sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Dar e baralhar a outra face



Qual é a primeira coisa que nos ocorre quando nos lembramos de um amigo?
Do seu rosto! É ou não é? Só depois vêm o nome, as memórias, as conversas, as aventuras, o estado social, a família dele, o que faz, por onde anda e etc.

O rosto de uma pessoa, ou face (ou cara), é o primeiro dado que memorizamos de alguém. Será devido à memoria visual, o “olho” da nossa mente que cataloga cada experiência visual, que nos lembramos dos rostos das pessoas quando muitas vezes esquecemos o nome das próprias?

A face é, assim, o elemento mais importante para a designação de alguém, logo seguida pelo corpo e pela forma de vestir. Nela encontramos os olhos (que podem ou não ser o espelho da alma), a boca (para a qual olhamos com sentimentos dúbios, que podem ir do prazer de um sorriso encantatório ao interesse pelas palavras proferidas), as rugas, os sinais, a forma e muitos etc..

São, acima de tudo, sinais exteriores. E são estes, quer queiramos quer não, que nos impelem a desejar conhecer certa pessoa em detrimento de outra. A questão da beleza e riqueza interior nunca se coloca num primeiro olhar.

Foi assim que o Mark (com ou sem os associados) concebeu o Facebook: um livro digital de rostos!
No Facebook, valemos pela foto que disponibilizamos no perfil. Podemos escolher outro tipo de imagens, mas terá de ter um teor pessoal, mesmo que seja um herói de banda desenhada, um automóvel, uma figura que admiramos.

O Facebook é, deste modo, um agregador de rostos que nos saciam os sentidos imediatos, logicamente sem contar com os amigos chegados e conhecidos da vida. Os novos contactos dão-se porque se gosta daquela face, dos olhos, do sorriso, do cabelo. É uma espécie de lista telefónica de possibilidades sem limites, mesmo escondidas sob pedidos de “amizade”, quando só se procura o próximo alvo, muito facilitado porque o mundo é um “ó” onde temos sempre um amigo que é amigo desse rosto que queremos conhecer.

Os jovens ainda não entenderam bem como tudo isto funciona e colocam sem pudor variadíssimas fotos de férias, borgas, festas, convívios. Dão, deste modo, todas as informações sobre o seu rosto, corpo, locais de férias, bairros preferidos para as saídas nocturnas, etc.
É só fisgar um e seguir todos os seus passos para, inevitavelmente, chegarmos ao contacto físico.
Há que entender isto, por muito que custe... e tentar aconselhá-los.

Chegamos à conclusão que o Facebook é um embuste, pouco servindo os interesses reais da maior parte dos utilizadores, encurralando-os numa espécie de vertigem social a que é necessário pertencer e, acima de tudo, estar bem vivo e com saúde sob a forma de postagem diária.

O que o Mark deveria ter feito, era um Friendbook. Mas como, se sabemos que o rapaz é um cromo que conhecia o insucesso social, um geek que não fazia parte do grupo dos populares, um freak que acredita que usar chinelos é cool?

Ele nunca pensou na verdadeira amizade, mas sim no voyeurismo puro e duro.

Nada tenho contra o Facebook, pois utilizo-o de formas “normais”: o de realmente contactar amigos que vivem muito longe ou mesmo aqui ao lado, o de reencontrar pessoas há muito desaparecidas da minha vida e promover algumas coisas que faço, profissionais ou autorais.

Portanto, utilizo-o bem mais como Friendbook do que Facebook.   
E isso dá-me alguma paz de espírito, quando habito o terceiro país mais populoso do mundo... e em franco crescimento.

Imaginem um mundo friendbookiano onde, para além dos “likes”, “comments” e “shares”, existissem botões tipo “I miss you”, “Dinner tonight? Bring the gang” ou um simples “see you later”.

‘Bora fazer um como deve ser?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

De par em par, uma nesga escancarada


 
Existe um tema que provoca acesa discussão entre amigos quando é abordado: será que se deve mostrar a casa às visitas ou não?
Tenho-me divertido bastante com as variadíssimas opiniões de todos quantos conheço.

Uns dizem que sim, que é boa educação e coloca o convidado à vontade.
Outros dizem que não, pois ninguém deve ter acesso à parte não social.
Uns dizem que é de bom tom.
Outros dizem que parece que estamos a vender o imóvel com o recheio.
E assim por diante.

O que é engraçado é que todos têm uma opinião, mas por vezes a posição difere na prática. Muitos dos que não gostam de mostrar a casa, têm de fazê-lo quando o conviva exclama “ai, mas que linda, onde são os quartos” e etc. Outros que até gostam de mostrá-la, ficam pendurados na fronteira entre a parte social e a privada, observando quem chega a instalar-se rapidamente nos sofás.

Depois de fazer uma muito breve pesquisa na internet, não cheguei a conclusões. Ao que parece é de bom tom, com pode não sê-lo. É agradável para a visita saber o que e onde pisa, como pode ficar acabrunhada pelo show off do anfitrião. É claro há excepções, como quando se faz umas obras valentes ou se compra aquele móvel que se deseja mostrar a toda a gente. São situações pontuais por que todos passamos.

Vai daí, olhei para mim e pensei no que faço.
Pensei, pensei e, de repente, dei por mim a mostrar a casa a algumas pessoas e a evitar fazê-lo a outras.
Como não tenho o costume de convidar indivíduos que não prezo (embora alguns demonstrassem falta de carácter após uns tempos), estranhei esta selecção.
Pensei, pensei e, de repente, cheguei a uma conclusão: não sou eu que mostro ou deixo de mostrar, são os convidados que demonstram interesse ou falta dele.

E fez-se luz.

Na verdade, o português gosta de mostrar a casa a quem convida. Gosta de falar daqueles livros que tem na estante, ou do quadro que herdou da avó. Gosta de mostrar a LedTV que custou uma “pechincha” em saldo no hipermercado, como o Magalhães que comprou para o puto mais novo.
Em tudo o que mostra tem, muitas vezes, o cuidado de apontar que não está ali nenhuma fortuna. Os pertences ou foram conseguidos com muita sorte e oportunidade, ou oferecidos ou outra coisa qualquer.
Parece que temos vergonha de ter o que temos... mas depois gostamos de mostrar os teres e haveres.

Confesso que gosto de mostrar alguns dos meus tarecos. Tão somente porque gosto tanto deles que tento que outros os apreciem.
E isso pode ser tanta coisa... por exemplo, a 1ª edição que encontrei no alfarrabista e que, atenção, custou poucos euro, o dvd super special edition que mandei vir pela Amazon e que trás outro disco cheio de extras, mas que ficou pelo preço do normal cá nas fnacs, o móvel das gavetinhas que é lindo e que consegui por excelente preço devido à mudança de casa de um amigo, etc., etc.

Muitos amigos aponta-me o defeito, talvez porque estão fartos de ouvir as explicações sobre a origem dos elementos, e meio a sério, meio a brincar, gritam “olha, não te esqueças de mostrar a despensa e a casota do animal lá na varanda”.

