sobre união, amor, paixão, entrega e cumplicidade?

Tenho uma forma de estar na vida muito simples: a minha liberdade termina onde começa a de outrém. Bolas, não é assim tão difícil apreender este principio. Portanto, sou uma pessoa básica e evito entrar em discussões sobre a coisa jurídica que afecta os homosexuais e, pasme-se, os heterosexuais. Mas existe uma questão fracturante em tudo isto. Se formos a ver bem, os não gays e não casados são também olhados de lado. Na verdade, as uniões de facto são um... facto cada vez mais comum na moderna sociedade e não é por isso que têm os mesmos direitos de um casamento civil ou católico. Não o têm e muito menos aos olhos de alguns truques das entidades fiscalizadoras e fiscais.

Então porque não fazer vigílias, manifestações de não-casados-power ou orgulho-unidos-factualmente?
Iamos para a rua, despidos de preconceitos, alugávamos um daqueles camiões que trazem aparelhagem e fazíamos um escarcel medonho na Av. da Liberdade. Paravamos para uma bucha naquele tasco das bifanas defronte à estação de comboios e com o papo cheio entraríamos de rompante na Loja do Cidadão exigindo igualdade de cidadania em relação aos oficialmente casados.

Será que a Igreja exigiria um referendo? Que algumas pessoas tementes a um deus que não é de todos andassem pela rua a pedir assinaturas contra esta terrivel doença? Que a sociedade lusitana se dividisse em duas? Que os GOI surgissem com balas de borracha e canhões de água?

Ora se nós, que escolhemos viver em harmonia com alguém evitando o embuste da assinatura do papelinho, não andamos a fazer figuras a exigir isto e aquilo, porque é que muitos gays o fazem? E reparem, muitos... não todos. Porque é que eles também estão divididos em relação a esta noção?
Porque é que há alguns que levam isto a peito mesmo com o brinde envenenado da adopção e outros há que continuam a sua vidinha, tratando das coisas (heranças, negócios, partilhas) por meio de advogados, e vivem felizes e contentes?

Mas, afinal, qual é a importância de um casamento? A meu ver é apenas meio caminho para o divórcio.
Mas isso sou eu... e a minha opinião vale o que vale.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

cento e dezanove

Hoje esteve um dia glorioso numa Lisboa que cada vez sinto menos minha. Foi dia claro de céu azul e límpido, mas cujo frio obriga as pessoas a vestirem-se menos mal com sobretudos e cachecóis, luvas e chapéus. Gosto de sentir esta minha cidade, mesmo odiando o frenesim louco das compras natalícias que desesperam quem tenta circular de um lado para o outro.
Reparei que andam mais motociclos nas ruas, facto que se deve à nova lei das 125cc. É bom, finalmente, ver uma lei decente aprovada neste país, um dos últimos dois (com a Holanda) que teimava numa enorme parvoíce.
A poluição é menor, o estacionamento facilitado, poupa-se tempo e stress. Há é que ter mil e um cuidados pois sabemos bem como os automobilistas reagem quando estão parados numa fila. A vontade enorme de ver esse "sacana" que a ultrapassa estatelar-se no chão é coisa de bárbaro, gente manhosa e profundamente infeliz. Mas é isso que somos e não há como evitá-lo.
Mas o que mais me desorienta sobre as duas rodas são as constantes mini-reportagens tv sobre a capital (e resto do país) europeia que juntou os povos para discutir novas políticas para a saúde do planeta. Só se fala e mostram centenas de bicicletas e de ciclovias. Que maravilha... Que bom deve ser andar de bicicleta de um lado para o outro sabendo que se tem prioridade sobre os veículos motorizados. Que gente nobre essa, que se faz ao frio com um gorro e cachecol. Que felizes.
O Sócrates deve ter pensado que fazendo ciclovias em Lisboa iria oferecer esses sentimentos aos olissiponenses e conseguir, mais uma vez, mentir sobre a crise. Esqueceu-se foi de fazer estudos sobre as sete colinas, os buracos e demais problemas que impossibilitam total e drasticamente a utilização desses gentis veículos numa cidade inimiga dos mesmos. É que nem a pé se pode circular...
Mas pronto, lá vamos vendo as tais reportagens tv sobre essa gente maravilhosa e sorridente que pedala sem fim.

Só mais uma coisinha. A minha enteada mais velha está a passar um ano nesse grandioso país de gente de bem com a vida e com o mundo. Sabem o que lhe aconteceu no primeiro dia que lhe deram a bicla para andar de um lado para o outro?
Roubaram-na!

Deve ter sido um tuga. É que só pode. Os dinamarqueses não fazem coisas dessas. São perfeitos...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

cento e quinze

Gosto de ser naif. Adoro ter a liberdade de olhar uma pintura e dizer que gosto ou não gosto sem ser subjugado pelo conhecimento técnico e teórico. O mesmo se aplica aos vinhos: quando bebo um bom, é porque o é! Quero lá saber se é touriga nacional, se vem do Douro, se foi conseguido em cascos de carvalho ou se a cortiça é do Amorim. O mesmo se aplica à comida: tanto aprecio uma boa orelha de porco à coentrada como o mais delicioso bife tártaro. Desde que esteja bom, digesta-se com agrado.

Mas, por outro lado, admiro a originalidade de um Dali, a pujança de um Pollock, o realismo de um Renoir, a abstracção de um Rothko ou a loucura pop de um Basquiat. Prefiro um espectacular Glória (que é exportado na sua quase totalidade) à fama de um Barca Velha. Adoro degustar o que os melhores chefs apresentam, inspeccionando a arte da apresentação e a sua relação com o palato.

Quem sou eu afinal?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

cento e quatorze

Hoje é um dia muito especial e está a passar ao lado de milhões de utilizadores da internet: o site Mininova, muito apreciado pela comunidade P2P, pôs fim à distribuição de torrents, ou seja, filmes, séries, fotos, discos, documentários and so on and so on.
Logicamente, esta situação tem a ver com a perseguição dos vários governos contra este tipo de troca de ficheiros (a CEE prepara-se para aprovar uma nova lei anti-pirataria) e defende os tão famosos direitos de autor nas suas variadas formas e fórmulas.

Defende?

Na minha sincera opinião, não! Pelo contrário e passo a explicar.

Sendo também um autor publicado, o primeiro crime que existe contra os meus direitos vem através da própria editora quando faz milhares de discos a mais numa fábrica brasileira que coloca à venda no mundo inteiro sem dar cavaco a ninguém. Ou seja, nem eu sei quantos discos vendi e vendo. Nem eu nem a SPA.
O segundo problema é a própria SPA, um antro de gananciosos e ladrões que vivem à custa dos meus royalties e que têm o descaramento de oferecer "adiantamentos" milionários aos artistas do costume que são os que menos precisam deles. Esta sociedade tem esquemas tão bem montados que os antigos gestores, após terem sido demitidos por gestão danosa, ainda ganharam um recurso que a obriga a  pagar-lhes uma maquia de dinheiro digna de um prémio do euromilhões.
Depois vêm os direitos conexos, coisa juridicamente complicada, cujo pagamento é "esquecido" pelas entidades que utilizam a nossa imagem/nome/obra para se promoverem (tvs, rádios, revistas, etc).
O publishing é outra grande cantilena. São empresas que andam pelas SPAs de todo o mundo à caça do meu dinheirinho. Como é que um artista controla isto?
Finalmente, os armazéns de multimedia que revendem os cds às lojas (fora os esquemas e as compras directas às editoras), os distribuidores e as lojas que, todos juntos, conseguem vender um CD que custa dois euro a 15, 18 ou 20. Os artistas recebem uma mísera percentagem por cada CD à saída da fábrica, não ao preço da loja.

Ora com tudo isto é normal que quem faça música (ou outra arte que tenha suportes e esquemas de produção similares) não fique rico e que tenha nos concertos ao vivo o real ganho de sopa e pão.
Mas se não há disco, não há distribuição nem divulgação. Sem essas não há concertos. E pum!

Então porque é que, sendo artista, não concordo com o fecho de sites onde vou buscar de borla o que quero? Como é que defendo a ladroagem ao meu próprio bolso? Bom, convém dizer que pago principescamente o serviço net que assinei, portanto pago a alguém os royalties e demais direitos do que "saco" ou "baixo". Se a Meo/Zon/Clix/Sapo/etc não têm um acordo com a SPA, isso é um outro problema a resolver. E, sinceramente, o real!
A questão é que no ano passado comprei cerca de 100 cds dos 500 que ouvi. Se não tivesse ouvido não os tinha comprado, pois continuava a desconhecê-los e, convenhamos, pagar 18€ por um disco que não se sabe se é bom ou não é só para alguns. Este ano já comprei uns 40 dos 300 que ouvi.
Ou seja, devido à troca de ficheiros P2P comprei 140 cds em dois anos. E fiz outros comprarem-nos, pois teci elogios por mail, telefone ou facebook... façam as contas.

