quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A greve é só para animais racionais...



Imaginemos a vida na terra azul se, num dia, alguns animais decidissem fazer uma greve geral.
Por exemplo, as abelhas.
Um dia de esquivanço laboral, faria com que o equilíbrio terrestre conhecesse sérios danos. A polinização falharia e, consequentemente, toda a natureza sofreria o abalo, com a agricultura em destaque.
Mas as abelhas são bichos trabalhadores, habituados a uma férrea disciplina.
Não estou a vê-las aderirem às ordens sindicais.

Existe um outro animal que é repelente para muitos humanos e adorado por outros tantos. A osga! É verdade, essa lagartixa de várias cores e que surge geralmente agarrada à parede exterior da casa bem perto de uma lâmpada acesa, é um dos nossos principais aliados para a qualidade de vida. São elas que comem as traças, baratas, mosquitos, moscas e, até, aranhas, que tanto nos incomodam.
Ora se as osgas - principalmente a bem portuguesa osga-moura - optassem por manifestar-se contra os nossos maus tratos e não se alimentassem durante 24h, imaginem a noite mal dormida que sofreríamos, devido aos constantes zumbidos e dolorosas picadelas.
Também não as vejo em piquetes de greve.

E as vacas leiteiras? Um dia apenas sem produzirem, esgotaria os stocks de leite, queijos e iogurtes, bases alimentícias diárias para milhões e milhões de seres humanos e outros animais. Toda a pirâmide alimentar se inverteria, os mais petizes teriam que ver a mãe a misturar o pó Nido com água, os jovens ficariam sem a dose diária de cálcio, e os mais idosos não poderiam demolhar a torrada ou bolacha Maria.

E o que dizer do peixe, que se recusaria a ser apanhado? Basta ir ao supermercado a uma segunda feira, para perceber que a frescura e a abundância se escapariam por entre os nossos dedos.

Poderia continuar a enunciar a Arca de Noé, mas parece-me que bastam estes exemplos para se perceber que fazer greve não é para todos.
Há que reflectir nesta verdade, tomar alguns apontamentos, elaborar estudos científicos e encontrar verdadeiras soluções para atacar os graves problemas que alguém provocou e alimentou.

Se continuarmos nestas verdadeiras andanças, de piquete em piquete, teremos o mesmo fim que os grandes dinossáurios... e nem será preciso um degelo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A idade do armário que de madeira passou a contraplacado.



É interessante falar, por vezes até conversar, com petizes que entraram na idade do armário.

Se à minha época, esse armário era a figura estilística encontrada para descontar os silêncios, as permanências exageradas no quarto e a cabeça cabisbaixa às horas de refeição, hoje as coisas mudaram um bocadito.

Os petizes andam enraivecidos!

Terão razão? O mundo mudou assim tanto?
Bom... talvez.
Antes, os traquinas mostravam com evidente orgulho as primeiras penugens faciais, sempre ridículas e imberbes.
Aqueles parcos e afastados pelos, entre o nariz e o lábio superior, formalizavam a passagem para a idade adulta.
O que fazem hoje? Ao primeiro sinal de crescimento de um qualquer pelo em qualquer local do corpo sem ser no alto da cabeça, vivem a urgência de rapá-lo, queimá-lo, puxá-lo, destrui-lo.
Se antes a mãe e o pai não permitiam qualquer desvio no guarda-roupa adequado à sua classe social, como por exemplo os Le Coq Sportif, os jeans Wrangler, Lee ou Lois, o pólo Lacoste ou Coronel e o pullover Sidney numa gama média/alta, hoje os putos mandam nas suas escolhas. Ou pensam que mandam, pois pelo que parece, o andar vestido com calças que caem até aos joelhos, sweats com capuz, ténis sem atacadores e phones constantemente nos ouvidos, são uma espécie de fardamento obrigatório, como se de uma bata ou bibe se tratasse.
Conclusão: nem antigamente nem agora a vida foi e é fácil. Temos um empate.

No campo feminino, as modas surgiam e desapareciam em catadupa. Quem viveu o liceu nos 70/80, nunca se esquecerá das calças de bombazine extremamente justas até ao joelho que depois alargavam até tapar o calçado. Ou das botas de pele de carneiro, os anoraks e kispos.
Hoje elas dizem-nos... aliás, gritam-nos, que têm de ter aquela roupa, e aquela, e aquela outra, e mais aquela e morrem se não tiverem aquela ali da montra. O problema é que a montra agora é global - chamam-lhe internet - onde encontram a cor que a amiga não tem e o modelo que ainda não chegou a Portugal.

Em termos de vivência sexual, as coisas também “mudaram” muito. Se antigamente havia as curtes, hoje há os enrolanços. A actividade sexual era vista como o passaporte para uma atitude mais adulta, hoje é “a” questão que engloba todas as conversas, sms e chats. Antes, era impensável ter mais que um “namorado”, hoje é impensável ter apenas um. É de cota, isso.
Conclusão: nem antigamente nem agora a vida foi e é fácil. Temos um empate.

O mais interessante é reparar nos actuais petizes quando não conseguem a roupa, o MP3, o telemóvel com redes sociais, o bilhete para o concerto ou a saída nocturna durante todo o fim de semana.
Chegam a casa, remetem-se e nos para o silêncio, permanecem exageradamente no quarto, forçam-nos a aceitar a cabeça cabisbaixa às horas de refeição e respondem mal.

É essa a única diferença para connosco: é que são mais arrogantes, malcriados, altivos e parvos, não conseguindo aceitar que nós já passámos por tudo isto.
O que mudou foi o simples acto de ouvir.
Nós ainda ouvíamos os conselhos ou sermões.
Eles ouvem os decibéis que abafam qualquer bom senso.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Manifesto contra os projectores de vox populi



Existem dois tipos de manifestações: as sociais e individuais.
Confesso a minha aversão ao primeiro grupo. Não gosto de manifs, não as frequento, não as defendo e, geralmente, estou contra quem as promove.
Uma manif é quase sempre nacional, como se replica pelos altifalantes, e geralmente engana o associado. É raro resolver alguma coisa, provoca desacatos, alguns tumultos, muitas reportagens televisivas e erros aritméticos.

Se por um lado as centrais sindicais promotoras afirmam sempre que Portugal inteiro aderiu, por outro estão os dados estatísticos que demonstram que os números são exagerados em muitos pontos percentuais.

Mas, realmente, o que é uma manifestação anunciada e agendada?
Para os mais desesperados, é uma forma de gritar, de mostrar descontentamento. Para muitos que ainda têm emprego, é um passeio, muitas vezes combinado como se fosse uma romaria ou uma flashmob.
“Amiga, vamos à manif?”
“Vamos pois. Tenho é de ir comprar uns trapinhos novos. Queres vir comigo e depois lanchamos no Chiado?”
“Olha, belo programa. Deus queira que não chova, pois já marquei o cabeleireiro.”

Uma manifestação deveria contar para alguma coisa. Para mudar qualquer coisa. Ora se os aderentes votam sempre nas mesmas cores, mesmo depois destas serem o principal motivo da desgraça, qual é o interesse da caminhada?
E porque é que as frases de ordem são as mesmas desde a revolução?
Será a repetição a fórmula encontrada para provocar uma mudança de mentalidades? E o que dizer daquele som fanhoso e metálico dos horrorosos altifalantes que ampliam as vozes de quem os segura?
Bolas, a tecnologia evoluiu...

Mas há manifestações que me agradam.
As de carinho estão em primeiro lugar.
Que bom recebê-las e oferecê-las de volta.
Essas sim, mudam alguma coisa: fortalecem uma ligação, alimentam uma paixão.

Ainda não sei se a minha cara metade vai à manifestação anunciada como a maior de sempre. Mas se for, uma coisa prometo!
Em vez de gritar palavras de ordem, como “Ainda acreditas nessa gente?”, “Mas porque é que ainda vais em contos de fadas?” e tantas outras, vou aguardar o seu regresso, manifestando o meu carinho com um chazinho bem quente, uma manta aquecida e pastilhas para a garganta.

Ela manifestar-se-á agradecida, tenho a certeza absoluta!
E depois de uma noite bem dormida, quem ganhará alguma coisa no dia seguinte... serei eu.




quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Uma semana em que a animação é social.



Durante estes dias, os egos dos facebookers transformaram-se em retratos que animaram a sua juventude. Encontramos de tudo, desde o Speedy Gonzalez até uma ninfa do Manara, várias Mafaldas que acompanham inúmeros Corto Malteses.

O Facebook está uma animação!

Tudo começou com uma mensagem simples que muitos reproduziram, um pedido para alterar a imagem normal para uma qualquer que definisse a tenra idade de quem escreve neste meio social.
A princípio, confesso, não acreditei que fosse um sucesso, mas neste preciso momento, raro é quem não seguiu a ordem.

Ora como também fui um deles, recebi mensagens pouco abonatórias de quem não percebe nem entende este momentum, como também outras que já me obrigaram a mudar de personagem.
O ter escolhido o vilão Olrik da saga Blake & Mortimer, encheu a minha caixa postal com pedidos de esclarecimento. Para não perder mais tempo a explicar quem é o sujeito, alterei para o Homem-Aranha, para sempre o meu personagem preferido da gama super heróis. Finalmente, decidi colocar a minha própria cara... mas animada.