Todos rimos, mas não deixa de ser uma boa questão... pode-se mostrar uma parte da casa e a outra não? É de bom ou mau tom? É educado ou indelicado?
Em que ficamos?

Uma coisa é certa: é um comportamento lusitano! Ou português, pois os brasileiros fazem o mesmo e têm as mesmas dúvidas.
O que pensará um cámone quando lhe abrimos as portas?

Pior... o que pensaremos nós deles se ficarmos fechados na sala de refeições apenas com acesso ao lavabo social?

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Valentim foi um valente que disse um sim



Corações ao alto, hoje é dia dos namorados!

Para uns é apenas o dia (aliás, algumas horas após o emprego) em que podem voltar a ser aquilo por que a cara metade se apaixonou em tempos idos.

Para outros, eternos românticos, é uma data ansiada para a qual prepararam um programita (após o emprego) que se inicia com um jantar num restaurante mais especial que o normal, seguido por uma oferenda que se traduz, em 90% dos casos, por um perfume, uma rosa ou um ramalhete delas, um leitor mp3 e, para finalizar, um chocolate final na almofada do leito para aquecer o ambiente, entretanto esfriado com o passar do tempo.

Depois há aqueles que podem ou não dar importância à data mas que estão sem cheta no bolso para alegrar a cara metade.
A estes vou dedicar mais atenção, pois são os que realmente se preocupam.
Preocupam-se com muita coisa, desde o não ter hipótese de comprar uma prenda, passando pela vergonha de não ter hipótese de comprar uma prenda, até à apresentação de desculpas por não ter hipótese de comprar essa mesma prenda.

Este grupo subdivide-se em dois. Os que, tão preocupados, se fecham a sete chaves no seu coração, podendo até mesmo desaparecer durante esse dia para percorrer a pé alguns km na vã busca pela resposta aos problemas, e os que, mesmo preocupados, inventam formas de poder, ainda assim, oferecer alguma coisa à sua paixão.

Estes são, quanto a mim, os verdadeiros românticos e eternos apaixonados por quem escolheram. E, bastas vezes, têm a fortuna de serem amados de volta. Não é extraordinário, perguntará o mais à vontade na crise, que esses pobres coitados conheçam o amor que ele, cheio de crédito, não vive? Pois a vida é mesmo assim e o amor não se paga. Pode comprar-se um bocadinho dele, mas nunca uma metade ou a peça inteira.

O amor de um namorado - e repare-se que mesmo uma pessoa casada pode continuar a ser namoradeira - não tem preço. Nem etiqueta. Nem promoções ou descontos em talão. Nem vai em cantigas. Nunca estará em saldo e nunca se fabricará na China. É mesmo “gostar de”, com todas as frases que surgiam nos cromos da colecção “o amor é” e que os petizes desdenhavam nesses tempos antigos... até se apaixonarem por alguém.

Uma prenda oferecida por este subgrupo é sempre fantástica e adorada por quem a recebe. Pode ser quase tudo, desde um raminho de salsa que será metido no tacho com a refeição preparada em surpresa, como um molho de flores selvagens apanhadas no caminho para casa, um livro que está na prateleira e que é o preferido mas que agora passa de mãos, um passeio mesmo à chuva só porque é raro o fazerem a pé, um daqueles pertences que temos esquecidos mas que sabemos perfeitos para a ocasião, uma carta de verdadeiras intenções escrita com cuidado para se perceber a letra, um poema, uma canção, uma promessa, um brinde a tempos melhores mas na mesma companhia, tanta, tanta coisa.
A lista pode ser infindável.

E quem diz que o dia dos namorados é todos os dias, esqueça. Isso é o mesmo que afirmar que o natal é quando um homem quer ou que a galinha da vizinha é melhor que a minha.
Todos sabemos que é assim, mas ter uma data específica para o celebrar não é, de todo, mau.

Apenas nos reforça o sentimento de todos os dias mas que, por diversos motivos, o vamos esquecendo e tapando com as vicissitudes que a vida impõe.

Portanto, hoje é (mais um) dia para aconchegarmos quem está ao nosso lado, dar um abraço apertado e sentido, olhar nos olhos e relembrar os porquês da escolha e sentirmo-nos felizes por ter alguém que nos ature.

Nem que seja em americano e com balões em forma de coração.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Perde-se tempo precioso a cada minuto que passa



Se ontem havia tempo de sobra, hoje há falta de tempo.
O que mudou neste entretempo?
A resposta é muito simples: a tecnologia.
Pois é. Pura e simplesmente a tecnologia.
Vamos a contas.

Sou um garoto nascido mesmo na metade dos anos sessenta. Sendo assim, ultrapassei como pude a década mais horripilante de todas, essa tal dos 70, em que toda a gente se vestia de forma a não conseguir parceiro sexual, cuja revolução aconteceu somente devido a excessos e a experiências com substâncias não muito católicas.

Lembro-me, porém, mesmo vestido e calçado pela minha mãe, com boca de sino a tapar as botas de pele de carneiro e camisas cintadas cujo colarinho chegava à costura da manga, que tinha amigos. Amigos no masculino. Isso das miúdas era para outras idades.
Passava a manhã na escola, chegava a casa para almoçar e fazer os TPC. Depois, bom, depois tinha tempo livre para fazer o que bem entendesse, desde que não saísse dos domínios da avenida. Tive a sorte de nascer e viver num bairro com jardins, o que permitiu muita subida às árvores, muita futebolada, muita apanhada e toca-e-foge, muito berlinde, muita queda das bicicletas e dos skates, e muito ténis-de-parede.

Com os meus inúmeros amigos, sobrevivia a este ritmo fisicamente esforçado. E, no final das tardes, ainda tinha tempo para ler um qualquer livro da Blyton, do Verne ou do Doyle, passando pelo Graton, Goscinny, Hergé e Disney, entre tantos outros.
Pedi ao meu pai que comprasse aqueles livros de “cultura”, pesados e cheios de bonecada, que o Circulo dos Leitores vendia, para além de colecções sobre as guerras mundiais, os clássicos da literatura, e tanta outra descoberta.

Num repente, um dos vizinhos tocou a todas as portas e pediu-nos para ir lá a casa. Deparámo-nos com uma coisa esquisita, com um teclado de borracha, e uns cabos que se ligavam ao televisor. Essa máquina do demo encantou-nos e retirou-nos da rua, o que naquela altura não era sinónimo de perdição.
As horas seguintes foram passadas em grupo com a maquineta. As primeiras discussões também, pois todos nós queríamos chegar à nossa vez para não mais a largar. E os pais perceberam que tinham de desembolsar uma quantia avultada para dar ao respectivo petiz histérico essa tal coisa chamada Spectrum.

Eu não tive um Spectrum. Portanto, descobri as miúdas uns anos mais cedo. E segui essa felicidade e facilidade por não ter concorrência, pois ninguém saía dos quartos.