Como artista, o que me interessa é a divulgação e essa é feita através da net, pois as editoras e demais amigos não querem gastar dinheiro em promoção. Acho que é uma equação muito simples...

Existem outros problemas como, num país limítrofe e inculto como o português, sofrer o imenso azar de ter um gosto diferente da maioria. Ou seja, e mesmo que queira comprar o que procuro, não o encontro à venda nas lojas nacionais. Sou, portanto, obrigado a esforçar-me e ter um cartão de crédito e dar a ganhar o meu dinheiro às lojas internacionais.
Gosto muito de documentários, principalmente da BBC, e de outras divagações televisivas. Mas como aceder-lhes se os 100 canais de tv que pago nem sabem do que estou a falar?

Será que tenho que viver ignorante, tipo carneiro, e levar com o que os abutres, geralmente incultos que mandam nas estações televisivas e radiofónicas, gostam ou me querem impingir?

Desculpem mas não sou pimba. E tão pouco estúpido.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

cento e treze

Todos temos uma face oculta e conhecemos a oculta face de muita gente. Não neguem! Também temos uma hidden agenda, obscuros objectivos e muitos segredos. Também temos amigos com que falamos ao telefone sobre tudo e mais alguma coisa, desde as tragédias familiares às conspirações estatais. Também fazemos umas falcatruas de vem em quando e também já roubámos.
Vamos por partes.
Quem não tem um ex-amigo que provou não ser merecedor da nossa amizade após longos anos de convívio? E será que somos tão bonzinhos que nunca decepcionámos alguém? Isso é a face oculta.
Não gostaríamos de subir na escada social pretendendo aquele lugar de direcção que está tomado por outrém? Isso é a hidden agenda.
E ao conversar telefonicamente com amigos, não soltamos umas quantas alarvidades, desde dizer mal de beltrano ou combinar um esquema para ganhar mais algum? Isso pode ser escutado e geralmente é-o por gente que está ao lado.
Nunca fugimos ao fisco com esquemas simples mas que nos garantem ficar com alguns euro no bolso? Isso são falcatruas.
E, por último, quem de nós não roubou um carrinho ao amigo, um chupa, uma pastilha, um livro? Portanto, somos ladrões.

Isto tudo para dizer que, afinal, não somos assim tão diferentes desta gente de gama alta que está ameaçada de prisão. A única diferença é que eles roubam milhões e, por milagre, são sempre soltos. Nós não declaramos a mais valia de uma coisa familiar e temos a vida estragada.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

cento e doze

Conheci recentemente um casal de megalómanos. Se um megalómano é um bicho estranho, fugidio, raro de encontrar e mais de conhecer, imaginem a grata fortuna em encontrar um casal. Passei uma tarde inteirinha com eles, num ambiente mais ou menos caótico, absorvendo todas as pistas, pormenores, passos e objectivos que me iam dando à medida que iam confiando. Se encontrar e conhecer este bicho esquivo já é difícil, conseguir a sua confiança é tarefa reservada para poucos eleitos, nos quais e com grande honra me incluo.
As horas passaram como minutos e consegui estabelecer uma relação de amizade ainda trolha de meninice. No meio de brinquedos e computadores, fiquei a par de um mundo paralelo, rico em tradições milenares, cheio de criaturas que deveriam meter medo mas conseguem um sorriso cúmplice, nomenclaturas que fazem rir ao mesmo tempo que criam inveja por não ter sido eu a criá-las, inúmeras plataformas desde manuais a digitais trabalhadas com mestria, todo um universo único e fantástico.
Os megalómanos mostraram o propósito da sua vida que passa por um único sentido chamado "imaginação" e ficaram contentes por terem conhecido mais um pobre de espírito que se deixou fascinar pelas suas directrizes.
Depois meti-me no carro a caminho de casa e desde então tenho estado a pensar muito sobre o que vivi. Julguei que tinha sido uma sorte dos diabos mas à medida que os dias morrem percebo que foi um azar tremendo.
Se já sentia uma enorme repulsa por este Portugal que não entendo, agora sinto uma raiva capaz de o estrangular. O motivo é simples: este casal de megalómanos (vamos chamar-lhes Tolucling ou Luctoling... ou Linglucto) são, e acreditem em mim, a mistura de três génios. Explico: os papás dos Tolucling são dois homens e uma mulher (o que deve ter sido muito engraçado) de nome Tolkien, Lucas e Rowling. Conjuguem essas três imaginações juntas numa só cabeça e têm o mundo que vi e assimilei. Então porque é que foi um azar tê-los conhecido e porque grito blasfémias contra a minha terra? O motivo é tão simples que dói. E dói muito, bem fundo na alma que deveria ter honra em ser lusitana.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

cento e onze

Ontem ouvi um guru, que até prezo, denunciar a questão do "híbrido Pro Am", ou seja, a nova necessidade empresarial num mundo diferente, mais global e vertiginosamente rápido.
De uma forma simplicista, o HPA é ter na mesma empresa dois tipos de empregados: o profissional e o amador. Assim se conseguirá o equilibrio entre a experiência vs entusiasmo, noção vs engodo, old vs new school e um imenso e abrangente etecétera.
O HPA é, assim, uma tremenda dor de cabeça para qualquer gestor. Em primeiro lugar porque tem que pagar mais ao P, mas cuidar melhor o A. Tem que conversar mais com o P mas falar mais com o A. Tem que perceber os atrasos provocados pela família do P e os atrasos provocados pelo cocktail noctívago do A. Enfim, toda uma confusão desnecessária quanto obrigatória.
Logicamente que esta necessidade empresarial existe no 1º mundo, não em Portugal. Por aqui o híbrido é outro. Ou outros. Temos, por exemplo, o HAB (híbrido Amador Barato) que trabalha que nem um cão a troco do passe social, o HPF (híbrido Político ou Familiar) que domina o mercado luso e o mais importante HCED (híbrido Chico-Esperto e Desenrascado) que proporciona, aos tugas em geral, um maior income mensal sem taxas e mais-valias.
O problema são, e peço desde já desculpa por mencioná-lo, os NHPA nos quais me incluo. Os Não-Híbridos Profissionais e Amadores são pessoas que vegetam neste mundo português. Têm vasta experiência em muitos sectores profissionais, sendo portanto acusados de Multidisciplinarismo, mas uma idade superior ou igual a 40 anos, o que implica contrato de trabalho, descontos e seguros para a entidade patronal.
Então porque é que continuo, assim como tanta gente de valor (reparem que me incluo nesta) a tentar ganhar o pão que cada vez é mais escasso? Terei que ser HCC (híbrido Come & Cala)?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

cento e dez

Hoje deu-me uma imensa vontade de desligar o telemóvel. A questão é que foi para sempre. Sim, sou dos tais que dormem com ele on, que o remetem para o silêncio em cinemas e artes várias,  que raras vezes o esquecem num bolso de uma mala ou casaco, dos que ficam atónitos quando não têm rede, dos que barafustam quando o operador falha, dos que procuram as mais recentes novidades de streaming de dados sem pagar quota, que adoram o wifi, que querem sempre o último modelo.
O que ganhei ao longo de todos estes anos em que ainda relembro o primeiro bloco de ferro da Nokia com uma antena ridícula e falsa? O que ganhei ao querer o último modelo porque fazia mais x que y? O que ganho actualmente quando olho o Satio na montra? A quem interessa, sem ser para mim, o facto de conseguir com este novo modelo ver o que tenho no disco rígido da PS3 que está em streaming com o iMac, em qualquer lugar remoto?
Sei que ganho momentos de prazer. Sou um confesso gadgetfreak, adoro tecnologia, todos os seus pequenitos avanços, sinto-me bem quando demonstro e ensino todos os que me rodeiam, gosto de ser considerado como guru destas artes e ciências modernas.
Adoro perder-me nos sub-menus indecifráveis para a maioria, como receber chamadas de gente em pânico porque o computador (pc ou mac) deu raia. Gosto de provar que, afinal, não sou assim tão geek ou tecnofreak, pois também detesto os nerds informáticos e similares.
Ao fim e ao cabo, acho que sou um gajo moderno, sofisticado q.b. e continuamente interessado no próximo passo.
A questão é que no século anterior, pessoas como eu ainda tinham a sua graça e utilidade. Com a passagem do milénio, surgiram novas infra-linguagens pseudo-técnicas que fazem todo um esforço para que não sejam compreendidas por pessoas nascidas antes de 1980 que é o meu caso.
Quanto a essas, no way, nunca me ultrapassarão.
O problema é outro. É  a questão da liberdade, da disponibilidade, do ser e não estar, como do parecer e não querer. Longe vão os tempos em que combinavamos com os compinchas às tantas horas naquele preciso lugar. Não tinhamos carro, nem GPS, nem telemóvel e quem chegava atrasado 15 minutos já sabia o que ia enfrentar. Hoje estamos disponíveis para as desculpas e atrasos dos outros. Ficamos à seca, pois somos do tempo em que a pontualidade era in ao invés de forex. Somos, portanto, gozados.
Ou seja, o nosso telemóvel plimplimplim é a última prisão. Recebe chamadas, mensagens escritas, faladas e imagéticas, recebe emails, tem já um A.GPS incorporado para mostrar onde estamos, é camara foto e videográfica que nos transforma em jornalistas ou paparazis, liga-nos ao Facebook, Twitter, Myspace, Netlog, Plaxo, Netmeeting, HoresOnLine, Continente, análises clínicas, fisco, StarTracker, Amazon, youtube, farmácias, trânsito, banca, pagamentos de serviços, Wikipedia, Fnac, Worten, Vobis, Stick-a-Skin, Cp, Refer, Benfica, Atlético Clube de Alvalade, Supremo tribunal de Justiça, jornais on line, Nasdac, leilões, Remax, Bimby, Torrents, Mundo, sub-mundo, extra-mundo, Scully, MacGyver, blogger, wordpress, podcasts e mais tudo.