Confesso que me tenho divertido com toda esta história. Não porque o FB está mais colorido, não porque deixei de saber imediatamente quem coloca mensagens, mas sim porque existem lutas tremendas entre uma certa intelligentsia lusitana.

Há agora uma luta de classes, a que nos remete para figuras globais (Tintin, Lucky Luke, Mafalda, Marretas e etc.) e a que nos demonstra que a BD sempre foi uma arte mais adulta (Ran Xerox, Manara, Moebius, Rotundo, etc.).
É este segundo grupo que trava uma guerra sem quartel, demonstrando a tal cultura que sempre os diferenciou quando usavam botas ortopédicas e óculos de massa.
Num repente, os geeks dos anos 70 são agora pintas nos 10.

É uma vingança, mas cheia de animação.

Confesso um sorriso.
E confesso também uma boa gargalhada quando alguém se lembra do Marsupilami ou do Ric Hochet, assim como do Metabarão ou do ciclo de Cyenn.

Qual é o mal disto e porque é que algumas pessoas ficam tão enervadas, não querendo embarcar neste mar de traços a carvão e cores abertas, sonhos criativos e mundos paralelos?

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Um doce que vem com o frio mas que aquece quem não o quer.



Tenho para mim que os doces são guloseimas que, na medida certa, fazem um bem danado à alma, ao mesmo tempo que alimentam os sentidos e acalmam um certo tipo de urgências.

Também sou homem para gostar de comer um chocolate de vez em quando, mas prefiro gelados. Adoro gelados, de qualquer tipo ou marca, vindos em pacote, com pauzinho ou bolacha. Bombons é que dispenso. E afasto-me de alguns que só surgem na pré-época natalícia. É que não confio na pretensa sazonalidade.

Passo a explicar: se posso comprar e comer um chocolate em qualquer altura do dia ou do ano, porque raio existe uma marca que coloca dois dos seus produtos à venda apenas nesta altura? E, para além de repetir o conceito já gasto do Ambrósio até à exaustão, massacra-me com a mensagem de que só surgem nesta altura porque sim, porque estão na mais perfeita das condições, porque não são compatíveis com tempos mais encalorados, porque defendem o consumidor...

Porque é a sua publicidade tão agressiva e omnipresente? Porque raio é este bombom de aspecto fatela, com o embrulho douradinho e novo-pobre, uma obrigatoriedade de consumo? E porque tanta gente diz que gosta quando, na verdade, não o suporta? E porque é que só se faz publicidade a este, esquecendo-se o seu mano menos mau, que até tem álcool e tudo?

As plásticas embalagens do produto, talvez por apresentarem um preço não muito elevado, têm ainda um outro papel na nossa vida: destronaram as peúgas brancas oferecidas pela avó na altura das festividades. Natais houve que vi, incrédulo, alguém oferecer dezenas de embalagens idênticas a todos os presentes. E sabem que mais? Também as levou de troca, como se de comércio directo se tratasse.

Ora se alguém oferece 12 caixas e recebe outra dúzia, não vai ter tempo de consumi-las até ao Verão. Mais a mais porque, secretamente, não as gosta. Sendo assim, ou se arma em alarve e come tudo para não deitá-las fora, com a consequente indisposição e aumento de colesterol e triglicerídios,  ou arruma-as na prateleira mais acima e esquece-as até à limpeza semestral.
Quando as redescobre, apercebe-se, cheia de calor e afrontamentos e no meio do pó levantado, que, afinal, estes bombons retêm o mesmo aspecto e, quiçá, o mesmo sabor. Conheço quem experimentou e garanto que não pereceu.

Portanto, a questão da sazonalidade poderá ser... falsa! Ou seja, publicidade enganosa. Uma falcatrua das antigas.

Só acredita quem quer.

O meu trabalho, que acorda uma dúvida no consumidor, está, assim e aqui, feito. Um simples alerta para esta verdade e que esconde um singelo pedido: não me ofereçam isso no próximo Natal. Lixo em casa já eu tenho... muito.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

De mão em mão e de boca em boca até ao regresso.



Há qualquer coisa de muito estranho no manuseamento de tupperwares. Quem de nós já não comprou, ou recebeu de oferta, um conjunto dessas fantásticas caixinhas plásticas, multicolores e com tampas simples, com ou sem ventilação?
Quantos de nós já não as usou e reutilizou vezes sem conta, confiando-lhes o preparo gastronómico que sobrou da refeição? E onde guardamos as fatias de flamengo ou fiambre? E a sopa da mamã? E tantos etc.

Os tupperwares são um ajudante de campo, um braço direito sempre às ordens. São divertidos, funcionais e têm dimensões que nos facilitam a sua arrumação ao lado ou no topo de outros que contêm restos da nossa vida alimentar.

Sendo assim, porque não os tratamos com o máximo respeito e carinho? Porque carga de água os emprestamos à visita que comerá parte das sobras do jantar de hoje, que tanto agradeceu e comentou, ao almoço de amanhã?
Porque é que os entregamos às cegas, confiando que um dia, o mais depressa possível, regressarão ao nosso lar para reconquistar o seu lugar de direito no armário junto ao fogão?

A questão obrigatória impõe-se: sabem onde estão as dezenas de tupperwares que emprestaram ao longo da vida? E de quem são aqueles dois que temos para ali arrumados? E estes, que a mãe jura que são nossos e a que já nos fartámos de responder que nunca na vida compraríamos caixas com desenhos e florezinhas estampadas...

Não vale a pena.
Os tupperwares são como os isqueiros Bic. São nossos, dos amigos, dos familiares. São de toda a gente, não pertencem a ninguém. Visitam casas e vidas. Estão aqui e ali durante um tempo, nunca muito longo, e desaparecem da nossa vista para sempre.

De vez em quando, e com muita sorte, redescobrimos o Bic esquecido ou guardado longe da nossa vista, numa segunda e muito próxima visita. E o que fazemos? Escondemo-lo imediatamente no nosso bolso, com vergonha de sermos apanhados, como se estivéssemos a roubar o pertence de outrem.

Saímos com um misto de vergonha e conquista, apalpando a algibeira onde está resguardado o isqueiro. Mas, lá no fundo no fundo, o que queremos mesmo é apanhar adormecidos os donos da casa, e assaltar o armário junto ao fogão, para escolher, um a um, os 14 tupperwares que lhes fomos emprestando ao longo de uma década de jantaradas.

Isso sim, o seu a seu dono.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Hip...nose em tons rosa e azul



Uma palavrita com duas letritas, pode esconder um sem número de significados.
Há, portanto, que ter algum cuidado na sua utilização.
Vou dar um exemplo: “Pó”.

Ora o pó pode dar um trabalhão a quem lhe é alérgico, pois não é de fácil remoção e ainda por cima está minado por esse bicho asqueroso que é o ácaro.
Este tipo de pó faz mal à saúde, causa alergias e espirros, inflamações no nariz, garganta e brônquios. É nefasto para os asmáticos e para os mais jovens e seniores entre nós.

Por outro lado, temos outro tipo de pó que geralmente alcunha substâncias que alteram o comportamento psíquico e físico de quem o absorve. Os mais incautos chamam-lhe droga, mas há quem saiba diferenciar o pó da droga mais comum, ao pó de anjo, denominado por acaso de PCP. Este último parece o que não é. Por exemplo, os efeitos que se procuram, alucinações tipo LSD, não passam de uma cópia mal feita, tipo daquelas de Sacavém. Mas o frenesim é semelhante a muitas outras drogas, como o rubor facial, o suor profundo, o maldito formigueiro nas extremidades e a perda de coordenação. Não é, concordemos, a melhor figura que poderemos fazer.

Mas existe um outro pó mais nefasto, horrendo e que nos exige a imediata contra-acção, seja através de posts no facebook (causas, alertas, pedidos), o passa-palavra, até cartas ao Provedor.
É o PÓ...POTA! Dois pós numa palavra de três sílabas!
Um pó que junta todos os problemas enunciados nos dois acima, mas com agravantes:
O Popota cria erupções cutâneas, calvice nervosa. Provoca surdez e perda de razão. Acorda-nos os abafados sentidos guerreiros e um justificado aumento de adrenalina.
Este maldito bicho, ou bicha, ataca-nos no final de cada ano. É vendido nas mais variadas cores, mas tem como principais a rosa e o azul turquesa, o que sugere alterações químicas bem conhecidas de outras décadas.
Enquanto nos hip...notiza como sendo um produto infanto-juvenil, balanceia as suas redondas formas ao som de uma das mais temíveis músicas do século passado, que teve o título “daddy cool”.

Não brinquemos... vestes ousadas, ancas bamboleantes, poses sensuais misturadas com um tema que alerta qualquer encarregado de educação, mas alterado para "pó... popopota, pó...popopota" em vez de "daddy...daddycool, daddy...daddycool", é, talvez, o exercício mais pornográfico que existe e que passa nos nossos ecrãs às horas em que os petizes estão a ver Tv.

E, depois, queixemo-nos que eles querem viver a vida o mais rápida e urgentemente possível...
Tenham pó... aliás, dó!