Passado pouco tempo, tive o meu primeiro computador, um bicho a que chamaram Commodore Amiga. Imaginem o gozado que fui por ter uma “amiga” lá em casa... Esse maquinão ajudou-me a encaminhar a vida. Com ele descobri programas que editavam vídeo e áudio. Com ele descobri que se podia controlar sintetizadores e fazer música. Fora os magníficos jogos, que me afastaram dessa vida horripilante ao ar livre e em constante esforço físico com consequências nefastas para o corpo humano.

Comecei a ter falta de tempo.

Principalmente quando comprei o primeiro Macintosh. Depois o primeiro PC. Depois o primeiro telemóvel e depois o primeiro portátil.

Num repente, deixei de ver os amigos de sempre e passei a ter outros. Cada qual com a sua máquina de eleição e poucos com telemóvel e carro. Já tínhamos mais de 20 anos e, pasme-se, íamos de transportes públicos para todo o lado. O horror...

O dia passava entre o estudo, as máquinas, os projectos, alguns trabalhos para ganhar dinheiro, as matinés e as noites, ora no cinema, ora no Bairro Alto entretanto a acordar das leitarias e das velhas prostitutas de rua.

Não havia tempo para mais nada.
Mas as horas eram preenchidas com grandes tertúlias, vontade de mudar o mundo, chegar mais longe que os restantes, fazer empresas próprias, viajar, discutir, aprender, sonhar e sorrir.

Não havia tempo porque já éramos dominados pela tecnologia, que nos permitia ser designers gráficos, realizadores, músicos, cientistas, e tanta coisa.
Mas fomos felizes, não fomos?

Hoje seria de supor que a malta mais nova, que já nasceu com um telemóvel no berço e um laptop no colo, os usassem para chegar mais longe que nós, que facilitassem o seu dia a dia, que abusassem do conhecimento global à distância de um click, que não tivessem de perder tempo a tentar aprender a mexer com cada máquina nova que surgisse com o seu diferente modus operandi e linguagem operativa.

Mas não. Clicam fervorosamente e durante 20 horas/dia, mensagens mal escritas. Deixaram de ler, portanto não sabem escrever. Como teclam nas redes, não conversam. O discurso é inexistente e os erros evidentes. O desinteresse por tudo e todos é real, enquanto o próprio umbigo se tornou no centro das atenções.

Claro que há excepções, claro que há malta extraordinária.
Mas são muito poucos e, decididamente, aqueles que ouviram os mais velhos.

Nós?
Nós estamos cansados.
Ainda continuamos na labuta do conhecimento, ainda temos amigos...
Mas sabemos bem que o que mais gostaríamos era que o tempo voltasse para trás.

Nem que fosse por pouco tempo.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O lugarzinho a que chamamos casa



Começo por afirmar que estou farto de dizer mal do meu país, de opinar com criticas sociais, económico-políticas, contra as manias das gentes e dos costumes, passando pela falta de educação cívica e demais. Chega!
Hoje vou dizer bem deste meu lugar, tão favoravelmente bafejado pela latitude e longitude e que contém todo o mundo dentro de um tão pequeno rectângulo.

Este meu país apresenta um esplendor natural que não tem paralelo, desde o Minho ao Algarve, passando por paraísos como o Gerês, a Estrela, o Alentejo, sem retratar as maravilhosas ilhas.
Num mesmo dia podemos esquiar abaixo de zero como tomar banho de mar acima de 20 graus. Podemos saborear um queijo da serra como um peixe acabado de pescar. Por muito que a CEE nos tire o sal do pão, não conseguem tirar o sabor do alentejano ou do de Mafra. Por muito que a Asae feche estabelecimentos, continuamos a cozinhar com utensílios de madeira.  

Temos mais formas de saborear bacalhau que dias num ano. Gostamos de boa mesa e boa pinga. E porque não? Temos a melhor das mesas e pinga da boa.
Num mesmo restaurante, podemos escolher de entre uma vintena de opções, todas excelentes, que depois serão terminadas com um doce conventual, arte só nossa e sem adversário celestial.

Vivemos num pais católico mas que abre a porta a todos os que o não são. Gostamos de brindar com estrangeiros, mostrar do que somos feitos, oferecer até o que não temos.
Gostamos de afirmar a nossa História, feitos e aventuras. Somos poetas, vaidosos e teimosos. Cantamos a saudade e tentamos explicá-la com guitarras e xailes negros. Até damos nomes de ícones a lontras, de cientistas a ruas, de santos a freguesias.

Somos antigos e modernos. Temos casas de xisto e start-ups mundialmente reconhecidas. Somos inventores e desenrascados. Somos chico-espertos, mas ajudamos quem nos está próximo. Gostamos do mundo inteiro e levamos sempre uma bandeira e um hino. Há sempre um português lá fora, mas que conta os dias para regressar a casa.

Somos criativos, engenhocas, gestores e poliglotas. Somos inteligentes, eficazes, obstinados. Se em tempos idos conquistámos por mar, nos tempos vindouros conquistaremos por fibra óptica, turbinas eólicas, eficácia nas grandes obras de engenharia, na aposta de materiais únicos e só nossos, na descoberta da cura para o cancro, na sustentabilidade, transformação e inovação.

Não conhecemos limites porque não levamos a sério os físicos. Nem temos medo do Adamastor. Apostamos e perdemos, reerguemo-nos e conquistamos. Fazemos muito com pouco e inventamos o que precisamos. Gostamos de estrelas, tanto do mar como cadentes. Gostamos de festas populares, de sardinha no pão, de tremoços e mines, de futebol e carros de corrida.

Por muito que nos queixemos, não choramos, nem gritamos e não brincamos às guerras. Antes, sofremos em silêncio, esperando sempre por amanhã, porque vai ser um novo dia e uma nova esperança.

E quando nos fartamos disto tudo, escrevemos um poema, cantamos um fado ou colocamos uma flor num cano de uma espingarda.

Somos assim.
Não há nada a fazer.
E ainda bem.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Miscível não é a mesma coisa que misturável



Cada vez que vou a um restaurante, sou obrigado a avisar o empregado que não quero arroz com batata frita e também não quero cenoura ralada na salada mista. E isto acontece na maioria dos estabelecimentos comerciais.

Ó faxavor,  só quero batata frita! E ó faxavor, não quero cenoura ralada.
Mas quer arroz num pratinho à parte?
Mas que coisa... já lhe disse que só quero batata frita!
E a salada, continua a ser mista?
Mas concerteza! Só não quero a cenoura ralada, o resto pode vir tudo!

É complicado não iniciar a refeição com uma indigestão. Os cozinheiros, a não ser nos locais topo de gama e por conseguinte proibitivos, apanharam esta mania da cenoura ralada não se sabe bem onde. Mas não entendem que o sabor da cenoura crua nada tem a ver com a cumplicidade da alface, tomate e cebola, banhadas com azeite e vinagre? Cenoura crua com azeite e vinagre? Experimentem comê-la num pratinho à parte, ó faxavor...