O que nos resta então? Qual é o nosso tempo? Como podemos ler livros e escrever os próximos? Como podemos pensar nas soluções para amanhã? Como podemos ouvir música e desejar fazê-la? Como podemos ser unos quando estamos tão unidos?

Eu não pedi para ser irmão de toda a gente ou o tio dos mais pequenos ou o amante dos mais desesperados. Mas caí na própria teia. Tenho saudades de ter tempo e de ser quem fui. Tenho saudades do tempo. Da liberdade. Da individualidade.
Tenho saudades de mim, quando quis mudar o mundo, pois era imortal e tão garboso que levaria a minha nave a conquistar o desconhecido.
Agora...
Bom, agora só penso em desligar para sempre o telemóvel.
Mas sei que vou ferir toda a gente que pensa em mim, que me quer bem e que está habituada a que eu exista. É que hoje em dia, desligar o telemóvel é como desligar a máquina que nos sustenta a respiração e a identidade.
Se o desligar, morro.
Creio nisso.
E ainda sou novo....

terça-feira, 10 de novembro de 2009

cento e nove

Engraçado este país que teima em formar superiormente jovens para o desemprego enquanto atira para a vala comum todos os outros que, nascidos noutra época, fizeram-se à vida e conquistaram-na, munidos apenas de coragem, determinação, humildade e muito esforço.
Quando olhamos os nossos jovens percebemos que a grande maioria, mesmo com um canudo na mão, não sabe onde está nem para onde vai.  E é mais assustador quando observamos os ainda mais novos a copiar o estilo de vida norte-americano que vale o que se sabe.
O que é curioso é a conclusão de tudo isto: enquanto os recém-licenciados ainda tentam encontrar um emprego, os recém-desempregados tentam reconquistar esse mesmo emprego. O problema é que os primeiros vivem à conta dos segundos e o desespero dos últimos é bem maior que dos primeiros.
Temos portanto uma luta sem quartel no mais impenetrável castelo que são as nossas próprias casas.
Isto vai dar buraco...
Este país que teima à força em mostrar-se moderno e capaz às altas instâncias europeias, com dados falsos e passagens de ano administrativas, está-se nas tintas para o futuro próximo. É que nem se sente envergonhado quando emprega nas obras homens louros com canudos debaixo do braço, ao invés de convidá-los para ajudarem naquilo que dominam e que nos faz falta. Neste ponto, os EUA foram bem mais inteligentes que nós, extraordinários patrícios que berramos a nossa história quase milenar.
Por outro lado, os que têm agora entre 40 e 50 anos não sabem como se safar, pois a experiência, conhecimento, método, trabalho e sacrifício, deu lugar ao desenrascanço, cunha, batotice e arrogância. O que fazer então, visto que a maior parte ainda está muito capaz e vê os mais novos tirarem-lhes o posto sem fazerem o mínimo para isso (leia-se trabalhar de borla contra contratos de trabalho)?
Tenho uma solução.
Bastaria um mês para que todos os homens e mulheres que ainda são úteis e experimentados vissem o seu valor novamente reconhecido. Era só deixar o local de trabalho durante esses 30 dias! Imaginem comigo o dia a dia deste país se os jornalistas, fotógrafos, arquivistas, enfermeiros, cozinheiros, fiscais, engenheiros, arquitectos, escritores, pensadores, agricultores e todos os restantes deixassem as suas artes aos mais novos, acabadinhos de saír das universidades com aquele canudo tão bem preparado...
Isto ia dar um buraco...
Ops... disse "ia"?

cento e oito

Ontem reparei que o telemóvel que desejo já está à venda nas lojas de cultura multimedia. Estava a mostrar as imagens e características ao amigo que me acompanhava quando o computador fez "plim". Tinha chegado um filme que tenho muita curiosidade em ver, intitulado "The life and death of the mobile phone" logicamente produzido pela gloriosa BBC.
O amigo reflecte e diz que tem saudades dos primeiros telemóveis de ecrã verde e letras pretas, pois hoje em dia já não percebe nada dos novos e até lhe é difícil fazer uma simples chamada.
Eu ataco-o veemente e entusiasticamente, gritando que somos a geração que viveu o analógico, todas as grandes transformações tecnológicas e que sei que, daqui a uma década, vamos olhar para estes monstros multimedia e touchscreen com alguma saudade e escárnio.
Ele respondeu que não tem paciência, eu retorqui com mais ecrãs que se adaptam ao corpo, gravadores de imagem e som orgânicos, finalmente a verdadeira realidade virtual.
Ele olhou-me com alguma pena e perguntou se podia ir checar os emails, o blog, o facebook e twittar umas cenas.
Eu sorri...

cento e sete

Acho que sou um fulano atento aos sinais que nos vão dando para as eminentes e extraordinárias mudanças na nossa vidinha.
Tenho a sorte (e o azar) de trabalhar em casa o que facilita observar mais noticiários, seguir mais sites e opiniões, ouvir mais informação e etc. E se por um lado fui espectador directo das grandes mudanças sociais e físicas (desde a queda do muro aos ataques 9/11, passando pelo tsunami e derrocada de pontes com autocarros), continuo a gostar de imagens com som, nomeadamente filmes e seriados.
Foi com eles que percebi que um presidente afro-americano estava para breve após ver inúmeros filmes que o apresentavam e depois com essa série intitulada 24. Quando reparei no senador Obama, exclamei "vai ser este, vai ser este e é já!" e poucos acreditaram.
Hoje relembro e estou muito atento a outro "aviso" que é, simplesmente, o fim do mundo. As séries são muitas e os filmes às dezenas. Desde invasões de aliens que não o atarracado ET a explosões nucleares, tudo está a acontecer nos médios e grandes ecrãs. Algo se passa e os senhores do mundo, que pelas minhas contas são oito marmanjos, já sabem o quando. Vamos ver é se aceitamos de mão beijada este destino ou, a fazer fé nos sítios e opiniões cada vez mais esclarecidas e menos histéricas dos conspirativos teóricos, estaremos mais avisados e quiçá preparados para deixarmos de ser cada vez mais cordeiros e ordeiros alegremente caminhando para uma realidade Orwelliana.
Isto de um planeta mais verde, veículos eléctricos, transportes colectivos, lâmpadas de luz tão fria quanto horrível, bi-horários, vidrões e pilhões, apelos vegan, casamento homossexual, adopção de crianças vietnamitas, lince ibérico e, mais recentemente Sporting, são causas tão perdidas quanto ineficazes se, por exemplo, o sol espirrar um atchim. E aí não haverá protector e demais protecções que nos protejam protegendo um mundo que há muito não nos protege.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

cento e seis

Pensando numa canção que andava por aí e que se cantava "um mundo ao contrário" e depois de ver um trailler de um filme que deve ser muito interessante, dei por mim a pensar como seria este nosso mundo virado do avesso.
Imaginem comigo um professor com uma arma numa sala de alunos complicados, os representantes do governo a trabalhar o que o povo ordenava, os ladrões a ficarem mesmo presos, a vergonha pública dos maus gestores com a consequente perda de bens, os empréstimos bancários garantidos e facilitados para quem quer produzir e melhorar a vidinha, as doenças atacarem-nos fortemente no primeiro dia para depois sumirem do corpo, as igrejas despojarem-se dos luxos e convidarem-nos à elevação real da alma, os divórcios serem o princípio e não o fim, os vícios não fazerem mal, etc e etc e etc.
Relendo o parágrafo reparo que alguns exemplos, no papel, até foram pensados para funcionarem. Onde é que perdemos o rumo?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

cento e cinco

Pensei muito em escrever ou não sobre o António Sérgio. Decidi-me a fazê-lo quando ajudei alguns amigos jornalistas a compilar informações sobre as primeiras décadas de trabalho e ao reparar que a malta nova, esses grandes consumidores de "música", nem faziam a mínima ideia que tal senhor existia, quanto mais que era uma grande voz da rádio.
Fica então aqui uma homenagem em jeito de história melómana e modus-vivendi para as gerações mais novas que se julgam donas da matéria e da razão.