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A sopa de cavalo dado, não se olha o dente de leite.



Com o aumento previsto do IVA para uns inacreditáveis 23% em alguns produtos de primeira necessidade, resta-nos sentar e fazer contas à vidinha (isso de ter uma vida já foi chão que deu uvas).
De todas as medidas, uma há que exaspera jovens, adultos e idosos, que é o badalado aumento do leite com chocolate, essa mistura catita que tonifica a alma e presenteia o palato com muito Vigor. É, resumidamente, uma bebida Mimosa.
A situação é ainda mais anedótica quando sabemos que o vinho continuará a pagar os mesmos 13% de IVA, não sofrendo qualquer alteração no seu corpo e cor.
Ora esta situação leva-me a tempos idos, da outra senhora, altura em que a nação era pobre e inculta e em que se proferiam palavras que tinham muito peso, como honra, honestidade, ultramar e, até mesmo, mocidade portuguesa.
Nessa mesma altura, era proibida a venda e consumo de coca-cola, por exemplo.
Raio de tempos esses, em que uma criança era obrigada a tomar um pequeno-almoço denominado “sopa de cavalo cansado” para ir quentinha para a escola, calcorreando dezenas de quilómetros ao frio e relento, de madrugada, para depois ter de fazer todo o percurso inverso até casa e ainda ajudar na lida da mesma.
Todos nós criticamos essa mistura venenosa e que fazia mal aos petizes, pois a sopa de cavalo cansado consistia em pão demolhado em vinho tinto, algo que se pensava fortificante. E, hoje, nenhum pai ou mãe ousa sequer pensar nessa solução matinal para o seu próprio filho.
Mas os tempos mudam, o governo mantém-se, e o IVA dispara.
O leite com chocolate ficará arredado do cabaz mensal de uma família média, e ao ritmo a que as escolas fecham por todo o pais, principalmente onde mais fazem falta, chegamos a uma simples conclusão:
Andámos meio século para trás! E isto quando já estávamos atrasados 25 anos em relação à Europa. Portanto, são 75 anos a marcar passo.
Amanhã, os petizes sairão de casa com a barriguita bem cheia de tintol (13% de IVA) e percorrerão dezenas de km para chegar à escola (+ de 700 fechadas este ano).
Ah.... mas transportarão um peso acrescido: chamam-lhe Magalhães. 
Viva o pro... Gresso.


PS: TALVEZ DEVIDO A ESTE ESCRITO, O GOVERNO DECIDIU NÃO AUMENTAR O IVA NO LEITE ACHOCOLATADO.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

sexo



Num dos principais fóruns de think tanks portugueses, um que ainda exige convite para se entrar, está uma gentil rapariga a questionar “o que dizer ou fazer para que os seus posts tenham muitas visitas”.
De início pensei que era um truque para apanhar os mais afoitos numa qualquer teia. Esperei então pelas respostas. Nada. Depois pensei, como a resposta é lógica demais, que todos os membros do clube a sabem bem e não entendem como é que uma donzela pode ser tão ingénua. E acho que é por aqui.
Ao fim de tantos anos nestas andanças da net e dos fóruns e quejandos, todos sabemos que um título para ser famoso, e por conseguinte ser clicado vezes sem conta, tem de conter a palavra sexo. “Sex sells”! E sai reforçado se o autor for do género F.  Sexo escrito por uma donzela é quase sempre sinónimo de um velado convite para se entrar num quarto escuro, onde tudo poderá ser possível, onde os desejos e algumas taras poderão ser correspondidos.
Logicamente que, e dependendo dos canais, o sucesso de um escrito deste género pode conhecer tanta fama que promova a autora a escritora imediata, ou apresentadora de programas televisivos, ou reputada ensaísta ou, ainda, cronista da praça. Vejam-se os vários casos de blogues que passaram a livros, para citar um exemplo. Portanto, há quem pense que é um caminho rápido para subir a escada da fama, sem passar pela meta e receber dois mil escudos (sim, tenho uma versão antiga do Monopólio). Mas essa conclusão é errada.
Tal como afirmámos que era impossível a televisão descer mais baixo após o “big brother”, fomos logo açoitados pelo “bar da tv”, o Mendes como líder contínuo de audiências e demais exemplos que magoa relembrar. E o que temos hoje? A “casa dos segredos” e o tal programa da Fátima que paga as dívidas dos coitados que se prestam à humilhação pública.... mas com um sorriso galhardo na face.
Com o sexo passa-se a mesma coisa: se tivemos um “na cama com” a Alexandra, depois outro de que não me lembro do título com aquela fulana que casa e descasa como eu troco de t-shirt, agora somos confrontados com especiais sérios que relatam os malefícios de uma vida dedicada à actividade sexual, a Sic Radical a mostrar-nos tudo, mas mesmo tudo, antes da meia noite, criticas aos lançamentos (e conteúdo) de títulos em DVD que uma rapariga faz no canal Q, ou o Malato a questionar um jovem católico se existem raparigas que se prostituem por prazer. Ou seja, nunca o sexo desceu tão baixo (evitem relacionar esta frase com o que vos vai na cabeça).
Portanto, se hoje uma senhora quiser escrever ou falar abertamente sobre a causa, será obrigada a encontrar novas soluções para se destacar da concorrência, que é feroz e contínua. Os canais estão abertos, as portas escancaradas. Andamos num vaivém contínuo em busca do santo graal, sabemos tudo sobre o clitóris, prepúcio ou escroto, o bondage é aceite assim como o swing. Então como se destacar das demais?
O meu conselho é simples: keep it clean and simple! Ou seja, escreva no título do post apenas a palavra “Sexo”. Verá, gentil donzela, que muitos lhe irão clicar.
Veja o que vai acontecer com as visitas a este...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Os dramas de um escritor no Séc. XXI



Como muitos outros que passaram ao lado de uma carreira artística, também cheguei à idade em que posso tentar ser escritor. Será a última das artes performativas e solitárias, a par da escultura e pintura, em que um cidadão menos jovem pode ainda ousar ser uma criança.
O mais engraçado nesta conclusão, é que sempre fui rodeado por sinais que me indicavam este caminho. Aos 20 queria fazer filmes mas era jornalista, aos 30 fui músico mas também copywriter. Ou seja, sempre que tentei uma outra arte, com ou sem sucesso, estava paralelamente com os dedos ocupados a pressionar teclas alfanuméricas. E reparem que até tentei enganar o destino, pois as outras teclas dos vários teclados que usei, eram pretas e brancas, tal e qual as teclas brancas de um teclado de escrita com inscrições a preto. 
Comecei com pesadas, e de ferro, máquinas de escrever, ainda com teclado Hcesar. Talvez seja devido à enorme força com que se tinha de pressionar uma “letra”, que ainda hoje só escrevo com os indicadores: é que o impulso e movimento rápido necessários, quase que se assemelhavam ao lançamento de uma bola de baseball.
Uma das minhas grandes alegrias foi quando paguei, com muitos contos de réis, a minha primeira máquina de escrever electrónica. As teclas já eram suaves e podia escrever uma ou duas linhas na memória embutida, revendo os erros num pequeníssimo ecrã lcd, antes de dar a ordem para impressão na folha de papel.
Fui feliz e, confesso, muito mais rápido. E também deixei de gastar corrector.
Os tempos foram mudando a tecnologia e, como sabemos, os computadores vieram tomar o lugar dessas maquinetas fantásticas que tanta obra-prima deram a ler. Contudo, muitos escritores preferem escrever à mão, enquanto outros se recusam a trocar a sua centenária máquina de escrever, pela facilidade de um computador.
Como os compreendo...
Passo a explicar:
Hoje acordei ao meio da manhã. Duche e pequeno almoço. Subi o andar para o escritório. Liguei o computador e sentei-me defronte. Chequei os emails e respondi a vários, liguei o Facebook e escrevi uns posts, li as notícias no iGoogle, liguei o Linkedin para aceitar mais uma amizade profissional e respondi às mensagens do The Star Tracker. Num repente, chegou a hora de almoço. Regressado do tasco vizinho, respondi aos emails que tinham respondido aos meus. Re-consultei o FB antes de escrevinhar um slogan e um texto para um anúncio de um cliente. Um amigo nos Estados Unidos ligou-me pelo Skype e ficámos na conversa durante uns largos minutos. Logo de seguida, o telefone tocou: o agente literário perguntava pelos seguintes capítulos. Respondi-lhe que ainda os enviaria hoje. Abri a página em branco do Word mas nada me vinha à cabeça e decidi não stressar, jogando um solitário no computador. Reabri o Word, continuava branco. Vi um episódio de um seriado preferido que tinha acabado de "chegar". Chequei novamente os emails, o FB, o Linkedin e o TST.
Num repente, fez-se luz! Tinha a ideia para terminar mais um capítulo.
Já não temia o cursor a piscar na folha de texto e, quando apontei os dois indicadores ao teclado, a electricidade foi cort...