O mesmo se passa com a dupla arroz cozido com batata frita. Só pela forma de confecção, como se junta um cozido a um frito? Por outras palavras, mas porquê e para quê? Só se for para encher o prato, tipo enfarta bruto, e os olhos para quem gosta de travessas a abarrotar. E como o arroz ainda é barato...

Algumas misturas até podem ser excelentes, vamos lá pôr ordem na mesa. E também acompanham na perfeição carnes várias bem grelhadas. O rodízio brasileiro é uma dessas excepções, onde o arroz mistura-se no feijão preto cheio de molho e com farofa por cima. As batatas fritas são o complemento, não o acompanhamento. Por exemplo, eu não como batatas fritas neste caso. Contento-me e aprecio a misturada cozida. Nem aqui junto fritos a cozidos, mas sei que sou dos poucos que rejeita a batata e a banana. Não sei, não combinam comigo. Mas ele há gostos para tudo.

Com a actual crise, é natural que comecemos a comer menos carne e peixe e nos sintamos obrigados a fazer uma alimentação mais cuidada, tipo vegetariana, em que as gramíneas, leguminosas e hortícolas terão grande destaque. Mas já foram a algum restaurante vegan? Não é estranho olhar para os habitués e reparar no seu ar escanzelado e esverdeado ou até acastanhado?
O problema é que são muito capazes de misturar alimentos, como o arroz a lentilhas, feijão frade a grão, que acompanham aquelas coisas sem cheiro e sabor, tipo seitan e tofu. Não é o mesmo problema? Misturar duas opções que deveriam ser apreciadas pelas suas únicas e diferentes características?

Imaginem uma refeição com feijão frade, ovo cozido e uma lata de atum. Não é bom? E não faz bem? Não é equilibrado e de uma saborosa simplicidade? Então porque misturar-lhe lentilhas, tofu ou algas?

Nada tenho contra a comida vegetariana (o mesmo não posso dizer da macrobiótica). Aliás, e confesso, de vez em quando até sabe muito bem. Mas escolhe-lha como alimentação principal, em que todos os dias vou ter que me virar para o empregado e pedir que retire coisas ou separe outras?
Não me parece.
Quando esse dia chegar (com o FMI ou qualquer outra palhaçada), até eu chorarei ao relembrar os pratos cheios de arroz e batata frita.

Mas, por favor, esqueçam lá a cenoura ralada...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Um burro sabe sempre o caminho para casa



Em tempos de crise, há que dar ideias aos mandantes para conseguirem tornear e resolver o problema.
Muito se tem falado sobre o custo de vida, os impostos agravados, o aumento do IVA, o final dos abates das carripanas, os atrasos de pagamentos a quem de direito, mas nunca li ou ouvi soluções sérias e adequadas.

Presto-me, então, e aqui neste espacito aberto ao mundo, a oferecer, de bom grado, pequenos conselhos de fácil implementação. Logicamente que são impostos, mais impostos, mas vamos dar-lhe outro nome para que o povo, sempre ordeiro, os olhe esperançosamente como um passo sério para a resolução dos seus males. E podemos até dizer-lhe que, desta vez, não lhe vamos ao bolso... o que até é verdade. Enfim, mais ou menos.

Ora vejamos:

1.     Imposto sobre... aham... Taxa Temporária sobre a Felicidade: 
A partir de 1 Fevereiro de 2011, será proibida qualquer manifestação de felicidade, desde sentimento particular a demonstração geral. No caso de acontecer, o prevaricador será multado e obrigado a pagar 100€ por cada grau de felicidade, de 0  a 10, tabela a ser produzida pelo futuro Ministério de Seriedade Social (MSS).

2.     Taxa Temporária sobre Sonhos:
Sonhar não é produtivo. Antes, desenvolve sentimentos antagónicos à realidade, provocando em quem sonha necessidades de procurar outro destino para a sua existência, situação desfavorável para a ordem social. Uma sobretaxa será aplicada aos sonhos eróticos. Contudo, quem tiver pesadelos poderá preencher o formulário adequado e pedir o adiamento do pagamento da multa, que entrará em vigor a partir de 25 de Abril de 2011, paralelamente à abertura do novo Instituto para o Regulamento de Vidas Equidistantes.

3.     Taxa Temporária sobre Boa Disposição:
Um povo tristonho e infeliz, é um povo trabalhador que aceita ordens e constantes entraves ao seu progresso individual e social. É imperativo continuar esta politica para evitar sérios atropelamentos ao desenvolvimento dos filiados dos partidos que ocupam o poder. Está prevista a constituição do Instituto 1984, subsidiário directo do MSS, e que terá a finalidade de marcar digitalmente o pescoço de cada contribuinte com um sofisticado chip que conterá a informação pessoal, desde dados genéticos e actividade profissional, aos momentos de relaxe e diversão. As coimas serão activadas a partir de dois momentos sorridentes.

4.     Taxa Temporária sobre a Fé:
Será totalmente proibido ter fé num futuro melhor. Serão também abolidas expressões como “luz ao fundo do túnel”, “pior do que está é impossível” e “amanhã é um novo dia”. Uma sobretaxa será aplicada à Fézada, uma situação anormal e aleatória, que concede algum alivio individual e alimenta quem está próximo. Jogos de azar serão obrigatórios e nestes serão incluídos os da Santa Casa. Os prémios ficarão na posse estatal, sendo paga uma renda mensal ao vencedor no valor de 1/1000 da quantia total. O futuro Ministério Contra o Abuso do Dinheiro Caído do Céu (MCADCC) terá um papel influente na Igreja, concedendo-lhe algum espaço de manobra, mas orientado e fundamentado pelo novo Tratado Anti-Esperança.

5.     Taxa Temporária contra a Simpatia:
Um povo simpático é um povo de bem com a vida, com alivio monetário e com serviços sociais funcionais. Este sentimento é nefasto à indústria pesada e pode travar o desenvolvimento do país e das exportações. Em época de crise, não existe lugar para filantropias. O estado de espírito tem de ser controlado afim de evitar relacionamentos cordiais e ajudas individuais. O futuro Instituto pela Gravidade de Porte, estará totalmente dependente do MSS, e actuará directamente sobre os casos isolados que continuem a defender, entre outras, a Boa Educação e a Responsabilidade Social.

Outras taxas estão a ser pensadas.

Desta forma, os mandantes conseguem criar mais um número indeterminado de institutos e ministérios, para além de todas as empresas constituídas pelos amigos que fornecerão estas entidades de forma directa, o que impulsionará a economia nacional com a criação de inúmeros postos de trabalho, remunerados acima da média, e com possibilidade de integração em grupo de trabalho activo de quatro em quatro anos. A possibilidade de carreira é uma realidade e existem bónus mensais e anuais, dependendo do alcance dos objectivos firmados a cada nova legislatura. 


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O regresso do desejado será plural



Até que ponto somos garbosos e valentes?
Qual é o limite da nossa coragem?