O António Sérgio (AS) marcou a minha geração. Com a sua escolha e divulgação musical que desde o início foi pautada pela novidade e diferença, fez com que um puto como eu tivesse comprado vinis atrás de vinis (enquanto a mesada durava) de nomes estranhos, sonoridades ímpares, letras e palavras cheias, rebeldia q.b., múltiplas linguagens rítmicas e melódicas com essências tão díspares que iam do punk à new wave.
Passei horas defronte à aparelhagem por elementos separados, como convinha, e que contava com um gira-discos da Onkyo, um amplificador vintage da mesma marca, um deck de cassetes da Nec e umas colunas da B&W. O meu pai, que pouco ouvia música, pelo menos tinha comprado o que era bom e, talvez por isso, a qualidade do som encheu-me os canais desde tenra infância, ajudado por uns imensos e pesados auscultadores da Senheiser.
Essas horas fizeram-me mal às costas, pois estava sempre curvado para carregar no botão Rec quando os primeiros segundos das músicas que perseguia soavam como se fosse um alarme.
Depois era uma camada de nervos sem igual até que a música atingisse o seu final, onde era necessária muita rapidez e mestria para carregar no botão Rec/pausa afim de não gravar a publicidade ou a voz do AS. Como puto, eu queria só as músicas...
Essas cassetes que foram crescendo em número e qualidade (de normal a dióxido de crómio e metal, estas muito caras e raras) deram-me alento diário, juntaram-me aos demais ouvintes em romarias no início do Bairro Alto para as matinés do Rockhaus, levaram-me a frequentar últimos pisos em prédios dos Olivais onde existiam rádios pirata e a fazer a minha primeira banda pop/punk/synth/newwave.
Foi com o AS que este país medíocre e inculto saíu do labirinto das FM e das suas leituras juvenis, dos atropelos à liberdade a mandato dos padres da RFM, entre outros casos e politicas.
Se o AS nos dava as novidades, nós repassámos-las nas ondas hertzianas piratas para todo um bairro estar curvado para a tecla Rec dos respectivos gravadores.
Foi assim que grandes nomes da pop/rock começaram a visitar o nosso país, alertados por notícias de uma movida 80 que estava a acontecer na juventude lisboeta e é por isso que nos dias de hoje temos salas cheias com os Massive Attack ou o Steve Reich, festivais extraordinários um pouco por todo o lado, festas melómanas, rádios ainda como deve ser (Radar, Oxigénio e Europa) e um parco mas importante número de pessoas ávidas pelo diferente, não comercial e mais adulto som e imagem.
O AS não foi, portanto, apenas um lobo da rádio com a sua eterna voz de bagaço, a sua inquietação quando ouvia algo novo, a sua alegria quando trocava nomes e experiências.
Pelo contrário, foi alguém que formou muita gente, pessoas que agora tentam incutir nos seus mais novos toda essa liberdade de um mundo outsider das editoras mainstream, das políticas terroristas das playlists, de um imenso programa estupidificante e global que tem como propósito abafar quem pensa diferente das maiorias, quem gosta de ir mais além, quem tem mais do que os cinco sentidos básicos com que nasceu.
O problema é que AS só houve um e não há lugar para mais nenhum, pois até ele foi múltiplas vezes atacado e abandonado pelos seus pares mandantes. Pares esses que agora o choram... quando ainda ontem lhe fizeram a cama.
Desgraçado este povo e este país que vê a cultura por um canudo cada vez mais estreito. E desgraçada destas novas gentes, pupilos de uma MTV vendida e que abraça modas, credos e vestes de gente que nada nos diz. Nem a nós nem ao mundo. Quando acordarem já vai ser tarde.

Um grande abraço António. E um grande e sentido bem haja por me teres ajudado a ser quem sou.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

cento e três

Ser corrupto, ladrão e/ou criminoso não é para todos. Sempre pensei que essas artes eram exclusivas de pessoas que não têm nada a dever a ninguém e estão longe dessa figura ominipresente e potente que é a... mãe. Ou seja, se quisesse ser amigo do que me é alheio e enriquecer de forma rápida e vertiginosa só me restaria uma possibilidade que era saír daqui e ir para uma terra grande e distante. Imaginem se fosse apanhado pela polícia? Como é que diria à minha mãe que, afinal, toda a educação que recebi não tinha servido para uma vida impoluta e digna mas sim para me juntar aos grupos e líderes deste país (ou de tantos outros) para ter uma forte presença social e cargos ao mais alto nível?
Como é que ultrapassaria a vergonha de ver em tribunal todos os familiares que utilizam o meu apelido? E os amigos que me confiaram segredos ao longo dos anos? E o olhar incrédulo de um pai? E os vizinhos? E o fiado que tenho nas mercearias, quiosques e tascos aqui do bairro?
Por tudo isto, e por muito que até saiba alguns truques desse sub-mundo que é o poder aliado à gatunice, não teria coragem para enfrentar tantas lanças olhadas contra mim.
Sofro desse sentimento que se chama vergonha. Na cara, no corpo, na rua, no trabalho, relações e amizades. Nesta altura em que o dinheiro custa cada vez mais a ganhar de uma forma, vá lá e digamos, honesta, seria muito fácil resvalar para caminhos de triangulação empresarial, orçamentos feitos em papel pardo e sem iva, renomear outrém (menor se fosse possível) para os bens móveis e imóveis, apresentar despesas invulgares ao fisco e ter com amigos essa maravilha que é uma off-shore.
Mas não consigo. Por muito que uma vida de ladrão de jóias e arte me fascine, há sempre a possibilidade de ser apanhado e de ter que telefonar à mãe da prisão.
E isso é impensável.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

cento e dois

"Em Roma sê romano", diz-se à boca cheia. Os portugueses sempre se deram bem com este conselho amigo e, daí, o nosso à vontade para recomeçar toda uma vida nas diversas latitudes deste planeta. Ok... em Paris sê concierge, em Joanesburgo merceeiro, em São Paulo padeiro, em Espanha trolha, no Luxemburgo professor e por aí adiante. Portanto é melhor passar a dizer "em Roma sê como os portugueses que já lá estão" e siga a tradição.
E é sobre tradições que me debruço. A constante importação de inglesismos só tem paralelo na cedência das nossas coisas para dar lugar a outras que nunca foram nossas. E, pasme-se, isto não tem a ver com fluxos migratórios que escolhem o nosso país para viver (senão teríamos o carnaval brasileiro ou o KaZantip ucrâniano, para não falar das Festas do Mar angolanas ou as Companhias de São Benedito de Moçambique e etc), mas sim uma questão de marketing puro e duro promovido por marcas ou promotores.
Vejam o ridículo que é dançar desdunada no carnaval de Torres com um frio que se cola à celulite e uma chuva miudinha que atrapalha o sambar. Ou as festas de Saint Patrick, verdes como o nosso verde, mas com roupa e botinhas um bocado larilas e uns chapelitos estranhos, sem falar nessa coisa burlesca denominada gnomos...
O Valentine's Day também enche as montras de coraçõezinhos cor de rosa e vermelhos, dizeres em postais e cartões e anéis que prometem futuros a dois. Depois vem a factura no bolso e no projecto.
Agora é o Halloween. Mas o que é que temos nós a ver com a abóbora, somente indicada para sopa? E mascararmo-nos com vestes assustadoras e esqueletos falsos, pintando a cara como mortos-vivos e andando a pedir de porta em porta um qualquer caramelo ou partida? Mas o que vem a ser isto?
Querem festa? Promovam o que é nosso!
É que somos ricos em festividades, folia e tradições seculares.
Máscaras temos muitas e bem mais catitas que as norte-americanas.
Adoramos os "assaltos" e bater em panelas.
Danças originais desde Miranda ao Algarve.
Santos para todos os gostos e feitios.
Procissões várias que até são salutares.
Gastronomia sem par.
Superstições e lendas dignas de Hollywood.