domingo, 31 de outubro de 2010

A casa dos gordos que escondem magros segredos



Confesso, e porque tenho uns quilos a mais, dou por mim a ver os episódios dessa telenovela desagradável à vista que é o “The Biggest Looser”. Talvez seja para me sentir melhor na minha pele, pois não sou assim tão vasto, ou para tentar auto-convencer-me que preciso de dieta e ginástica afim de garantir resultados semelhantes.
Estes participantes escondem um segredo: é que odeiam ser gordos, por muito que sejam simpáticos e bem dispostos e que mimem os adversários com profundas declarações de amor, aquando a expulsão de um deles.
Num outro continente, está a decorrer uma telenovela cujos participantes também escondem segredos. Intitulada “A casa dos segredos”, estes são em tudo diferentes dos anteriores, pois em vez de exibirem banha, mostram músculos e tatuagens.
Nada podia ser tão diferente, mas os dois programas/concursos têm um factor comum: todos os intervenientes surgem em trajes menores que exibem a maior parte possível de pele e carne. Mas as coincidências não se ficam por aqui. Em ambos os shows televisivos, a carne que se nos apresenta é ...para canhão.
Os segredos, as manhas, as vigarices e os esquemas, fazem parte dos dois jogos, só que chamam-lhe “estratégia”.
Portanto, malta semi-nua, gorda ou musculada, são os novos estrategas ao Serão, que nos ensinam golpes baixos, sujos, mesquinhos e traiçoeiros, tudo em busca de um prémio monetário na precisa altura em que o dinheiro não abunda em lado algum.
Podemos olhar para os programas e decidir que um é menos mau que o outro. Eu já decidi! Perdi uns 15 minutos a assistir a vários segmentos da casa que esconde segredos, mas continuo a ver, quando me lembro, o programa em que se filma o esforço físico e psicológico. A razão é simples: é que enquanto estes portugueses farão sempre parte da escória e mete nojo da nação, os americanos vão deixar de sê-lo, pois passarão de sapos a príncipes e princesas. 
E, convenhamos, sabemos bem o que chamar aos intervenientes do programa da Júlia, e nunca será um epíteto nobre.

sábado, 30 de outubro de 2010

Acordar um acordo acordado pelo desacordo


Há pessoas que concordam e outras que acordam.
As concordantes são, geralmente, as que mais discordam de tudo o que não seja a sua opinião, vontade ou objectivo. As que acordam são as que estão, muitas e demasiadas vezes, adormecidas. No caso das primeiras, chegar a uma concordância implica cedência. Já para as segundas, o acordar dá-se, invariavelmente, tarde. E nem a cafeína ajuda.
Enquanto que o primeiro grupo se desfaz em acusações, avanços, recuos, mudanças e assinaturas, o segundo mantém-se mudo, quedo e só quer mesmo, na maior parte dos casos, voltar a adormecer.
O mundo seria mais justo se todos concordassem e chegassem a conclusões satisfatórias e positivas. Tenho a certeza que, se tal acontecesse, os adormecidos olhariam o novo dia sem ramelas, mas com vigor e vontade, destreza e novas capacidades.
O objectivo pode ser geral, mas parte sempre de uma noção particular. Se calhar, já é tarde para acordar. Mesmo depois de alguns concordarem que esse não é o melhor estado para se sobreviver. Mas de estado em ...estado, todos, sem excepção, vão adormecendo quem estava acordado porque, e sejamos sinceros, nenhum discorda que um outro, que luta contra a sonolência, lhe pode ser nefasto.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O GPS esconde um director de campanha política




Tenho para mim que o GPS, esse aparelhómetro que ajuda pessoas como eu, eterno alfacinha que se perde quando chega à Amadora ou tem de ir a reuniões na Quinta da Fonte e think tanks similares, é um instrumento politico que nos apela ao sentido e obrigação cívica de escolher um dos lados do espectro político-partidário nacional.
Durante uma viagem, somos constantemente agredidos, por uma voz masculina ou feminina, para virar à esquerda ou à direita. Podemos seguir em frente durante um bom bocado, mas inevitavelmente, seremos obrigados a escolher um lado daí a uns centenas de metros ou quilómetros.
Se já não é fácil guiar num país que tem os maiores pilotos do mundo de estrada, para já não falar dos taxistas e de ambulâncias desgovernadas e, nunca esquecendo, peões kamikaze, pombos adormecidos e cães e gatos desorientados, ter uma voz alarmista que nos obriga a virar na próxima saída a 200 metros para um dos lados sem ter a noção do perigo e risco que essa manobra implica, é no mínimo, um completo e profundo exame às nossas capacidades psico-motoras.
Naturalmente, o software português que vem de origem nos GPS, conta com a nossa arte do desenrascanço. E este mesmo software foi a escolha de outros países, como a Turquia, Índia, Grécia e partes da Itália, quando perceberam que os condutores aumentam o volume do auto-rádio para abafar as ordens da maquineta, pois é uma vergonha para qualquer macho receber instruções e direcções, mas que, mesmo assim, ainda os ajuda muito de vez em quando.
Se fizermos o paralelismo para com os governantes, também o português médio escolhe a TSF para o ajudar a passar o tempo perdido nas filas de trânsito. Vai, assim, ouvindo as notícias sobre mais medidas impopulares e as repetidas entrevistas aos candidatos a qualquer cargo público, que se misturam com as tais ordens de viragem à esquerda ou direita. Podia ser confuso, mas não é. O português é teimoso e sabe a direcção que deve tomar, independentemente se for ou não a melhor para o resto dos condutores, passageiros ou restante população. E mesmo se a voz repetir que tem de voltar para trás logo que possível, ele está-se borrifando. Só lhe interessa o seu percurso e a sua noção do que é verdade. Que se dane se é melhor virar para um dos lados para chegar mais depressa a uma solução, leia-se destino. Se ele decidiu desde pequenino que vai virar à esquerda, virará sempre à esquerda, mesmo que o GPS lhe diga e repita que pela direita é o caminho mais acertado. O problema são as rotundas...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Manual de etiqueta em como ser-se bom vizinho



Vizinhos barulhentos...
Eu tenho.
São vários dentro de uma casa que de pequena nada tem.
Poderiam escolher uma das múltiplas divisões para gritarem uns com os outros. Mas não.
Escolheram a janela mais próxima da minha varanda para sala de estar, onde reuniram todos os apetrechos modernos: Televisor, Playstation e Singbox, Computador e colunas, etc.
Todos os dias, pelas 18h, dá-se início a um festival rocambolesco e histérico. Geralmente dura duas horas, até a telenovela começar, ou outro qualquer programa de teor mais popular.
Esta família conta com a sogra, o marido escanzelado, a mulher e mãe que deve ter sido catita antes de ter casado e parido, e três fedelhos.
São os fedelhos que fazem barulho. O mais velho, que saiu à avó, sugere não ter a totalidade da capacidade intelectual. Mas quando oiço as conversas no messenger, ao máximo que as colunas suportam, percebo que é somente muito parvo. Este é quem mais grita. Sobre tudo, futebol, jogos de computador, porque não gosta da comida, não gosta da escola, não gosta dos professores, enfim. Só gosta, e muito, do Sport Lisboa e Benfica.  Aliás, o momento glorioso da sua vidinha é um jogo transmitido pela Tv. Aí, pasme-se, faz-se um silêncio sepulcral naquela habitação.
No meio está outro fedelho. Saiu ao pai, de tão franzino e irritadiço. Já está de mal com a vida e ainda não concluiu a primeira década. É este que absorve mais de metade dos watts difundidos pelo mano. E ficar surdo não lhe vai servir de nada, pois também deverá ficar desfigurado, já que, de vez em quando, lhe é atirada qualquer coisa dura. E algumas fazem um som surdo, nada quebradiço como um vidro no chão, seguido pela choradeira que abafa qualquer apito de comboio ou alarme para evacuação de uma fábrica.
Os diálogos entre os manos são incompreensíveis. Comunicam por gritos, uns mais prolongados (como a raiva e o choro), outros mais incisivos (ordens, calão).
Nunca, mas mesmo nunca, lhes ouvi uma conversa.
Os pais só encontram forças para tentar calá-los, quando se apercebem da minha presença na varanda, fumando um cigarro ou tentando apreciar o meu rio. Mas tenho de estar lá fora! Convenhamos que, quando chove ou faz frio, não é agradável e eles também não olham para fora, portanto, a gritaria continua.
No fim da tabela está a coitada da catraia. Saiu à mãe. Não lhe oiço a voz nem lhe vejo o tímido sorriso quando me encontra na rua. Mas, porque há sempre um mas, faz-se ouvir a alto e bom som das 18h às 19h, através do sistema de karaoke e das colunas acima referidas, que conseguem, inacreditavelmente, piorar o som das músicas da Floribela, distorcidas nos graves e médios. A júnior canta com toda a força. Já conhece as letras de fio a pavio, gosta de repetir os temas e não parece, nem ninguém da alcateia, importar-se com o inaudível som da distorção.
Todos nós temos vizinhos.
E estes têm um rafeiro de porte médio.
E o que é que os cães fazem? Imitam os donos. É ou não é?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A extraordinária arte da escolha no acto da compra.



É cada vez mais complicado viver neste mundo digitalmente moderno.
Se ainda ontem telefonávamos uns para os outros através de um aparelho pesado, preto e com 10 buracos numa circunferência móvel, hoje...