Vemos, por todo o lado, exemplos extraordinários de bravura aquando uma desgraça, em que alguns colocam o valor da vida de outrem à frente do seu próprio temor e, por vezes, bom senso.
Aplaudimos com vigor essa intrepidez e seguimos em frente.

Sabemos que o ser humano é capaz de superar barreiras, tanto físicas como psicológicas, e olhar para um horizonte de esperança e melhor condição.
Mas ultimamente tem sido mais difícil. Mesmo muito mais difícil.

Há quem lhe chame crise, ou crime, desnorteio, falcatrua, imbecilidade ou mediocridade. Na verdade, estamos pobres, com uma mão à frente e outra atrás. A nossa dívida externa deverá fazer parte, daqui a 50 anos, de um pacote de perdões, porque nunca a iremos pagar. Tal como perdoámos os milhões emprestados a África. Até lá, os actuais mandantes deverão morrer de cirroses provocadas pelos melhores whiskies ou com diabetes alimentados por iguarias diárias.
Mas nunca morrerão de vergonha. Nem de arrependimento. E nem estão para isso, porque, aos poucos, conseguiram uma proeza digna de nota: o tornar cobarde o outrora vigoroso português.

A nossa valentia está doente, a nossa independência idem. Estamos cansados, tristes, indefinidos. Estamos fartos mas sem forças para lutar contra esta sina.
Vamos sobrevivendo, cada dia com menos no bolso, cada hora com mais ataques de pânico e stress acumulado. Olhamos à volta e não vislumbramos a luz ao fundo do túnel, só mais problemas acumulados.

O truque é muito simples: desespera-se o pensante e valoroso, minando-lhe os passos e as vontades. Destrói-se a sua independência, provocando-lhe necessidades a que nunca esteve habituado. E, depois, oferece-se um tachinho ou uma posição em qualquer entidade fabricada para alojar esta gente.
Sem esperança e com dívidas, poucos são os que não aceitam esta esmola.
Os que anuem, sabem que é sol de pouca dura, até outros boys tomarem o lugar destes já mais crescidos. Mas a questão é aguentar o dia a dia e, de certa forma, recuperar alguns vícios sociais. E isso tem muita importância para o português.

Outros há que se mantêm fiéis à sua demanda, recusando o sistema, quer por vergonha própria, quer por educação (também própria) ou mesmo por teimosia (ainda mais própria).
A estes temos de dar os parabéns, mesmo sabendo que não paga contas nem enche o frigorífico. E é com pena que os vemos, aos 30 e 40 anos, a embarcarem num navio com asas e a pirarem-se deste seu cantinho e terra, em busca de qualquer solução séria e honrada.

Diariamente, Portugal vê desaparecer a sua boa casta, um dna que custou a fabricar e que deveria acarinhar e fortalecer. Mas a cada um que se vai, mais poder é garantido aos medíocres que nos enterraram.
É sempre mais fácil mandar em quem tem medo de perder o pouco que ainda tem...

O problema destes tipos mandantes é que se esqueceram, porque são ignorantes e carreiristas, que o português consegue milagres quando apoiado. É sempre dos melhores quando reconhecido. É um exemplo quando o deixam em paz a trabalhar e construir.

Estes que se estão a ir embora, sabem que vão regressar, um dia, à sua terra. Mas sem problemas, com a carteira cheia e uma vontade e dinamismo extraordinários para recomeçar uma guerra.
Pode demorar uma década, ou até mais, mas quando se reunirem na Portela, trocarão abraços guerrilheiros, olhares cúmplices e iniciarão uma revolução necessária e imperativa.

Há os que defendem que será imposta uma ditadura intelectual. Outros industrial. Seja ela qual for, que se apressem.

Até já.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Usar sempre a borrachinha e nunca perde-la de vista



Causa-me confusão chegar a uma cozinha e ver o ralo do lava-loiça destapado.
Custa-me saber que os restos da comida, e outras coisas, vão desaparecer por ali abaixo, provocando entupimentos mais ou menos graves que poderão ocasionar rupturas na canalização, com a consequente inundação doméstica e inevitáveis dores de cabeça e gastos extraordinários.

Sempre tive estas manias, adoro tapa-ralos, como gosto de ligar e desligar os interruptores de uma forma lenta e suave.
Tento também poupar água de duas formas: pressionar o botão do autoclismo a meio da descarga, e fechar o chuveiro aquando a ensaboadela corporal.
Também gosto de evitar que todas as lâmpadas estejam acesas em divisões onde não está ninguém e fico chateado quando, depois de avisar, o hábito se mantém.

Estão a ler isto e devem pensar “epá, o rapaz é verde e poupado”. Nada mais falso! Se contarem as luzinhas vermelhas e azuis dos stand by’s na sala, de certeza que ficariam estarrecidos, como eu fico, a pensar nos watts mensais.
Então porque não desligo tudo? Razão simples... dá uma trabalheira reiniciar as maquinetas todas as manhãs.

Isto demonstra que pensamos numas coisas e voltamos costas a outras, tão ou mais importantes. Ao tentar compreender porque sou um chato numas e não em todas, dei por mim a relembrar a educação parental.
Realmente, a minha mãe falou-me do ralo e dos canos, enquanto o meu pai explicou-me o desgaste dos interruptores e das lâmpadas.
Só não mencionaram as luzinhas vermelhas e azuis porque... não existiam.
Por conseguinte, não obtive nenhum conselho sobre as mesmas e a minha casa é o retrato dessa falta de educação.

Dou por mim a ver os jovens a não fechar as torneiras, a despejar tudo para o ralo e a não desligar os apetrechos electrónicos, desde o computador aos telemóveis. Ou seja, nesta demanda pelo reconhecimento profissional, a minha geração esqueceu-se que tinha de educar os petizes nestas coisas mais prosaicas, e agora pagam uma factura mensal... bem alta, já para não falar do desgaste prematuro das maquinetas o que provocará o reforço dos investimentos bem mais cedo que o esperado.

Armando-me em Capitão Verde, tentei explicar no outro dia, enquanto se lavava a loiça, a possibilidade de entupimento da canalização da cozinha, devido a terem retirado o tapa-ralo do seu lugar. A resposta foi simples: “lá estás tu a ser chato! Isso nunca aconteceu a ninguém!”
Quedei-me... uma das coisas que aprendi ao lidar com malta mais nova, é que eles não ouvem. Mas lá recoloquei o dito.
O alarme tocou durante essa mesma noite, quando a avó da petiz telefonou aflita: a água não parava de brotar do seu lava-loiça, tinha a cozinha toda inundada, o seguro estava-se nas tintas e a Epal demorava. Uma desgraça!

Depois de prestada a ajuda possível, olhei de lado para a petiz, enfiada nas sms do seu melhor e mais íntimo amigo, o telemóvel. Ela fingiu que não percebeu que a olhava, mas não aguentou e explodiu: “Eu sei, eu sei! Tens razão!”