Opá... e no meio disto tudo esqueci-me: a Oktober Fest está a acabar. Volto já.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

cento e um

Há qualquer coisa de estranho numa coincidência. Sempre olhei para elas com desdém, pois não acredito em bruxas nem nesse folclore que até acho divertido. Mas depois olho o número do post e é inevitável parar para pensar. Prometi a mim próprio não tomar este espaço como memorial, mas... que se dane, porque não?
Vivi 10 longos anos com este ser. Diariamente.
Lembro-me que foi escolhido porque lambeu o dedo enquanto os irmãos mo morderam. Tinha também uma mancha enorme na cabeça que parecia um choné. Foi logo alcunhado de Camões mas depressa passou a Ega e de seguida a Óscar. Óscar Wild, não Wilde. Não interessam as razões da mudança de nomenclatura, mas posso adiantar que teve a ver com a fraca noção cultural de quem se lhe apresentava ao caminho. Ok, não resisto: Ega era nome de menina...
Desde cedo se percebeu que o trôpego era muito inteligente pois fazia as necessidades em cima das enormes A3 do jornal "espesso" que eram sempre distribuidas pelas várias cozinhas ou marquises dos visitados. Nunca fez porcaria fora delas o que denotava uma inclinação precoce para as artes.
Foi autor de um mensário que prefez o seu primeiro ano e viu-se convidado para ser admirado online, numa altura em que pouca gente sabia que existia esse sub-mundo.
Há muito para contar sobre as primeiras aventuras no exterior, as folhas outonais que lhe viravam a atenção, a esquina preferida para o primeiro alívio, as viagens mais longas de carro, veículos que a partir daí passaram de egoístas duas para cinco portas para ele poder ser admirado por quem vinha nos carros atrás.
Fez muitos amigos! O maior de todos, Zorba! Estão juntos neste momento. Depois havia os outros, inclusivé da mesma raça, mas a relação com o grego foi duradoura. Imaginem um jardim em que todos os dias um Dálmata passeava com um Boxer e em que depois se juntavam todas as raças e credos, tamanhos e feitios, donas e donos, amigos e amigas... era um jardim feliz de Lisboa.
O Óscar conheceu ao longo da sua existência três tipos de pessoas:
a) as que o adoraram desde o início.
b) as que detestavam essa coisa denominada cão mas que ficaram rendidas.
c) as que tinham pavor que ele ajudou a ultrapassar.
Também conheceu inúmeras pessoas de quadrantes diversos, desde engenheiros a políticos, arquitectos a fotógrafos, designers e pintores, poetas e desesperados, pais e mães, irmãos e irmãs, filhos e filhas e afilhado/as e enteadas.
Mas de todos, com quem mais (sobre)viveu foram os músicos. Imaginem um ser que tem não sei quantas vezes mais audição que nós levar desde puto com violinos, gaitas de foles, guitarras várias, flautas, caixas de ritmos e programas software que faziam imenso ruído mas que ele também entendia como música... ah valente. Interessante relembrar agora o rol de músicos e artistas tão famosos e inalcansáveis que lhe fizeram tantos afagos no alto da tola...
Também viveu as mulheres que fazem parte de uma vida, sem um queixume, um ciúme, um desentendimento, um desamoro ou desnorteio. Ajudou a amar e foi por isso também amado. Ah, valente!
Ultrapassou sem mágoa os bons e maus ventos de quem o tinha, ajudando à reavaliação e ao reacordar diário, sempre com um mimo, sempre com um primeiro sorriso, sempre com aquela força que só eles conseguem visitar todo os dias. Tão valente!
Tanto afocinhava as malas de quem prometia guloseimas, como oferecia os pertences a quem o visitava.
Tanto era a alegria de todas as casas como a preocupação de todos os seus membros.
Tanta coisa que deu e tanto mimo que recebeu.
Quem não se lembra dos "olhinhos", do fazer-se pequenino para conseguir subir para um colo, de uma cama sempre ao seu dispôr mesmo à revelia do dono, do apetite voraz por queijo flamengo ou pelo silêncio astuto com que enganava o dono enquanto recebia mil e um bocados de comida dados com segredo por baixo da mesa pelos convivas de repasto?
É também indissociável nas aventuras empresarias, sendo mascote de escritórios que foram mudando com o tempo e vida. Era matreiro a escolher clientes como calmo nas discussões criativas mais acesas.
Era, acima de tudo, educado (fora os dias difíceis que lhe surgiam mesmo em frente às narinas) e extremamente asseado. Podia largar pelo duas vezes por ano (seis meses no inverno e seis meses no verão), mas parecia um felino com a paranóia da auto-limpeza.
Muito, mas mesmo muito fica por mencionar.
Nos últimos tempos, foi-se abaixo das canelas, mas sempre garboso e pedante, amuava cada vez que se tentava ajudá-lo a transpôr qualquer obstáculo mais complicado. Não gostava mesmo nada disso mas lá se ia deixando empurrar por mãos amigas, por gente que o amava. Mas amuava. Amuava porque sabia que já estava a ser uma preocupação, um temor, uma tristeza, um daqueles males de que o coração sofre. O coração do dono.
Nestes últimos meses conseguiu proezas dignas de realce: ficou muito amigo de 1/3 de gatos, tirou o medo a quem tinha pavor, fez catpeople olharem para a sua raça como fantástica e ainda foi buscar a bola amarela cada vez que o benfica marcava um golo ou quando a ferrari estava quase a vencer um grande prémio neste ano menos bom.
A bola amarela...
Há três tipos de pessoas que sabem o que é:
a) as que a adoraram desde o início.
b) as que detestavam essa coisa mas que ficaram rendidas.
c) as que tinham pavor mas que ele obrigou a ir buscar... e buscar... e rebuscar.

Um grande ão, amigo.
Que as minhas últimas lágrimas façam parte do rio que tanto gostavas de cheirar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

cem

Extraordinário como cheguei a este número bonito, mágico e complicado de se gerir.
Tenho gostado muito de escrever este blog e, confesso, nunca pensei chegar a um número tão alto de escritos.
Poderia ser um terminus bonito e elegante... cem. Mais a mais porque coincide com uma tristeza particular profunda (e não tem nada a ver com as legislativas nem autárquicas, embora sinta alguma desconecção com o meu próprio país) que me vai mudar radicalmente o dia a dia e a noção que tenho dele. Pensei por isso em terminar este capítulo, mas por outro lado acho bem mais interessante em jeito de memória e de celebração de vida, continuá-lo com gosto e garra.
Ele há coincidências interessantes nesta vida. Nem que seja através de um bonito e redondo número.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

noventa e nove

Depois de um 98 em que usei demasiado vernáculo, está chegada a hora de voltar a acalmar-me o que até consegui depois de ouvir o debate com todos os candidatos à CML, entre eles gentalha que nem deveria poder votar quanto mais surgir em posters.
Fiquei esclarecido e tomei uma decisão: também eu quero pertencer à Gebalis, Recria, Metro, Carris, Porto Lx, Expo, Casa do Gil e demais associações, institutos ou empresas que ajudam, e muito, a edilidade.
O meu próximo post será o centésimo e coincidirá com o novo presidente que, espero, não seja nenhum dos que se apresentaram.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

noventa e oito

Está chegada a hora para escrever aqui, já e agora, o meu manifesto para o futuro presidente da minha cidade (e que é aproveitável para muitas outras). São 10 passos.

Exmo Sr. Presidente da CML,

1. Deixe-se de merdas! Limpe-a da Câmara, pois está lá muita e comece a colocar gente que quer e sabe trabalhar. Limpe as ruas! Limpe as fachadas! Limpe os monumentos! E limpe as barracas que são as constantes barbáries com que brinda esta cidade, seja em más medidas, péssimas medidas e roubos descarados.
2. Deixe-se de merdas! Precisamos de túneis e muitos! Dois que continuem o eixo Olaias/Campo Pequeno. Precisamos de um nesse cruzamento e outro na Praça de Espanha para não ter que se fazer aquela rotunda para saír da cidade. Que ridículo! Outro no Campo Grande/Lumiar. Outro no Largo do Rato. Outro no Cais do Sodré. E etc.
3. Deixe-se de merdas! Precisamos da Baixa Pombalina sem pombos e com pessoas. Invista na cultura que também é o comércio tradicional. Tire já os ministérios da Praça! Mas é já! Faça esplanadas, restaurantes, museus, ateliers de arte, exposições, casas de cultura! E uma merda de um parque de estacionamento, seja em prédios devolutos, seja no que tiver que ser.
4. Santa Apolónia! Uma porta da cidade que é degradante, seja pelos prédios vizinhos, pelos tascos circundantes, pelos sem abrigo, pela sujidade e caos terceiro mundista. Que vergonha.
5. Metro em toda a Lisboa! As obras podem durar 5 ou 10 anos, mas bolas, uma cidade de colinas e buracos e carros no passeio tem que servir quem a pisa. Linha das Colinas para a frente e continuação para ambos os lados da barracada da estação do Cais do Sodré, para Belém inclusivé e até à expo inclusivé.
6. Frente Rio oriental. Mas o que é isto? Vá a Barcelona, Berlim, Londres, Paris, Istambul!!! VIAJE! Veja o que grandes cidades fazem das suas frentes ribeirinhas. Porto de Lisboa? Mas o que é isso? Quem são esses criminosos? Prisão já!
7. Continue a esquecer a parte mais importante de Lisboa que é a Oriental. Deixe caír Xabregas, Madredeus, Beato, Poço do Bispo, Matinha. Toda uma frente que dignificaria uma capital, com mudanças radicais e obras profundas. Toda uma nova cidade à espera de uma qualquer inteligência.
Isso dava dinheiro, muito muito muito dinheiro. Mas o melhor, porque também dá trabalho, é fechar os olhos e andar de Audi com batedores da PSP.
8. Parque Mayer. É para mandar abaixo. Esqueçam essa merda e continuem o Jardim Botânico com espaços lúdicos, para a criançada aprender o que é a natureza e hotéis de charme. Revista à Portuguesa???? Por amor de deus!
9. Feira Popular. Sou contra, mas sei que há muita gente que a deseja. Espaço não falta em Lisboa. Olhem para a parte oriental. Agora fazê-la em Monsanto? Mas está tudo louco?
10. Serviços Sociais! Braga Parques? Prisão! Terrenos do Campo Grande têm que ser para as pessoas que merecem e necessitam de apoio. Todo um parque de apoio social, com habitação assistida para a terceira idade, instalações para grupos de apoio, serviços básicos de caridade, etc. Uma cidade também foi feita pelos seus velhos! Tem que existir para eles!