- Boa tarde, quero comprar um telemóvel!
- Muito bem, caro cliente. Tem alguma necessidade específica?
- Sim, telefonar...
- Posso indicar-lhe um modelo com sistema operativo Android?
- Pode.
- Ora aqui está um, mas vai na versão 2.1. A 2.2 está mesmo a saír.
- E por aí adiante, não é?
- Sim. Pode também optar pelo sistema proprietário da Blackberry.
- Mhhhh...
- Ou então os Nokia. Eles usam um sistema também próprio, o Symbian.
- Não gosto de Nokias.
- Pode então esperar um mês, pois vão ser lançados terminais com o Windows 7?
- Tive um com Windows 6.1 e não gostei.
- Pode sempre escolher um iPhone, é fantástico e totalmente diferente.
- Não pago 1000 euros por um telemóvel....
- Bom, tem todos os outros disponíveis, com interfaces de cada marca, uns touch, outros com teclado qwerty ou muitos outros mais simples. Temos também terminais com dois cartões sim, uns musicais, outros com grandes aptidões fotográficas...
- Olhe, vou pensar. Obrigado.

Fora da loja, retirei o actual do bolso. Olhei-o bem. Ainda é bonito, tem um ano. Possui leitor de música, câmara fotográfica, AGPS, Wifi, Bluetooth...
Mas porque carga de água entrei no estabelecimento?

A partir de hoje, nova vida no mesmo blogue.

É verdade.
Não mudei de vida (ainda) mas vou mudar este blogue, simplesmente alargando-o a outros interesses. Vai passar a ser uma completa confusão.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Convite

Venho propôr-lhes para visitarem e assinarem um blog que iniciei ontem, onde vou publicar textos que disse na rádio ou editei por aqui e ali.

Sei que não tenho vindo aqui, mas o tempo é algo que se me escapa por entre os polegares.
:)

Um obrigado e até já.

http://ocorvodelx.blogspot.com

quinta-feira, 22 de abril de 2010

cento e trinta e cinco

Um dia como o de ontem, em que obtive várias respostas de interesse para um projecto já com algum tempo e que, por não ser populista, conhece enormes dificuldades em vingar, fez-me abrir um sorriso franco e largo.
Pode não dar em nada, mas esses interesses vários demonstram, apenas e só, que pelo menos o que fiz tem alguma qualidade. É um bónus, uma mais valia. É aquele empurrão que dá mais um bocadito de força para continuar ou recomeçar melhorando.
E pensei cá para mim: "se chegar a bom porto, junta-se aos impossíveis que já fiz". Se esse dia chegar, olharei para o meu passado com mais orgulho e uma enorme ternura. E conquistarei a total certeza com que poderei, finalmente, aconselhar com mais alento quem me procura porque, por muito que o sonho seja alto, às vezes consegue-se lá chegar.

sábado, 20 de março de 2010

cento e trinta e um

Ontem tive que me vestir como as regras impõem, ou seja, socialmente correcto com calças cujo tecido condiz com o casaco. Mesmo assim, recusei a gravata o que é muito moderno e tal. Chegado ao local do convívio, todos me olharam e comentaram "estás tão bem vestido porque é que não te arranjas assim todos os dias?". Ora bolas, será que é difícil as pessoas perceberem que uns jeans e uma camisola são bem mais confortáveis que um fato? E se eu escolhi uma vida "artística", alguma da percentagem teve exactamente a ver com a possibilidade de me vestir como bem quero e não como me obrigariam por contrato ou dress code. Um áparte: o que me rio quando vejo as pessoas sorridentes à sexta-feira por causa da hipótese "casual"...
Mas escrevo isto porque ontem ouvi uma conversa entre alguns presentes, talvez por eu estar de fato, talvez porque pensavam que eu não estava a ouvir. A questão tinha a ver com o bom aspecto de um homem vestido com rigor ao invés de um homem que, como eu, prefere estar mais à vontade e, a meu ver, bem mais catita, moderno e original.
Fiquei atordoado. Então não é que as pessoas pensam que um homem de fato gasta mais dinheiro em roupa que um homem casual? Mas será que é possível estarem assim tão enganadas? Um fato é um fato, pode custar entre 100 a 500 euro. Depois uns sapatos foleiros pretos e de verniz, uma gravata, uma camisa branca e, presumo, umas cuecas e um par de meias. Ora tudo junto e sem poupar muito faz-se por 300 euro. Agora façam as contas a umas levi's (100€), uns Merrell (120€), boxers e meias (50€), cinto de cabedal (50€), uma t-shirt (20€), um casaco leve (150€) e etc. Já é bem mais oneroso e sem entrar em grandes marcas ou luxos. Mas agora é que são elas: um homem usa o mesmo fato uma semana inteira e ninguém aponta isso. Mas um tipo como eu, se surgir dois dias seguidos com o mesmo calçado ou casaco, é olhado com desdém. Portanto a roupa dita casual sai 700% mais cara que um fato que "fica e veste" bem.
Concluindo, o que parece não é.
Certo?

sexta-feira, 12 de março de 2010

Cento e trinta

Se houve alturas em que pensei que a minha já não tão jovem idade me atiraria à pobreza e solidão quando as minhas profissões fossem tomadas pelas castas mais jovens, hoje percebo que não é nem vai ser assim.
Tenho tido a sorte de acompanhar a vida de malta nova numa base quase diária, malta ainda no liceu e que vai ser o futuro deste nosso país e mundo. O que tenho visto e ouvido dá-me a noção que o país ainda vai precisar, e muito, das gentes da minha geração.
É extraordinário revisitar as palavras do meu pai e mãe quando eu estudava e tinha dúvidas numa qualquer matéria. A resposta era automática: "Filho, eu aprendi isso tudo e mais alguma coisa na 4ª classe, mas que raio de escola é a actual?" Ficava a olhar para eles sem perceber a necessidade de saber de cor todas as estações e apeadeiros dos Caminhos de Ferro, assim como todos os rios e afluentes lusitanos. Mas lá ia aprendendo alguma coisa, nem que fosse por obrigação, como saber na ponta da lingua os tipos de nuvens, a tabela periódica, os reis e seus feitos, os poetas e ficcionistas, e tantos etc.
Hoje olho para esta nova geração e não evito exclamar "Mas eu aprendi isso tudo e mais alguma coisa na 4ª classe, mas que raio de escola é a actual?"
Só que neste momento, a malta jovem nem ouve o que digo, pois está de phones na cabeça e a teclar sms. 

sábado, 16 de janeiro de 2010

cento e vinte seis

O poder e riqueza toldam até o mais puro dos justos. Não o neguemos. Quantos de nós perdemos o contacto com aquela gente que é nossa "amiga" quando estamos bem, mas que desaparece sem registo quando ficamos menos bem? Vamos fazer um teste, olhar para os nossos contactos no telemóvel e emails e ver quantos deles estão "desconectados" da nossa existência. Se calhar, mais de metade. Ou para quem não utiliza o SIM para tudo e mais alguma coisa, um pouco menos.
Confesso que tenho muitos, demasiados, contactos que não utilizo nem deverei vir a reutilizar. Então porque pura e simplesmente não os apago da memória, que está a abarrotar pelas costuras?
Por um lado penso que, quando regressar ao topo, já os tenho. Por outro penso, quando regressar ao topo, de que me interessa tê-los? Já mostraram bem o que valem. Mas na verdade na verdade e quando mudo de telemóvel (frequentemente), fico hesitante em carregar na tecla "apagar da memória?". Se escolho o Sim, fico um bocadito perturbado. Se escolho o Não, também.
Bolas, se sei que esta gente não vale nada, porque raio ainda me preocupo com a sua existência?
Sou mesmo tótó...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

cento e vinte e quatro

Hoje acordei com uma necessidade estranha de escrever cartas com a Montblanc que tenho ali parada, desejando tudo de bom a quem é bom. Cartas... que raio. A última vez que escrevi um longo texto à mão fiquei com ela toda dormente e dorida. Os ossos já não se adaptam à cerâmica do corpo de uma boa caneta, assim como a pressão exacta para desenhar os rabiscos que se transformam em palavras no papel, já não me é imediata e confortável.
Acordei também com uma grande vontade de não levar telemóvel para a rua mas sim um livro. E em vez de me encaixar no veículo automóvel, dei por mim a estudar a rede do metro que, confesso, me é estranha com tanta cor e estações de mudança das mesmas.
Antes de sair, olhei para os relógios que guardo na gaveta. Só um está com a hora certa e muitos sem pilha. Gosto muito de relógios e de canetas que são, no meu entender, as únicas jóias masculinas e vergasto-me por ter deixado de usá-las. O relógio deixou de ser uma necessidade já que o telemóvel, o tablier do carro, o auto-rádio e aqueles monumentos, perdão, mupis lisboetas com publiciade, horas e temperatura, estão sempre a apontar-nos a hora certa. Até o computador a mostra.
Estamos rodeados pelo tempo ao mesmo tempo que perdemos tempo a tentar viver neste tempo moderno que nos exclui de muitas coisas boas da vida, como por exemplo, escrever uma carta a um amigo, educar o aparo de uma caneta nova, encher o reservatório com tinta e olhar a coroa de uma peça intemporal que nos mostra o tempo real em que vivemos, pois ao fim e ao cabo, é esse o tempo que temos.