Sorri.
No dia seguinte, o tapa-ralo tinha sumido para sempre.
A petiz levou-o para casa da avó e deixou-me... sei lá.... enervado. 
Saltou-me literalmente a tampa.
Uma coisa é ficarmos satisfeitos por ter ensinado algo, outra é sermos prejudicados de uma forma tão vil e sem aviso prévio.

Tenho ali uma data de loiça acumulada...



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Ai fidelidade, a quanto obrigas o hábito de cada um



Isto da crise já se sabe que não é para todos. Os mais ricos enriquecem e os mais pobres sobrevivem. O desgoverno já nem vergonha tem, mas o povo continua ordeiro e sereno, chegando mesmo a criticar a falta de paciência dos gregos e irlandeses, dos tunisinos e haitianos.

Somos assim, para sempre amedrontados e subjugados por meio século de silêncios e demais ofensas. Dizem que é fado, outros sina, outros ainda molenguice.
Lá fora, os senhores endinheirados olham-nos como Piigs, os vizinhos como um mal menor, os orientais como porta de ouro e os restantes nem sabem quem somos ou onde estamos, tal a nossa actual pequenez, só perfurada de dois em dois ou de quatro em quatro anos.

Contudo, há um elemento que diferencia o português dos demais povos: a fidelidade! Somos tão ou mais que o bacalhau. Revemo-nos nos nossos amados cães, mesmo que os abandonemos antes das férias que outrora foram grandes.
Também continuamos agarrados aos amigos de sempre, assim como às imperiais da marca esta ou aquela, aos tremoços que ainda não se pagam e à bica, complemento vitamínico e proteico para um dia de labuta.

E... parece-me que são os últimos estandartes dessa nossa verdade.

Repare-se, tudo começa quando mudamos de banco. De banco! Por acaso os nossos pais e avós mudaram alguma vez de balcão, quanto mais de banco? Sempre foram fiéis ao Sr. Lopes ou à menina Isabelinha, cumprimentavam todos os funcionários às nove da manhã e as portas estavam sempre abertas, mesmo após as 15h. Hoje, mudamos de banco mal se anuncia uma escalada de juros, independentemente deles próprios (banqueiros) fazerem tudo por tudo, com a constante mudança de gestores de conta, para que não nos sintamos muito à vontade.

Antigamente também fomos fiéis à marca de automóvel. Uma vez francês, toujour français. Uma vez inglês, always british. E por aí adiante, só para não ter de escrever em germânico. Hoje escolhemos a que oferece maior desconto ou mais extras. Nem que seja coreana.

Os petiscos, outrora simbologia nacional, também estão a ser postos de lado, não somente pelo aumento do preço e Iva, mas também porque não são salutares. Ou pelo menos, essa é a desculpa cordial que apresentamos aos demais convivas, quando sabemos que pagar aquela sapateira, os percebes, as entradas, as saídas e os acompanhamentos etílicos, vai fazer-nos mossa lá para o meio do mês.

Enfim, tantos casos que fazem parte de um passado recente, como a ida domingueira ao restaurante preferido da Ericeira para degustar o belo do peixinho fresco, o fim de semana no Algarve (onde ainda muitos têm casa mas já não têm dinheiro para a gasolina e portagens), os copos ao fim de semana pela noite dentro, a visita semestral ao dentista para toda a família, a prenda de aniversário mais especial e onerosa para o amado, um special weekend com english breakfast na cama, as delícias das prateleiras mais altas dos supermercados, e tanta, tanta, tanta coisa.

Mas existe ainda um hábito fiel que conseguiu uma extraordinária estoicidade ao longo dos últimos anos de constantes aumentos: a marca de tabaco! Os fumadores, cada vez mais olhados de soslaio e expulsos dos locais que sempre frequentaram, ainda olham para o seu maço com o logotipo preferido como se de um talismã se tratasse. Aguentam firmes e hirtos o aumento de ontem que rondou os 40 escudos, o de hoje que aumenta 30 e o de amanhã que promete encarecê-lo mais 50.

Era bom, não era?
Até os fumadores tiveram que se fazer à dose. Aliás, a outra dose. O do costume, para sempre guardado diariamente na banca da esquina, passou ontem a ser aquele de menos 10 cêntimos. Hoje, é aquele que custa menos 15 e, amanhã, escolhe-se o que estiver esquecido na prateleira e que ainda está ao preço antigo de anteontem.

E isto sim, demonstra o ponto a que chegámos, nobre povo que demos mundos ao mundo, mas que já não podemos dar mais nada a ninguém porque há ainda outra coisa que sobe mais que o tabaco: a gasolina.

E é melhor nem ir por aí. Nem podemos... porque temos o depósito mais que vazio.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Passar novamente a ser Virgem, nem que fosse por poucos dias



Confesso que não percebo nada de signos nem sei a que mês pertence este ou aquele, com a única excepção do meu próprio e dos de alguns amigos próximos.
Nem compreendo a sua utilidade no início de conversas sociais: Olá, eu sou Gémeos e tu? Ai, Gémeos, que horror! Foge! Foge! Não se pode confiar em vocês.
Mas o que vem a ser isto? Mas porque é que certas almas acreditam mesmo nos horóscopos, lêem as revistas e aqueles livrinhos de bolso que são publicados a todos os Janeiros?

A confusão global instalou-se com o anúncio que teríamos de subtrair um mês ao nosso signo, para conhecermos o, afinal, correcto.
Não se falava de outra coisa e, confesso, também fiz o ensaio e calhou-me Touro. De Gémeos para Touro.
Ora bem, o que é que sei sobre Touros? Pouca coisa. Toda a info registada tem a ver com uma muito ex-namorada e o resultado não foi bonito.
Ao contrário dos Gémeos que são ar, os Touros são terra. Também ao contrário, detestam mudanças e coisas novas. Ainda mais ao contrário, são metódicos e adoram cumprir objectivos. E, para finalizar a comparação, são teimosos e pouco dados a alterarem a sua posição.

Isto assustou-me. De Gémeos, ou seja, do melhor signo do mundo em que duas cabeças pensam melhor que uma e dois corpos são mais trabalhadores que apenas um, vejo-me com um par de cornos, teimoso como uma mula, agarrado às coisas como uma lapa e com a mania de ser melhor que os outros como um leão.

Fiquei, para além de chocado, deveras tristonho.

Saí à rua, nestes dias sebastianistas, e deambulei pela minha zona da cidade que me protege das confusões e ajuda às confissões. Teria de modificar a minha personalidade, deixar de ser sonhador, um bocado aéreo. Passaria de criativo livre e desempoeirado a um suitman cheio de tiques e horários para cumprir.
Passaria a ter a secretária arrumada, o trabalho dividido por folders num ecrã inicial com a foto dos entes queridos, utilizaria pela primeira vez a agenda do telemóvel, só iniciaria a leitura de um livro quando terminasse o que estou a ler e tantas outras coisas que nada têm a ver comigo.

Trata-se de uma enorme injustiça! Compreendo, e até aceito, que os Touros gostassem de passar a ser Gémeos ou, pelas novas contas, que o signo que vem a seguir, um tal de Caranguejo, adorasse passar a ter uma figura humana... aliás, logo duas.