Deixe-se de merdas e peça-me mais 10 passos, pois eu tenho uns 1000.

Cordialmente!!!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

noventa e sete

Fiquei tão agastado com o 96 que tenho que escrever depressa sobre qualquer outra coisa. Mas ouvir e ver o António Costa a querer fazer o bonito e a estampar-se com a história do terreno do IPO, o Paulo Portas a apanhar um banho na Madeira com os submarinos dentro de água, o Santana Lopes a dançar com todas as idosas que lhe surgiam à frente e demais palhaçadas dos protagonistas que querem mandar nas pessoas e cidades, que fico sem jeito. Sem capacidade. E sem vontade.

noventa e seis

Hoje vou falar sobre o mito que é a avestruz enfiar a cabeça num buraco quando está receosa. Estou em crer que os portugueses são medrosos, pois tendem a enfiar qualquer carapuça (ou capuz para ser mais moderno) que lhes seja apresentada. E se for numa bandeja servida com fato/gravata da Boss ou similar, é tudo muito fácil. Parece-me que o português anda tão aflito com o seu dia a dia que faz de avestruz a cada problema que surge o que já vem de algum tempo atrás. Isto tudo para chegar ao ponto que quero: a importância que damos ou não ao nosso futuro (local e global) e sentirmo-nos impotentes na educação do bem mais precioso de qualquer país, as nossas crianças.
É intrigante, direi mesmo aterrador, conversar com um adolescente de 13, 14, 15 anos. Escrevi conversar? Esqueçam. Tentar um diálogo com mais de cinco minutos com atenção focalizada, isso. Não pode ser normal perceber que os jovens não sabem nada de nada e, pior, nem querem saber. Enquanto lhes tentamos incutir alguns valores, eles são-nos ripostados com coelhinhas da playboy, simpsons, extreme makeovers, miamis inks e um sem número da patetices tão graves quanto estúpidas. Também, e agora falo só de mim, era um revoltado nessa idade, contra tudo e todos e com muitas certezas sobre os enigmas da vida. Mas bolas, tinha alguma cultura geral pois a isso era obrigado. Sabia que os EUA têm 50 estrelas correspondentes aos estados e fazer um ovo estrelado. Sabia que Camões tinha safo os escritos mas não o olho, ao mesmo tempo que olhava o mundo num globo iluminado. Sabia muita coisa sobre diversas matérias escolares. Sabia aritmética e tinha inteligência para decifrar pequenos problemas diários e, atenção, utrapassá-los sózinho. Hoje em dia e com a mesma idade que corresponderia a mais cinco anos que no nosso tempo, os petizes só pensam em sexo, roupa, moda, sexo, dinheiro, sexo, dinheiro, saír de casa aos 20 e ter grandes casas e carros de luxo nem que, e aqui está o busílis, seja necessário o sexo para lá chegar. Mas o que se passa? E não me venham dizer que há putos e putos, pois sempre haverá. O problema aqui é que não estamos a falar sobre júniores sem condições para estudar e ir longe na vida, mas exactamente sobre os meninos e meninas que até nasceram confortavelmente.
Dir-me-ão "é tirar o telemóvel", "é cortar os canais cabo", "especificar horas de internet", etc e tal. Sabemos bem o que estes passos provocam e por muitos castigos, proibições, policiamento e monitorização que consigamos, eles estão sempre tempo a mais sózinhos. Antigamente, quando fomos catraios, também fazíamos muita merda, mas não a pensavamos com orgulho nem a defendíamos com sangue. E de vez em quando, ouviamos mesmo os mais velhos pois lá no fundo no fundo, sabiamos que eles tinham razão. Hoje tudo mudou e a falta de respeito só tem paralelo na falta de inteligência.
E o que fazemos na maior parte dos casos? Imitamos a avestruz! Só que colocamos a cabeça no buraco não porque estamos assustados, mas porque ficamos com vergonha daquilo que acabámos de ouvir.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

noventa e cinco

Ontem, devido a uma quebra de sei lá o quê da EDP aqui em parte do bairro, tive uns bons 20 minutos para pensar no que seria a vida sem electricidade e cheguei rapidamente à conclusão que é impossível para nós, gente que já nasceu com ela, sobreviver sem o seu luxo. Ok, podem dizer-me que não, não é bem assim, que até conseguiríamos uma existência catita, mais pura e chegada ao divino e inundar-me com exemplos. Mas eu acho que morreríamos todos, pois não sabemos plantar e cultivar, filtrar as impurezas da água, não temos poços nem tanques e as bomba de gasolina não funcionam sem electricidade...
Mas o exercício que depois pensei é que me fez escrever este post:
E ao contrário de tudo, será possível viver uma vida sem colocar o pé fora de casa?
Vamos a isto!
Trabalho online, garante de sustento e de recebimentos/pagamentos via banca online: check.
Supermercado online (fora as pizzas, frangos e demais serviços): check.
Compras diversas online: livros, discos, AV, móveis, etc: check.
Comunicação triple play: check.
Médico ao domicílio: check.
Prostitutas ao domicílio: check.
Trolhas, técnicos diversos para pequenas obras no domicílio: check.
Finanças (pagamento de impostos): check.
Ao fim e ao cabo, tudo check.
Portanto, é muito possível viver toda uma existência sem colocar os pézinhos na rua (reparem que não estou a falar de mais nada a não ser da possibilidade pura e simples).
Ao fim e ao cabo, e posso estar em erro, só não podemos ir ao dentista, operação cirúrgica e votar. Os primeiros são complicados, mas o último... poderia viver muito bem sem assinar a cruz pois são sempre os mesmos e nada muda.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

noventa e quatro

Ao meu redor estão muitas pessoas diferentes de género e vida. É muito bom ter amigos e bons conhecidos de vários enquadramentos e quadrantes, pois por muito que a minha vida me alheie do frenesim diário, não consigo ser um eremita por muito que até nem desgostasse dessa verdadeira alternativa. E logo eu, considerado um bicho social...
Ultimamente tenho observado algumas mudanças comportamentais, reflexos da crise existencial e social, e a coisa não está a ser bonita. Exemplos? As pessoas SA, LDA e SARL.
As SA são as que Sofrem por Antecipação. Choram-se por tudo e por tudo, antecipam que vai correr mal, são nervosas, quizilentas, agressivas e barulhentas. Por muito que se lhes tente incutir alguma realidade e a nuvem de uma úlcera nervosa, a resposta é sempre curta, grossa e mal educada. Só apetece fugir mas depois entra a tal coisa da amizade e lá vamos continuando a levar porrada.
As pessoas LDA são as Loucas Da Alma, tristes e abafadas, sofrem em surdina sem querer alterar uma vírgula na vida de alguém que está ao lado. Choram compulsivamente sem entender porquê, mas sempre no esconderijo do WC ou no quarto com a almofada a abafar o soluço. A ajuda que tentamos é sempre aceite com uma tal tristeza no rosto que pensamos imediatamente em retirá-la. Só apetece fugir mas depois entra a tal coisa da amizade e lá vamos continuando a levar porrada.
As pessoas SARL são as Solitariamente Agressivas com Registo Libertino, grandes objectos de desejo, sempre impecáveis e bem tratadas, mas donas de uma arrogância tal que pensam conseguir esconder a sua extrema tristeza e solidão com uma vida abundante de amantes, compras, recheios e viagens. São muito complexas e mudam drasticamente de feitio várias vezes ao dia. Só apetece fugir mas depois entra a tal coisa da amizade e lá vamos continuando a levar porrada.
Perguntar-me-ão, mas bolas, não conheces gente "normal"? Claro que sim! São as COM, pessoas Comunicativas, Organizadas e Maduras. Mas onde está o gozo, a aventura, a novidade? Onde está a necessidade de quebrar a regra ou a rotina com uma graça fora do sitio certo, uma aventura fora de horas, qualquer coisa que não esteja na agenda filofaxiana? Só apetece fugir mas depois entra a tal coisa da amizade e lá vamos continuando a levar porrada.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