sábado, 2 de janeiro de 2010

cento e vinte e três

Finalmente vamos conseguir falar desta década como deve ser, ou seja, vamos dizer anos 10. Acabou-se, pelo menos para nós que (sobre)vivemos actualmente, a nomenclatura demasiado estranha dos zeros. Esta década foi até um zero à esquerda a diversos níveis, tanto pessoais como globais. Foi mesmo para esquecer como se tivesse nascido para ser limpa da nossa memória. Pelo menos, da minha vai.
Entrei no 10 de uma forma calma, limpa e serena. Nem muito álcool nem muita galhofada. Foi simples, correcta, elegante, com brindes sentidos e outros acompanhados por olhares cúmplices de quem sabe o que este ano vai mudar.
E ai se vai mudar...
Talvez devido a isso, e deixando passar este fim de semana ainda festivo, vou mudar algumas coisas no meu dia a dia. Já acordo mais cedo, decidi deixar de ter tv no quarto (que me acompanhava as insónias e me embalava em inglês), de 40 passei para 5 cigarros (e já vou no 2º dia sem grande tormenta), vou tentar deixar-me da companhia irlandesa com gelo e com ou sem um farrapo de água, decidi beber apenas uma bica em vez das 10 e aproveitar a teína do chá, resumindo, vou mudar mesmo algumas coisas importantes.
Pode ser que estas pequenitas modificações sensoriais antecipem o que vem aí. A ver vamos. Até estou contente. Tenho muitas confusões para resolver, mas estou contente. Bom, talvez este não seja o sentimento certo... Entusiasmado? Pode ser, é melhor.
Vou é torcer para que na segunda feira nada de mau aconteça. Quero evitar sobressaltos que me provoquem alterações e me obriguem a refugiar em café e cigarros. Por via das dúvidas, já retirei a tv da parede do quarto e não consigo recolocá-la no grampo sem ajuda. Portanto vou entrar na semana sem ninguém ao lado para evitar uma recaída.
Ai... sózinho, sem tv, desorientado pela falta da cafeína e sem cigarros porque pensava que aqueles últimos cinco chegavam?
Já me estou a passar... e ainda é Sábado.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

cento e vinte e dois

Vivi um encontro imediato do 3º grau, não com aliens, mas com uma familia alien bem tuga constituida por pai, mãe e filha menor. Pai agente da autoridade, mãe não sei bem o quê e filha estudante num ano qualquer. A conversa... mhhh.... antes discussão, iniciou-se com as hostilidades do costume: deus versus a não existência dele próprio, a liberdade de escolha e tal e coiso. Ao argumento do ovo e da galinha eu, confesso e vergasto-me, não soube responder. Tal incúria foi-me logo apontada como o exemplo máximo divino de que tudo foi criado por alguém e que só isso prova que deus existe. Perplexo, pois nunca pensei no big bang como clara e ovo, mantive-me hirto. Por uns momentos, poucos segundos, encostei o chefe de família bastante pensativo: a questão tinha a ver com a possibilidade de Eva ter nascido de Adão o que, a meu ver, faz dela filha dele com costela e tudo. O ADN comprovaria-o se o CSI existisse na altura mas como não vivemos num mundo perfeito ainda reforcei a situação com o facto não muito eclesiástico de que Adão e Eva teriam cometido adultério para povoar o mundo, visto serem os únicos habitantes deste planeta ao universo plantado.
O que fui fazer... impropérios, suores frios, desorientação espacial, tudo vi numa face que virou demoníaca. Isso fez com que lhe apontasse um demo interior o que, confesso, não foi a melhor continuação.
Depressa se passou para os gays e o seu casamento. De nada me serviu dizer-lhe frases feitas como "a minha liberdade acaba onde começa a de outrém" e anormalidades do género. A cada uma que proferia, pensando sempre nos exemplos históricos helénicos e românicos para citar os mais kitch, via crescer um ódio nazi que foi, inclusivé e não estou a brincar, reforçado com a frase "o Hitler é que tinha razão".
Sei que muitos teriam abandonado a questão e o local, mas... raios me partam, adoro (vivo) com uma situação destas, ou seja, a possibilidade de ser forcado à frente de um boi (única hipótese de olhar para uma tourada e pedindo-vos que a leiam como analogia) e chamar o bicho, a sua raiva e a sua... como se diz... investida.
E tal aconteceu!
Não vou repetir o que o homem disse em relação aos gays (a que juntou prostitutas, travestis, chulos e demais) pois até eu fiquei ruborizado. Mas uma coisa vos garanto: em pleno séc XXI e a poucos dias da sua segunda década, é-me complicado entender estas mentes tementes e prostradas a um deus católico e que admitem e proclamam a matança a todos os que não sejam, a seus olhos, normais.
Sem querer maçar-vos com mais pormenores, apenas exponho a última questão. Perguntei-lhe se, caso a sua filha menor sentisse que a sua vida, paixão e amor passasse pela homossexualidade, o que faria ele nessa situação. A resposta foi rápida e directa: "a minha filha??? NUNCA! E ISSO NÃO VAI ACONTECER! NUNCA! ERA O QUE FALTAVA!"


tadicho... falta-lhe bem mais do que um bocadinho assim.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

cento e vinte e um

Tentei, sem êxito, não me preocupar com prendas natalícias. E por variadíssimas razões. A primeira é o estado sofrível da conta bancária, a segunda o cada vez maior número de participantes, a terceira todo o folclore e carnaval consumista que ataca tudo e todos e a quarta a total falta de paciência para encarar filas de mau humor e correrias desenfreadas para conseguir a última embalagem de um qualquer produto apadrinhado pela tv. Nunca gostei do Natal que é, quanto a mim, uma obrigação. E como não gosto de ser obrigado a fazer o que não quero, fico totalmente confundido nesta quadra, ciente que os meus próximos desejam a minha presença, os meus não próximos desejam votos e os meus mais longínquos choram saudades por sms ou videoposts. Desde há uns anos a esta parte, encaro-o não como um frete com dia e hora marcada, mas com mais suavidade e até algum divertimento. Toda a minha vida foi passada em algumas casas e com famílias que não a minha, pela única razão que lá em casa o meu pai tinha outros afazeres na noite da consoada, como por exemplo, ganhar algum dinheiro extra que servisse para mimar os empregados com mais um reforço. A minha mãe, pouco ou nada religiosa, assumia a noite como mais uma do ano e só durante a manhã e almoço do dia 25 é que se cheiravam os presentes e os... ausentes. Celebrei assim muitos natais infantis e juvenis e, conforme a vida nos ensina, passei depois a frequentar casas de namoradas cujas famílias levavam e levam ao pormenor toda esta tradição. Na verdade, nunca me senti um outsider e é com grato prazer que recebo convites das ex-famílias que me têm em boa conta e me passaram a tratar por primo em vez de futuro-qualquer-coisa.
Mas este ano a situação é ainda mais difícil pois passei a ser outra vez um futuro-qualquer-coisa paralelamente a primo oficial e oficioso, sobrinho, padrinho e quejandos. Como, então, descalçar a bota?
Olhei em redor, pesquisei, wikidipei e finalmente percebi o que tantas botas de pai natal fazem penduradas nas lareiras ou paredes ou portas... são o calçado de muita gente que, tal como eu, não pode sub-dividir-se molecularmente.
De repente dei por mim a tentar comprar botas de pai natal em filas intermináveis de gente com mau humor e numa correria desenfreada até à prateleira do linear que vende estas vestes específicas.
Estou cansado...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

cento e vinte

Será que se pode considerar toda esta hipocrisia em relação ao casamento gay a nova luta entre os sexos? E a questão da adopção? E o repetitivo histerismo do clero e do seu rebanho? Porque é que as pessoas que não concordam falam e gritam "contra" como se, de facto, estivessem contra? O que é que elas sabem sobre união, amor, paixão, entrega e cumplicidade?

Tenho uma forma de estar na vida muito simples: a minha liberdade termina onde começa a de outrém. Bolas, não é assim tão difícil apreender este principio. Portanto, sou uma pessoa básica e evito entrar em discussões sobre a coisa jurídica que afecta os homosexuais e, pasme-se, os heterosexuais. Mas existe uma questão fracturante em tudo isto. Se formos a ver bem, os não gays e não casados são também olhados de lado. Na verdade, as uniões de facto são um... facto cada vez mais comum na moderna sociedade e não é por isso que têm os mesmos direitos de um casamento civil ou católico. Não o têm e muito menos aos olhos de alguns truques das entidades fiscalizadoras e fiscais.

Então porque não fazer vigílias, manifestações de não-casados-power ou orgulho-unidos-factualmente?
Iamos para a rua, despidos de preconceitos, alugávamos um daqueles camiões que trazem aparelhagem e fazíamos um escarcel medonho na Av. da Liberdade. Paravamos para uma bucha naquele tasco das bifanas defronte à estação de comboios e com o papo cheio entraríamos de rompante na Loja do Cidadão exigindo igualdade de cidadania em relação aos oficialmente casados.

Será que a Igreja exigiria um referendo? Que algumas pessoas tementes a um deus que não é de todos andassem pela rua a pedir assinaturas contra esta terrivel doença? Que a sociedade lusitana se dividisse em duas? Que os GOI surgissem com balas de borracha e canhões de água?