Mas nem todos se podem queixar. Por exemplo, os ex-Balança passariam a ser novamente Virgens. Um sonho antigo da humanidade e para que já existe uma operação cirúrgica. Já os Virgens ficariam mais impuros e deixariam de poder afirmar, com toda a sinceridade, que ainda o eram.

Bolas, antes Virgem que Touro. Pelo menos poderia sorrir nervosamente aquando a próxima noite de luxúria. Mas não, mas não...

Felizmente, as notícias mais recentes afirmam que os signos continuam a ser os mesmos de sempre! Qualquer coisa relacionada com o zodíaco tropical, a projecção elíptica da Terra e um qualquer ponto vernal.

Este rumor, afinal, não passou de um desejo de astrónomos do Minnesota, ou seja, americanos, o que explica muita coisa, principalmente para a crescente fatia da população que já não pode com eles.
Mas cá para mim, estes senhores tinham apenas um desejo:
Deixarem de ser Virgens... if you know what i mean..., e de geeks de laboratório transformarem-se em top models de passerelle.

Opá, se uns acreditam, porque não outros?

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Os dois lados de uma circunferência



Construir uma premissa dramática não é, de todo, um segredo. Basta escolher um personagem e traçar-lhe um caminho. Ao longo desse percurso, alguns obstáculos vão surgindo e ele terá de tomar decisões.

Imaginem: o senhor João Desconhecido decide ir dar uma volta de carro para a montanha. Num repente, um grande tronco cai e atravessa-se na estrada. Decisão: voltar para trás ou torneá-lo? Decide meter o carro pela berma e arriscar. Quando se safa, percebe que a estrada continua em mau estado. Decisão: voltar para trás e reenfrentar a árvore ou continuar a aventura off-road? E por aí adiante.

A nossa vida é tal e qual a construção de uma narrativa. Estamos sempre a dizer que sabemos ao que vamos e mantemos a premissa que desenhámos no início da nossa adolescência, mas ficamos sempre perplexos quando chegamos ao próximo entroncamento. E pior ficamos se é um cruzamento.

É-nos difícil escolher – decidir – a esquerda, direita, frente ou para trás. Somos humanos, é natural recearmos o que sabemos não dominar.

É neste ponto que podemos dividir o ser humano em dois: há os que decidem seguir sempre em frente, e há os que ficam parados na encruzilhada sem saber o que fazer num primeiro momento.
Dizem que estes últimos são cuidadosos, receosos, que pensam muito bem e fazem todas as contas antes de decidir o próximo passo. Geralmente, a sua vida é menos tortuosa mas mais infeliz, contudo, são capazes de ter um emprego certo, alguma paz de espírito e uma condição ordeira.
Os outros, que nem olharam para trás, já lá vão muito à frente. Se calhar enganaram-se no caminho, tiveram acidentes, perderam pertences. Geralmente, a sua vida é mais tortuosa mas menos infeliz, contudo, não pensam sequer em voltar atrás aquando outro cruzamento. A vida é sempre em frente. São audaciosos, por vezes loucos. Têm uma vida cheia de altos e baixos e é assim que a vivem.

O interessante é quando estes dois géneros se cruzam e ficam frente a frente.
O audacioso está cansado de tanto correr e de continuar a ter de fazê-lo para sobreviver, visto que só raras vezes é que consegue um sucesso digno de registo.
O cuidadoso está cansado de tanto pensar e de continuar a ter de fazê-lo para que tudo continue a correr bem, perdendo horas em contas e papelada fiscal.
Por um momento, ambos gostariam de trocar de lugar.
Pensam nisso, nesse cruzamento em que se encontraram.
Podem até tornar-se amigos e viver um pedacito da experiência de cada um.
Encontram, regra geral, alguns pontos de contacto, sonhos idênticos, projectos similares. Mas quis a vida que fossem diferentes e que decidissem direcções opostas.

Qual deles será o mais feliz? Ou o menos infeliz?
Nem eles o sabem, quanto mais nós.

Tal como eles, só temos que tomar mais uma decisão e seguir o caminho que pensamos ser o certo, evitando a todo o custo o que temos de garantido: o andar às voltas.
E isso não é difícil, é apenas dramático.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os belos tachos que existem para quem trabalha com tachos



Fico sempre estupefacto quando vejo um anúncio de um trem de cozinha da inenarrável ideiacasa. O demonstrado frete de quem apresenta o produto, dizendo que é a melhor coisa do mundo, denota também o enfadado trabalho do copy, que, coitado, preferia estar a escrever um anúncio fantasma para tentar ganhar um qualquer prémio internacional, ao invés sobre as inúmeras qualidades dos tachos de metal com, vejam bem, apliques em "ouro".

Logo depois vem um programa de culinária com a Nigella, tão britânica e perfeita na sua cumplicidade com a família - que entra nos programas - assim como na dos amigos convidados para o repasto, que querem é aparecer na televisão.

Temos também o puto reguila (e anafadito) Jamie que, no meio de “f words” lá consegue dizer que os vegetais são salutares e necessários, tendo enveredado por um caminho mais trabalhoso que é o de tentar mudar a alimentação nas escolas britânicas. Ganhou projecção e muito, mas mesmo muito taco, nesta sua demanda pseudo-vegetariana.

Estes dois cozinheiros são quem mais vende livros pelo mundo. Livros de receitas que também dominam os tops portugueses, ao lado de “O Principezinho”, Crepúsculos e feiticeiros. Não é estranho?

Compreendo que os portugueses gostem de ver programas culinários, pois somos um dos povos com mais saberes sobre a arte, e é sempre de bom tom conhecermos mais uma receita. Mas comprar os livros desta gente? E então o Pantagruel? Ou a sebenta da avó? Ou até mesmo as fichas do Pingo Doce? É que estes dois chefs são, para quem ainda não tenha percebido, ingleses! E todos sabemos que a cozinha britânica é, talvez, a pior do mundo.

Esta minha opinião é discordante da dos meus mais próximos. E enquanto eu prefiro ver aquele senhor grisalho a comer pelo mundo tudo o que faz mal, relembro também dois outros programas culinários que segui: um foi o “two fat ladies” e um outro com um chefe negro e gay, que me mostrou delícias globais. Confesso não me lembrar do título e do nome do sujeito, mas faço um salmão com um molho extraordinário à conta dele.

Ora a discussão estala: como é possível eu gostar deste fulano que apresenta o “No reservations”? Mas que nojo, tal e coiso, ele come tudo e mais alguma coisa, desde insectos a testículos de boi.
Sim... eu sei. Mas descobre novos sabores, novas formas de cozinhar, mostra-nos o mundo real, o que as pessoas comem lá no morro do Rio como à beira rio no Vietname.
Ou seja, para mim, comida não é só um alimento. É também terra, ar, fogo e água. São as tradições, as misturas, as originalidades. É por isso que gosto de ver programas diferentes e ousados, curiosamente, feitos por.... ingleses!!!