noventa e três

Uma simples frase de alguém pode reacordar-nos algo que estaria perdido para todo o sempre. Foi o que me aconteceu agora ao ler um dos muitos blogues que gosto de seguir: alguém quer pisar uvas. O que me foi fazer... relembro agora, cada vez com mais saudade a cada segundo que passa, as temporadas que passava na terra do meu pai (que tem dois éles e um ipsilon de história antiga mas esquecida pelo tempo e gentes) quando era muito muito catraio.
Tinha a companhia de primos e era uma algazarra empoleirar-mo-nos nos pequenos espaços livres das carroças puxadas por bois, cheias de uva acabadinha de apanhar. Nesse caminho até ao lagar, comiamos quilos de uva preta pequenita e depois ajudavamos na pisa. Normalmente o resultado era um extremo e sonolento (quase embriagado) cansaço infantil e uma forte diarreia, mas no dia seguinte ninguém nos proibia a mesma viagem. Nessa mesma altura comia queijo de cabra acabadinho de fazer, bebia o seu leite e adorava ir à cave de um outro primo onde a família se juntava para grandes conversas regadas com vinho da pipa, presuntos pendurados a curar, outros cortados com mestria, queijos vários e um pão que sabia à vida.
De vez em quando bebia um copito de vinho.
E de vez em quando era muito, mas muito feliz.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

noventa e dois

Confesso-me dependente do audiovisual. Oiço muita música, passo muito tempo na net, adoro seguir seriados TV e perco-me com prazer nos muitos filmes que também vejo em casa. Se bem que a net tenha desculpa, pois trabalho com ela, há momentos em que penso na liberdade que vivi quando ela ainda não existia. Apanhava mais sol e ar puro, certamente. Mas os tempos eram outros e o ar que se respira na rua está longe da pureza de algumas décadas atrás. Criticam-me também por, como cinéfilo compulsivo, deixar de ter frequentado o escurinho das salas de cinema. Respondo sempre que quando vejo um filme gosto de apreciá-lo no mais puro dos silêncios e com a concentração aos níveis mais elevados que consigo e isso é impossível com a falta de educação que se verifica hoje por todo o lado, seja na forma de pipocas, sms, conversas já não abafadas ou melos de adolescentes que não têm onde mais ir. As séries televisivas são uma droga. Sigo uma vintena ou mais e dão-me prazer. O que posso fazer? Quanto à música, essa é outra história. Não sobrevivo sem ela, desde os meus clássicos às novas sonoridades que vou descobrindo e que tento apresentar aos amigos como um adolescente entusiasmado.
E a vida, perguntar-me-ão?
Bolas, e isto tudo também não a é?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

noventa e um

Ando estarrecido com alguns programas televisivos que, nas barbas de toda a gente informada, copiam integralmente algumas soluções e ideias de outros programas televisivos.
Exemplos? Os Gato Fedorento com este novo "Esmiúçar os Sufrágios" e uma fulana de olhos verdes (ou azuis) e corpo interessante que foi a cara do "5 para a Meia Noite" das últimas segundas-feira.
No caso do RAP e amigos, a colagem a esse extraordinário diário noticioso norte-americano que é o "The Daily Show" e ao seu apresentador/protagonista Jon Stewart é, por demais, evidente. No caso dos olhos verdes (ou azuis), a pilhagem de sketches do Conan O'Brien e Jay Leno é má demais para ser verdade.
Ambos perceberam que o que está a dar é agarrar num conceito com milhões de espectadores por todo o mundo e fazê-lo à portuguesa. E claro está, ambos se estampam. E isso é consfrangedor. Tenho para mim que, quando se rouba, há que fazê-lo com alguma pinta e tem que se ter como objectivo único ser melhor que o original. Pode ser que assim a coisa passe, que as pessoas até façam o jeitinho, que as críticas sejam atenuadas, que enfim, se consiga fazer a coisa e obter alguma notoriedade por parte dos mais ignorantes ou distraidos, alcançando um outro grande objectivo nacional que é o de pertencer às listas de convidados "vip" para as festas de Verão nas discotecas que só são in nessa época. Ah... e ser amigo das Mayas que pululam por aí.
RAP está sem jeito como Jon Stewart pois falta-lhe tudo o que este tem. Os olhos verdes (ou azuis) tem tanta gana de auto-promoção que já nem dá pena vê-la a babar-se ou a aterrorizar o idioma português. Os sketches de ambos os programas roçam o mediocre menos menos, embora os Gato consigam ainda sacar algumas gargalhadas, inclusivé minhas, quando fazem o que sabem fazer, ou seja, comentar as notícias e imagens do dia.
Contudo, mete medo saber que tudo é possível na televisão portuguesa. E mais medo mete o facto de percebermos que não há ideias novas. E isso sim, é trágico.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

noventa

Como já escrevi lá para baixo, estou e tenho tentado acabar com o que se alcunha de lixo da e na minha vida. Entenda-se esse lixo pela tralha que ocupa os aposentos, 90% dela que só serve para acumular pó ou ser rearrumada uma vez por ano aquando a limpeza geral.
Continuo com essa vontade e necessidade mas sofro de um complexo bipolar: às vezes tenho vontade de me desfazer de quase tudo, outras de quase nada.
Escrevo sobre isto porque a minha idade tende teimosamente a seguir em frente e porque tenho medo que a minha cabeça, num futuro, não seja capaz de se lembrar das memórias que os pertences evocam apenas pelo olhar. Imaginem a desgraça que é finalmente decidir limpar a nossa vida de tudo o que acumulámos para depois não nos lembrarmos de nada e precisarmos desse apoio material para pelo menos nos reconfortarmos.
É que tenho mesmo medo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

oitenta e nove

Muito se fala sobre o papel da Mulher nos tempos modernos sempre e cada vez mais influenciado pelas revistas, televisões, opiniões, anúncios, ilusões, necessidades, obrigatoriedades, encantos, desalentos, paixões, desamores, paparazos, imagem e imagens, tradições, modernidades, sexo, subtilezas, praias, modas, magreza, idolos, amantes e um nunca acabar de provocações, promoções, festas, alarido, cor rosa e sonhos photoshopianos.
Depois o mundo realkombat ataca esta ilusão com o concreto, as formas, rugas, os descaídos, a idade, gordura, os papos, a tristeza, desilusão, combate, fúria, doenças, maternidade, emprego, cansaço, carreira, "domesticidade", pavor, medos, fobias e os receios de perder, esgotar e ser trocada por um modelo mais novo.
No meio disto tudo estão os homens. Uns parvos ao ponto de acreditarem e seguirem o primeiro formato, outros conscientes que o segundo também não é assim tão mau.
O problema é que os homens ficaram impávidos e serenos a assistir a este endeusamento de uma Mulher que não existe (ou existem poucas) de formas bellucianas, sorrisos foxianos, sensibilidades penelopianas, graciosidades Berryanas e inteligência thurmaniana ou, para conter tudo no mesmo saco, aliar um cruzar de pernas ao QI superior de um alien chamado Stone o que, convenhamos, é uma pedra!
Mas tudo estava bem, pois nós homens gostamos de afirmar que gostamos delas grandes ou médias, deles grandes ou redondos, carnudos ou sensuais, longos ou encaracolados, dela curta ou comprida, dele a ver-se ou escondido, de fio ou body, de odor 5 ou natural, peluda ou pelada, loura ou morena, verdes ou negros, azuis ou castanhos ou, para terminar, cinzentos como eu gosto.
Num repente, tudo mudou graças ao que explanei no primeiro parágrafo. Devido a Bekhams ou Ronaldos e afins, somos neste momento confrontados com a dura realidade do excesso de peso, de pelo, da falta de um dente, de um sorriso menos branco, de um cabelo ao natural ou da falta dele, da roupa de marca x, p t ou ó, da sapatonga, do perfume certo no lugar certo, da forma de estar, de não poder gostar de jogos e desportos tradicionais como o futebol e bilhar e ter que admirar golfe ou poker, de ter o carro da moda como se de uma jóia se tratasse, de Spas, lamas, massagens, ginásticas, de estar sempre impec num mundo de impecs.