Ora se nós, que escolhemos viver em harmonia com alguém evitando o embuste da assinatura do papelinho, não andamos a fazer figuras a exigir isto e aquilo, porque é que muitos gays o fazem? E reparem, muitos... não todos. Porque é que eles também estão divididos em relação a esta noção?
Porque é que há alguns que levam isto a peito mesmo com o brinde envenenado da adopção e outros há que continuam a sua vidinha, tratando das coisas (heranças, negócios, partilhas) por meio de advogados, e vivem felizes e contentes?

Mas, afinal, qual é a importância de um casamento? A meu ver é apenas meio caminho para o divórcio.
Mas isso sou eu... e a minha opinião vale o que vale.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

cento e dezanove

Hoje esteve um dia glorioso numa Lisboa que cada vez sinto menos minha. Foi dia claro de céu azul e límpido, mas cujo frio obriga as pessoas a vestirem-se menos mal com sobretudos e cachecóis, luvas e chapéus. Gosto de sentir esta minha cidade, mesmo odiando o frenesim louco das compras natalícias que desesperam quem tenta circular de um lado para o outro.
Reparei que andam mais motociclos nas ruas, facto que se deve à nova lei das 125cc. É bom, finalmente, ver uma lei decente aprovada neste país, um dos últimos dois (com a Holanda) que teimava numa enorme parvoíce.
A poluição é menor, o estacionamento facilitado, poupa-se tempo e stress. Há é que ter mil e um cuidados pois sabemos bem como os automobilistas reagem quando estão parados numa fila. A vontade enorme de ver esse "sacana" que a ultrapassa estatelar-se no chão é coisa de bárbaro, gente manhosa e profundamente infeliz. Mas é isso que somos e não há como evitá-lo.
Mas o que mais me desorienta sobre as duas rodas são as constantes mini-reportagens tv sobre a capital (e resto do país) europeia que juntou os povos para discutir novas políticas para a saúde do planeta. Só se fala e mostram centenas de bicicletas e de ciclovias. Que maravilha... Que bom deve ser andar de bicicleta de um lado para o outro sabendo que se tem prioridade sobre os veículos motorizados. Que gente nobre essa, que se faz ao frio com um gorro e cachecol. Que felizes.
O Sócrates deve ter pensado que fazendo ciclovias em Lisboa iria oferecer esses sentimentos aos olissiponenses e conseguir, mais uma vez, mentir sobre a crise. Esqueceu-se foi de fazer estudos sobre as sete colinas, os buracos e demais problemas que impossibilitam total e drasticamente a utilização desses gentis veículos numa cidade inimiga dos mesmos. É que nem a pé se pode circular...
Mas pronto, lá vamos vendo as tais reportagens tv sobre essa gente maravilhosa e sorridente que pedala sem fim.

Só mais uma coisinha. A minha enteada mais velha está a passar um ano nesse grandioso país de gente de bem com a vida e com o mundo. Sabem o que lhe aconteceu no primeiro dia que lhe deram a bicla para andar de um lado para o outro?
Roubaram-na!

Deve ter sido um tuga. É que só pode. Os dinamarqueses não fazem coisas dessas. São perfeitos...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

cento e quinze

Gosto de ser naif. Adoro ter a liberdade de olhar uma pintura e dizer que gosto ou não gosto sem ser subjugado pelo conhecimento técnico e teórico. O mesmo se aplica aos vinhos: quando bebo um bom, é porque o é! Quero lá saber se é touriga nacional, se vem do Douro, se foi conseguido em cascos de carvalho ou se a cortiça é do Amorim. O mesmo se aplica à comida: tanto aprecio uma boa orelha de porco à coentrada como o mais delicioso bife tártaro. Desde que esteja bom, digesta-se com agrado.

Mas, por outro lado, admiro a originalidade de um Dali, a pujança de um Pollock, o realismo de um Renoir, a abstracção de um Rothko ou a loucura pop de um Basquiat. Prefiro um espectacular Glória (que é exportado na sua quase totalidade) à fama de um Barca Velha. Adoro degustar o que os melhores chefs apresentam, inspeccionando a arte da apresentação e a sua relação com o palato.

Quem sou eu afinal?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

cento e quatorze

Hoje é um dia muito especial e está a passar ao lado de milhões de utilizadores da internet: o site Mininova, muito apreciado pela comunidade P2P, pôs fim à distribuição de torrents, ou seja, filmes, séries, fotos, discos, documentários and so on and so on.
Logicamente, esta situação tem a ver com a perseguição dos vários governos contra este tipo de troca de ficheiros (a CEE prepara-se para aprovar uma nova lei anti-pirataria) e defende os tão famosos direitos de autor nas suas variadas formas e fórmulas.

Defende?

Na minha sincera opinião, não! Pelo contrário e passo a explicar.

Sendo também um autor publicado, o primeiro crime que existe contra os meus direitos vem através da própria editora quando faz milhares de discos a mais numa fábrica brasileira que coloca à venda no mundo inteiro sem dar cavaco a ninguém. Ou seja, nem eu sei quantos discos vendi e vendo. Nem eu nem a SPA.
O segundo problema é a própria SPA, um antro de gananciosos e ladrões que vivem à custa dos meus royalties e que têm o descaramento de oferecer "adiantamentos" milionários aos artistas do costume que são os que menos precisam deles. Esta sociedade tem esquemas tão bem montados que os antigos gestores, após terem sido demitidos por gestão danosa, ainda ganharam um recurso que a obriga a  pagar-lhes uma maquia de dinheiro digna de um prémio do euromilhões.
Depois vêm os direitos conexos, coisa juridicamente complicada, cujo pagamento é "esquecido" pelas entidades que utilizam a nossa imagem/nome/obra para se promoverem (tvs, rádios, revistas, etc).
O publishing é outra grande cantilena. São empresas que andam pelas SPAs de todo o mundo à caça do meu dinheirinho. Como é que um artista controla isto?
Finalmente, os armazéns de multimedia que revendem os cds às lojas (fora os esquemas e as compras directas às editoras), os distribuidores e as lojas que, todos juntos, conseguem vender um CD que custa dois euro a 15, 18 ou 20. Os artistas recebem uma mísera percentagem por cada CD à saída da fábrica, não ao preço da loja.

Ora com tudo isto é normal que quem faça música (ou outra arte que tenha suportes e esquemas de produção similares) não fique rico e que tenha nos concertos ao vivo o real ganho de sopa e pão.
Mas se não há disco, não há distribuição nem divulgação. Sem essas não há concertos. E pum!

Então porque é que, sendo artista, não concordo com o fecho de sites onde vou buscar de borla o que quero? Como é que defendo a ladroagem ao meu próprio bolso? Bom, convém dizer que pago principescamente o serviço net que assinei, portanto pago a alguém os royalties e demais direitos do que "saco" ou "baixo". Se a Meo/Zon/Clix/Sapo/etc não têm um acordo com a SPA, isso é um outro problema a resolver. E, sinceramente, o real!
A questão é que no ano passado comprei cerca de 100 cds dos 500 que ouvi. Se não tivesse ouvido não os tinha comprado, pois continuava a desconhecê-los e, convenhamos, pagar 18€ por um disco que não se sabe se é bom ou não é só para alguns. Este ano já comprei uns 40 dos 300 que ouvi.
Ou seja, devido à troca de ficheiros P2P comprei 140 cds em dois anos. E fiz outros comprarem-nos, pois teci elogios por mail, telefone ou facebook... façam as contas.

Como artista, o que me interessa é a divulgação e essa é feita através da net, pois as editoras e demais amigos não querem gastar dinheiro em promoção. Acho que é uma equação muito simples...

Existem outros problemas como, num país limítrofe e inculto como o português, sofrer o imenso azar de ter um gosto diferente da maioria. Ou seja, e mesmo que queira comprar o que procuro, não o encontro à venda nas lojas nacionais. Sou, portanto, obrigado a esforçar-me e ter um cartão de crédito e dar a ganhar o meu dinheiro às lojas internacionais.
Gosto muito de documentários, principalmente da BBC, e de outras divagações televisivas. Mas como aceder-lhes se os 100 canais de tv que pago nem sabem do que estou a falar?

Será que tenho que viver ignorante, tipo carneiro, e levar com o que os abutres, geralmente incultos que mandam nas estações televisivas e radiofónicas, gostam ou me querem impingir?

Desculpem mas não sou pimba. E tão pouco estúpido.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

cento e treze

Todos temos uma face oculta e conhecemos a oculta face de muita gente. Não neguem! Também temos uma hidden agenda, obscuros objectivos e muitos segredos. Também temos amigos com que falamos ao telefone sobre tudo e mais alguma coisa, desde as tragédias familiares às conspirações estatais. Também fazemos umas falcatruas de vem em quando e também já roubámos.
Vamos por partes.
Quem não tem um ex-amigo que provou não ser merecedor da nossa amizade após longos anos de convívio? E será que somos tão bonzinhos que nunca decepcionámos alguém? Isso é a face oculta.
Não gostaríamos de subir na escada social pretendendo aquele lugar de direcção que está tomado por outrém? Isso é a hidden agenda.
E ao conversar telefonicamente com amigos, não soltamos umas quantas alarvidades, desde dizer mal de beltrano ou combinar um esquema para ganhar mais algum? Isso pode ser escutado e geralmente é-o por gente que está ao lado.
Nunca fugimos ao fisco com esquemas simples mas que nos garantem ficar com alguns euro no bolso? Isso são falcatruas.
E, por último, quem de nós não roubou um carrinho ao amigo, um chupa, uma pastilha, um livro? Portanto, somos ladrões.