Interessante é que a mais saborosa comida não é preparada num glorioso trem de cozinha nem tem um livro de capa dura a acompanhar:
Uma tradicional e tosca assadeira de barro, louro, pimenta, sal e azeite fazem com que todos nós, sem excepção, sejamos o mais fantástico dos cozinheiros.
Não precisamos da originalidade de um lençol enrolado na cabeça, nem dos milhões que a BBC ou ITV investem neste conceito televisivo.
Apenas aguardamos que um amigo ou grupo de amigos nos digam que querem jantar connosco, para provarmos que somos capazes de iguarias ímpares, sem recurso a livros nem programas gravados.

A simplicidade não engana. É como o algodão. E sabe bem.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um pequeno passo atrás pode ser um grande passo para a humanidade



Levar com uma maçã no alto da cabeça pode mudar a forma como vemos o mundo. E explica muita coisa. Não há dúvida que o ser humano tem engenho e arte, alguma sabedoria e destreza, mas acima de tudo, a curiosidade felina e um espírito de sacrifício pouco comuns nas restantes espécies. E isto tudo sem contar com o luso desenrascanço, arte milenar que nos governa no dia a dia.

Enquanto vejo passar as últimas horas deste malfadado 2010, em que perdemos tanta gente boa, culta e valorosa, dei por mim a pensar no fulano que inventou que um ano tem 365 dias, mais um quando é bissexto, ou seja, um desenrascanço para alinhavar os números. Mas o que passou pela cabeça desse senhor para perder tempo com toda esta aritmética? E quantos “anos” levou para chegar à conclusão?

De vez em quando, um de nós tem uma ideia peregrina e, num repente, qualquer coisa estranha passa a conhecer uma lógica inabalável. Ele há de tudo, desde grandes pensadores que inventaram maquinetas que ajudaram outros a conseguir enormes feitos, até ao simples curioso que percebeu, arriscando a vida na apanha, que os percebes eram comestíveis.

A lista é infindável: quem foi o primeiro a descascar a banana antes de comê-la? Ou qualquer outro fruto? Quem foi o maluco que descascou a primeira pevide? E o tonto que se protegeu do frio com o primeiro “casaco” de pele e pelo?
É que falamos daqueles que inventaram a roda e perceberam que o mundo não era quadrado, mas esquecemos os pequeninos que nos mostraram o caminho, ao perceber que alguns cogumelos eram nefastos para a saúde e que aquecer azeite com cebola cortada traduz-se num dos mais apetitosos cheiros de que temos memória.

Ora se somos assim, curiosos e extraordinários, porque é que tivemos de inventar uma coisa chamada politica? E, muito pior, políticos? Quantos de nós já não nos enervámos porque temos soluções para os problemas e estes “profissionais” conseguem errar constantemente e fazer tudo ao contrário da mais humilde lógica?

A meu ver, todos eles poderiam levar com uma maçã no alto da cabeça. Até podia ser das podres. Talvez, com muita sorte, acordassem e percebessem que, fazendo mal as coisas, também eles irão perder todos os luxos que garantiram. Mais tarde que nós, mas também.
Até poderia ser que, no caso português, optassem pela reestruturação social, imitassem os antigos quando olharam a educação e a cultura como a grande ponte para a excelência de um povo, por exemplo.

É que sem bases sólidas, nenhum arranha-céus é seguro.
E nós temos a mania de voar alto.
Está na hora de voltarmos a ser pequeninos, mas curiosos e inventivos, destemidos e peregrinos, corajosos e loucos.

É este o caminho para voltar a ser grande.
Apenas um pequeno passo atrás.

Um bom 2011 para todos!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Manter uma posição enquanto sofremos imposições


É uma realidade: a maior parte da nossa vida é passada com pessoas que nos são, de uma forma ou outra, impostas.
Começamos cedo, nos parques infantis. Devido ao bairro onde os nossos pais vivem, conhecemos a tenra idade de muitos meninos e meninas, alguns que serão os nossos colegas e amigos ao longo dos primeiros anos de escola.

Essa nossa vida estudantil ensina-nos que a vida é cruel. Quando firmamos as bases para um relacionamento estável e duradouro, lá vem uma nova escola e outra e ainda outra e, com elas, todo um rancho de crianças, adolescentes e jovens universitários.
Somos, portanto, obrigados a estar sempre a mudar de relacionamentos e amizades, algumas que até mereciam uma verdadeira oportunidade.

Chegados ao primeiro emprego - quem o consegue - temos de dividir o espaço com pessoas que não nos dizem absolutamente nada, totais estranhos e, muitas vezes, já receosos pela nossa anunciada presença.
Os choques de personalidade farão parte dos primeiros passos profissionais e criamos as primeiras inimizades que nos podem, realmente, prejudicar.

Tomamos o café com esta gente, passamos a hora de almoço com esta gente e, muitas vezes, ainda fazemos serões com esta gente. Enquanto isto, os nossos verdadeiros amigos, alguns dos quais nos acompanham desde a infância, convidam-nos para jantar ou tomar um copo depois do trabalho. Mas como são mesmo amigos, entendem as negas e fica sempre para uma próxima vez.

Depois casamos e conhecemos toda uma nova família, para além dos muitos amigos da nova companhia. Se bem que alguns são extraordinários, outros não alinham com a nossa – também para eles – imposta presença. Logicamente que haverá conflitos que darão discussões...
Mais uma vez, lá deixamos pendurados os que escolhemos com o coração anos atrás. Mas como são mesmo amigos, entendem as negas e fica sempre para uma próxima vez.

E os vizinhos das novas casas? Não são bem os do nosso prédio, com quem temos acesas discussões durante as reuniões de condóminos, mas sim aqueles que têm varandas ou janelas directamente viradas para o nosso ninho. É toda uma gente que não queremos conhecer, mas que nos entram pela sala dentro... diariamente.

Envelhecemos no meio de pessoas que nos foram surgindo ao longo dos anos, quer por motivos profissionais, quer porque todos acabamos por ter novos relacionamentos, e com eles, novas pessoas que trazem outras, para além de todas as famílias emprestadas que fomos, também, deixando para trás.
Depois alguns admiram-se que existam pessoas com mais de 500 relacionamentos “reais” no facebook e similares...

É um vaivém de apresentações, discussões, pazes e novas oportunidades. São as horas que passamos a olhar de lado alguns companheiros de vida de quem está na nossa alma. São conversas intermináveis com opiniões que não nos interessam e com quem não temos um pingo de cumplicidade.

Enquanto os anos voam, sentimos cada vez mais falta da simplicidade dos primeiros anos do parque infantil, em que gostávamos de A ou B e atirávamos pedras e areia a C e D.
Mas de vez em quando, nos aniversários, natais e passagem de anos, conseguimos lembrar quem nos ficou para sempre e prometemos que será diferente a partir de hoje.
Já ninguém acredita... mas como são mesmo amigos, entendem as negas e fica sempre para uma próxima vez.