O problema é que vejo as senhoras que recusam ser fantoches a admirar este novo mundo em que o homem passa, também ele, a ser um boneco insuflado e falso.
Por um lado há aquelas que desdenham o David ou o Cristiano, pois por muito bons que sejam, são uns cretinos da pior espécie. Por outro somos confrontados pela grande verdade: se mesmo eles que são das barracas conseguem, porque é que tu, ó cota acabado e sisudo, não consegues pelo menos abater essa barriga? Olha que estás aqui estás a ser trocado por um modelo mais novo.

oitenta e oito

Há sitios netianos com vozes do além, despojos sentimentalistas, teorias conspirativas e, pasme-se, obituários sobre relações que não deram certo. Alertado por uma exclamação e respectivo link no FB, fui ver este local em que se despeja ódio, razões, falta delas e se apontam erros, descortesias, problemas e traições.
Li apenas as primeiras frases dos casos portugueses que escancaram as suas desilusões e fiquei cheio de medo. Tive a minha quota parte de namoricos e aventuras, vivências e exposições e comecei a pensar em algumas, exactamente nas que não terminaram bem. Se bem que me ache um tipo porreiro que cometeu certamente alguns erros, tenho a consciência limpa em 98% dos casos. Vá lá, 95%. Ok, 90%.
Desde tenra idade que fui namoradeiro, tinha boa figura e um sorriso bonito que aliado aos profundos olhos negros, convencia muita rapariga que poderia ser o tal. Confesso que tudo fiz para que se apaixonassem mas fugia delas a sete pés quando tal acontecia. Nesse aspecto serei um sacana? Depois defendia-me com duas situações: a primeira era fazer tudo por tudo para que elas acabassem o namorico, não eu, fingindo-me distante, desinteressado e não tão perfeito quanto um principe o é. A segunda era tentar depois uma ou duas razões para que o desenlace negativo fizesse sentido. Consegui algumas vezes esses intentos e noutras falhei rotundamente.
Já me chamaram muitos nomes feios por ter sido assim, mas na verdade só não falo com duas ou três pessoas que passaram pela minha vida, o que não me parece assim tão mau.
Contudo a experiência da vida mostra-me que não fui tão perfeito quanto pensava e que fiz sofrer algumas pessoas que não o mereciam. A elas fica aqui um pequenito mas sentido pedido de desculpas e que estou aqui para qualquer esclarecimento adicional... nem que seja apenas para não fazer parte desse site de falhanços.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

oitenta e sete

Oprah e BEP

Acho que é o primeiro video que publico neste espaço, mas quando o vi no YT senti um calafrio na espinha, daqueles bons quase arrepiantes de frio mas que nos dão uma boa sensação.
Não sou fã da Oprah, embora a ache um boneco audiovisual interessante e muito menos fã dos Black Eyed Peas, embora lhes reconheça um ritmo contagiante e belos videoclips para imitar a coreografia. Contudo, ambos reuniram mais de 20.000 fãs que estudaram toda uma complicada dança ritmada com um dos temas menos hip-hop do grupo, ou seja mais hip hip e hop hop.
O resultado é fantástico, quase surreal. Ver um mar de gente a adorar estar ali, a "botar cá p'ra fora" os maus fígados, a rir, sorrir, gritar e cantar em uníssono é bonito.
A música, qualquer que seja, tem este único dom: o de conseguir juntar credos e raças, velhos e novos, políticos e apolíticos, dançarinos e pezudos.

Vale a pena rever.

oitenta e seis

Ahhhhhhhhhhhhhhh, estas pequenas férias revitalizaram-me. Descansei em dois locais principescos e algarvios. Estive em praias desertas de gente e onde se consegue caminhar nas águas tal como Moisés durante um pequeno periodo de tempo. Vivi a companhia de quem me acompanha e de mais uns convivas que aproveitaram um dos fins-de-semana. Aproveitei também para repôr leituras, ver uns quantos filmes que estavam empilhados e conversar. Conversar, não falar.
Existe uma enorme diferença.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

oitenta e cinco

Teleespectei (de teleespectador com ou sem hífen que hoje em dia já não percebo nada disto) o programa tv2 "curtas e tal" de hoje. Nele surgiu uma longa apresentação sobre o novo filme do Miguel Gomes que se intitula "a cara que mereces" ou similar, pois não me apetece de todo ir googlar a info. Ora o plot é atrevido com um pózinho de originalidade (a atirar para elementos Gillianescos e familiares modernos), ritmado q.b. e deverá ser marinado hora e meia antes de servir com um happy-end pouco normal para uma película portuguesa. Pois até me divertiu e encheu de curiosidade. Mas, e há sempre um mas, não entendi porque carga de água é que metade da apresentação foi dada em francês. Depois, quando parecia que já tinha terminado, surgiram mais cenas em português o que me fascinou ainda mais, pois e olá, temos uma apresentação bilingue!
Enquanto pensava nesta dualidade e injuriava o autor que apostou numa lingua morta em vez de na já admitida por todo o mundo como oficial, eis que percebo que o som enquanto francófono se percebia na perfeição ao contrário dos ruídos estranhos provocados pelas vozes dos autores quando falaram o português. E isso sim, concentrou-me as atenções. Mas porquê??? Será que os técnicos eram franceses e dos bons? Será que o microfone ainda estava novo? Será que será? Mas porque carga de água (H2Oh para mencionar o jPod) o som dos filmes portugueses é quase sempre uma imensa cacofonia de má qualidade? Não é dos actores, pois quando falam inglês ou francês soam bastante bem. Portanto só pode ser dos técnicos de som. Ou dos Nagras. Ou da fita magnética já muito gasta. Ou do material muito usado. Alguma coisa tem que ser. Mas bolas, numa época em que existe material de captação bom e barato, isto não deveria ocasionar um post. E o problema é que deixei de ter vontade de ir gastar dinheiro e ver um filme nacional.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

oitenta e quatro

Adoro jardins, a melodia do vento a passar por entre as folhas. Se calhar gosto é do vento num jardim e aproveitar as sombras aqui e ali. Ou então gosto é de sombras, quanto mais frescas melhor, pois não gosto e não me dou bem com calor. Não sei de onde vem esta minha aversão ao calor mas qualquer coisita acima dos 22, 23 graus já me incomoda. Não é que goste de andar cheio de roupa pois prefiro uma t-shirt, calças leves e um par de ténis, mas tal como tenho calor acima da temperatura mencionada também só sinto frio abaixo dos 10 graus. Ou seja, sou um fulano equilibrado.

É isso. Sou equilibrado.

domingo, 30 de agosto de 2009

oitenta e três

Após longos anos descobri a adjectivação ideal para dois tipos de gente que abomino e de quem tento, muitas vezes com esforço inglório, afastar-me. São as LF e as LS. Curioso como olho agora para quatro simples letras, uma delas até repetida, e percebo quanto demorei a encontrá-las. Mas acho que valeu bem a pena e vamos a isso!

As LF são as Lagostas Fingidas, gentalha que se queixa de tudo e mais alguma coisa como a gripe, a crise, o ponto de cruz, o souflé que não subiu, dos litros que o carro gasta, do preço sobrevalorizado do espumante champanhês, da disparidade de valor de uma salada de rúcula do Pingo para o Apolónia, do povo que está na praia que há vinte e tal anos era sua pertença, do sol que está forte, da nuvem que se coloca mesmo defronte do astro-rei, dos noticiários que só passam tragédias, da falta de elementos trágicos durante o Verão, da celulite das socialites, dos cremes que essas recebem de borla dos seus amigos cabeleireiros um bocado larilas, dos gays que estão ali mesmo à frente e dos corpos esbeltos que muscularmente exibem. As LF estão sempre descontentes mas há uma enorme diferença entre a LFH e a LFM, simples e directos sub-grupos. O Homem é mais desgraçadinho pois fala muito sobre as tragédias do emprego que ainda tem, sabe-se lá porquê. A Mulher vive apenas desgraçadamente exigindo ao seu H mais empenho, objectivos, capacidade de liderança e de trabalhar com espirito de equipa porque para o ano que vem aí mesmo já ao virar da esquina, precisa de uma temporada de liftings e upthings, solário e massagens, tai chi e tuchi e taiquemori para fazer boa figura no tchin-tchin… que só viverá com as amigas da mesma laia.

As LS são as Lagostas Suadas, gentalha que só se queixa do enorme esforço que dispende diária, mensal e anualmente para poder pagar todas as contas dos seus 2,3 filhos, 1,4 imóveis, 2.0 veículos automóveis ou outros, 12+2 mensalidades x X (veículos, imóveis, escolas, atls, ginásios, seguros, time-sharings e ….. – colocar o que falta pois não tenho paciência-), que o governo não presta mas vale mais que uma alternativa que não presta, que vota Isaltino, Felgueiras e demais mesmo sendo cúmplices (e vitimas) dos seus crimes, que acha graça às namoradas do CR7/9 mas repudia a falta de formosura dos elementos femininos da sua família, que o Beemer do vizinho tem um facelift mais actual que o seu modelo, que o pão cozido depois de congelado é mesmo muito mau mas já não há outro e que, raios partam isto tudo, a crise não há meio nem fim.

Agora que vos expliquei o que são LFs e LSs e as razões que me obrigam a fugir a sete pés, perguntar-me-ão se eu próprio não penso algumas destas coisas. E sim, claro que sim! Sou português, eterno insatisfeito, sebastiasnista e por conseguinte, atolado em tudo o que não tem importância alguma.

Como disse o outro e reforçando, se me é permitido, com o meu toquezito, “bolas pá, façamos o favor de ser felizes cum catano!Arrrrrrrrrrrrrrrrrreeeeeeeeeeeee!”.