Isto tudo para dizer que, afinal, não somos assim tão diferentes desta gente de gama alta que está ameaçada de prisão. A única diferença é que eles roubam milhões e, por milagre, são sempre soltos. Nós não declaramos a mais valia de uma coisa familiar e temos a vida estragada.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

cento e doze

Conheci recentemente um casal de megalómanos. Se um megalómano é um bicho estranho, fugidio, raro de encontrar e mais de conhecer, imaginem a grata fortuna em encontrar um casal. Passei uma tarde inteirinha com eles, num ambiente mais ou menos caótico, absorvendo todas as pistas, pormenores, passos e objectivos que me iam dando à medida que iam confiando. Se encontrar e conhecer este bicho esquivo já é difícil, conseguir a sua confiança é tarefa reservada para poucos eleitos, nos quais e com grande honra me incluo.
As horas passaram como minutos e consegui estabelecer uma relação de amizade ainda trolha de meninice. No meio de brinquedos e computadores, fiquei a par de um mundo paralelo, rico em tradições milenares, cheio de criaturas que deveriam meter medo mas conseguem um sorriso cúmplice, nomenclaturas que fazem rir ao mesmo tempo que criam inveja por não ter sido eu a criá-las, inúmeras plataformas desde manuais a digitais trabalhadas com mestria, todo um universo único e fantástico.
Os megalómanos mostraram o propósito da sua vida que passa por um único sentido chamado "imaginação" e ficaram contentes por terem conhecido mais um pobre de espírito que se deixou fascinar pelas suas directrizes.
Depois meti-me no carro a caminho de casa e desde então tenho estado a pensar muito sobre o que vivi. Julguei que tinha sido uma sorte dos diabos mas à medida que os dias morrem percebo que foi um azar tremendo.
Se já sentia uma enorme repulsa por este Portugal que não entendo, agora sinto uma raiva capaz de o estrangular. O motivo é simples: este casal de megalómanos (vamos chamar-lhes Tolucling ou Luctoling... ou Linglucto) são, e acreditem em mim, a mistura de três génios. Explico: os papás dos Tolucling são dois homens e uma mulher (o que deve ter sido muito engraçado) de nome Tolkien, Lucas e Rowling. Conjuguem essas três imaginações juntas numa só cabeça e têm o mundo que vi e assimilei. Então porque é que foi um azar tê-los conhecido e porque grito blasfémias contra a minha terra? O motivo é tão simples que dói. E dói muito, bem fundo na alma que deveria ter honra em ser lusitana.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

cento e onze

Ontem ouvi um guru, que até prezo, denunciar a questão do "híbrido Pro Am", ou seja, a nova necessidade empresarial num mundo diferente, mais global e vertiginosamente rápido.
De uma forma simplicista, o HPA é ter na mesma empresa dois tipos de empregados: o profissional e o amador. Assim se conseguirá o equilibrio entre a experiência vs entusiasmo, noção vs engodo, old vs new school e um imenso e abrangente etecétera.
O HPA é, assim, uma tremenda dor de cabeça para qualquer gestor. Em primeiro lugar porque tem que pagar mais ao P, mas cuidar melhor o A. Tem que conversar mais com o P mas falar mais com o A. Tem que perceber os atrasos provocados pela família do P e os atrasos provocados pelo cocktail noctívago do A. Enfim, toda uma confusão desnecessária quanto obrigatória.
Logicamente que esta necessidade empresarial existe no 1º mundo, não em Portugal. Por aqui o híbrido é outro. Ou outros. Temos, por exemplo, o HAB (híbrido Amador Barato) que trabalha que nem um cão a troco do passe social, o HPF (híbrido Político ou Familiar) que domina o mercado luso e o mais importante HCED (híbrido Chico-Esperto e Desenrascado) que proporciona, aos tugas em geral, um maior income mensal sem taxas e mais-valias.
O problema são, e peço desde já desculpa por mencioná-lo, os NHPA nos quais me incluo. Os Não-Híbridos Profissionais e Amadores são pessoas que vegetam neste mundo português. Têm vasta experiência em muitos sectores profissionais, sendo portanto acusados de Multidisciplinarismo, mas uma idade superior ou igual a 40 anos, o que implica contrato de trabalho, descontos e seguros para a entidade patronal.
Então porque é que continuo, assim como tanta gente de valor (reparem que me incluo nesta) a tentar ganhar o pão que cada vez é mais escasso? Terei que ser HCC (híbrido Come & Cala)?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

cento e dez

Hoje deu-me uma imensa vontade de desligar o telemóvel. A questão é que foi para sempre. Sim, sou dos tais que dormem com ele on, que o remetem para o silêncio em cinemas e artes várias,  que raras vezes o esquecem num bolso de uma mala ou casaco, dos que ficam atónitos quando não têm rede, dos que barafustam quando o operador falha, dos que procuram as mais recentes novidades de streaming de dados sem pagar quota, que adoram o wifi, que querem sempre o último modelo.
O que ganhei ao longo de todos estes anos em que ainda relembro o primeiro bloco de ferro da Nokia com uma antena ridícula e falsa? O que ganhei ao querer o último modelo porque fazia mais x que y? O que ganho actualmente quando olho o Satio na montra? A quem interessa, sem ser para mim, o facto de conseguir com este novo modelo ver o que tenho no disco rígido da PS3 que está em streaming com o iMac, em qualquer lugar remoto?
Sei que ganho momentos de prazer. Sou um confesso gadgetfreak, adoro tecnologia, todos os seus pequenitos avanços, sinto-me bem quando demonstro e ensino todos os que me rodeiam, gosto de ser considerado como guru destas artes e ciências modernas.
Adoro perder-me nos sub-menus indecifráveis para a maioria, como receber chamadas de gente em pânico porque o computador (pc ou mac) deu raia. Gosto de provar que, afinal, não sou assim tão geek ou tecnofreak, pois também detesto os nerds informáticos e similares.
Ao fim e ao cabo, acho que sou um gajo moderno, sofisticado q.b. e continuamente interessado no próximo passo.
A questão é que no século anterior, pessoas como eu ainda tinham a sua graça e utilidade. Com a passagem do milénio, surgiram novas infra-linguagens pseudo-técnicas que fazem todo um esforço para que não sejam compreendidas por pessoas nascidas antes de 1980 que é o meu caso.
Quanto a essas, no way, nunca me ultrapassarão.
O problema é outro. É  a questão da liberdade, da disponibilidade, do ser e não estar, como do parecer e não querer. Longe vão os tempos em que combinavamos com os compinchas às tantas horas naquele preciso lugar. Não tinhamos carro, nem GPS, nem telemóvel e quem chegava atrasado 15 minutos já sabia o que ia enfrentar. Hoje estamos disponíveis para as desculpas e atrasos dos outros. Ficamos à seca, pois somos do tempo em que a pontualidade era in ao invés de forex. Somos, portanto, gozados.
Ou seja, o nosso telemóvel plimplimplim é a última prisão. Recebe chamadas, mensagens escritas, faladas e imagéticas, recebe emails, tem já um A.GPS incorporado para mostrar onde estamos, é camara foto e videográfica que nos transforma em jornalistas ou paparazis, liga-nos ao Facebook, Twitter, Myspace, Netlog, Plaxo, Netmeeting, HoresOnLine, Continente, análises clínicas, fisco, StarTracker, Amazon, youtube, farmácias, trânsito, banca, pagamentos de serviços, Wikipedia, Fnac, Worten, Vobis, Stick-a-Skin, Cp, Refer, Benfica, Atlético Clube de Alvalade, Supremo tribunal de Justiça, jornais on line, Nasdac, leilões, Remax, Bimby, Torrents, Mundo, sub-mundo, extra-mundo, Scully, MacGyver, blogger, wordpress, podcasts e mais tudo.

O que nos resta então? Qual é o nosso tempo? Como podemos ler livros e escrever os próximos? Como podemos pensar nas soluções para amanhã? Como podemos ouvir música e desejar fazê-la? Como podemos ser unos quando estamos tão unidos?

Eu não pedi para ser irmão de toda a gente ou o tio dos mais pequenos ou o amante dos mais desesperados. Mas caí na própria teia. Tenho saudades de ter tempo e de ser quem fui. Tenho saudades do tempo. Da liberdade. Da individualidade.
Tenho saudades de mim, quando quis mudar o mundo, pois era imortal e tão garboso que levaria a minha nave a conquistar o desconhecido.
Agora...
Bom, agora só penso em desligar para sempre o telemóvel.
Mas sei que vou ferir toda a gente que pensa em mim, que me quer bem e que está habituada a que eu exista. É que hoje em dia, desligar o telemóvel é como desligar a máquina que nos sustenta a respiração e a identidade.
Se o desligar, morro.
Creio nisso.
E ainda sou novo....