quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Perde-se tempo precioso a cada minuto que passa



Se ontem havia tempo de sobra, hoje há falta de tempo.
O que mudou neste entretempo?
A resposta é muito simples: a tecnologia.
Pois é. Pura e simplesmente a tecnologia.
Vamos a contas.

Sou um garoto nascido mesmo na metade dos anos sessenta. Sendo assim, ultrapassei como pude a década mais horripilante de todas, essa tal dos 70, em que toda a gente se vestia de forma a não conseguir parceiro sexual, cuja revolução aconteceu somente devido a excessos e a experiências com substâncias não muito católicas.

Lembro-me, porém, mesmo vestido e calçado pela minha mãe, com boca de sino a tapar as botas de pele de carneiro e camisas cintadas cujo colarinho chegava à costura da manga, que tinha amigos. Amigos no masculino. Isso das miúdas era para outras idades.
Passava a manhã na escola, chegava a casa para almoçar e fazer os TPC. Depois, bom, depois tinha tempo livre para fazer o que bem entendesse, desde que não saísse dos domínios da avenida. Tive a sorte de nascer e viver num bairro com jardins, o que permitiu muita subida às árvores, muita futebolada, muita apanhada e toca-e-foge, muito berlinde, muita queda das bicicletas e dos skates, e muito ténis-de-parede.

Com os meus inúmeros amigos, sobrevivia a este ritmo fisicamente esforçado. E, no final das tardes, ainda tinha tempo para ler um qualquer livro da Blyton, do Verne ou do Doyle, passando pelo Graton, Goscinny, Hergé e Disney, entre tantos outros.
Pedi ao meu pai que comprasse aqueles livros de “cultura”, pesados e cheios de bonecada, que o Circulo dos Leitores vendia, para além de colecções sobre as guerras mundiais, os clássicos da literatura, e tanta outra descoberta.

Num repente, um dos vizinhos tocou a todas as portas e pediu-nos para ir lá a casa. Deparámo-nos com uma coisa esquisita, com um teclado de borracha, e uns cabos que se ligavam ao televisor. Essa máquina do demo encantou-nos e retirou-nos da rua, o que naquela altura não era sinónimo de perdição.
As horas seguintes foram passadas em grupo com a maquineta. As primeiras discussões também, pois todos nós queríamos chegar à nossa vez para não mais a largar. E os pais perceberam que tinham de desembolsar uma quantia avultada para dar ao respectivo petiz histérico essa tal coisa chamada Spectrum.

Eu não tive um Spectrum. Portanto, descobri as miúdas uns anos mais cedo. E segui essa felicidade e facilidade por não ter concorrência, pois ninguém saía dos quartos.

Passado pouco tempo, tive o meu primeiro computador, um bicho a que chamaram Commodore Amiga. Imaginem o gozado que fui por ter uma “amiga” lá em casa... Esse maquinão ajudou-me a encaminhar a vida. Com ele descobri programas que editavam vídeo e áudio. Com ele descobri que se podia controlar sintetizadores e fazer música. Fora os magníficos jogos, que me afastaram dessa vida horripilante ao ar livre e em constante esforço físico com consequências nefastas para o corpo humano.

Comecei a ter falta de tempo.

Principalmente quando comprei o primeiro Macintosh. Depois o primeiro PC. Depois o primeiro telemóvel e depois o primeiro portátil.

Num repente, deixei de ver os amigos de sempre e passei a ter outros. Cada qual com a sua máquina de eleição e poucos com telemóvel e carro. Já tínhamos mais de 20 anos e, pasme-se, íamos de transportes públicos para todo o lado. O horror...

O dia passava entre o estudo, as máquinas, os projectos, alguns trabalhos para ganhar dinheiro, as matinés e as noites, ora no cinema, ora no Bairro Alto entretanto a acordar das leitarias e das velhas prostitutas de rua.

Não havia tempo para mais nada.
Mas as horas eram preenchidas com grandes tertúlias, vontade de mudar o mundo, chegar mais longe que os restantes, fazer empresas próprias, viajar, discutir, aprender, sonhar e sorrir.

Não havia tempo porque já éramos dominados pela tecnologia, que nos permitia ser designers gráficos, realizadores, músicos, cientistas, e tanta coisa.
Mas fomos felizes, não fomos?

Hoje seria de supor que a malta mais nova, que já nasceu com um telemóvel no berço e um laptop no colo, os usassem para chegar mais longe que nós, que facilitassem o seu dia a dia, que abusassem do conhecimento global à distância de um click, que não tivessem de perder tempo a tentar aprender a mexer com cada máquina nova que surgisse com o seu diferente modus operandi e linguagem operativa.

Mas não. Clicam fervorosamente e durante 20 horas/dia, mensagens mal escritas. Deixaram de ler, portanto não sabem escrever. Como teclam nas redes, não conversam. O discurso é inexistente e os erros evidentes. O desinteresse por tudo e todos é real, enquanto o próprio umbigo se tornou no centro das atenções.

Claro que há excepções, claro que há malta extraordinária.
Mas são muito poucos e, decididamente, aqueles que ouviram os mais velhos.

Nós?
Nós estamos cansados.
Ainda continuamos na labuta do conhecimento, ainda temos amigos...
Mas sabemos bem que o que mais gostaríamos era que o tempo voltasse para trás.

Nem que fosse por pouco tempo.

13 comentários:

Joana Pinto Coelho disse...

Permite-me discordar.
Sem pretender falar por toda a minha geração telemobilizada e computorizada - as excepções vão além da excepção. E pretender que não nos mexemos nem queremos olhar à nossa volta - isso já me faz lembrar o triste comentário à geração rasca de há uns anos.
Vê o que é hoje arranjar emprego para a gente da minha idade - em que nos pedem domínio total de Photoshops, 3DStudio Max, ArchiCADs, AutoCADs, Sketchups e afins (e falo apenas das áreas remotamente ligadas à arquitectura!), e percebes que o que para vocês foi de descoberta, para nós é o manual básico da sobrevivência. Sem certezas de vantagem. Equipara-se a saber ler ou escrever.
Erros de português? Sempre foram uma praga. Tenha-se 15 ou 65 anos - quem se expõe na internet expõe o que escreve. Os "voltas-te" encontro em toda a gente.
Basicamente - a internet e a tecnologia podia ter sido o que não se tornou. Mas não apontes a mira à "malta mais nova". Há falhas em todas as maltas.

Ana Oliveira disse...

sempre que me lembro do tempo, maravilhoso, da avenida, sinto a acidez da saudade. que bom que era ter tempo para o perder em nós e por nós naqueles jardins que ainda hoje oiço chamar por mim.
mas hoje já não tenho tempo.
como tu, meu amigo.
Obrigado por me trazeres pedaços de um tempo que só quem nasceu naquela década conheceu. :)

João Gata disse...

Eu gosto é de "discordantes" :)

Mas Joana... a necessidade de dominarmos todos os softwares, todas as linguagens, toda a teoria e prática ainda fazem parte dos mais velhos.
Mas logicamente que todas as gerações têm o seu podre.
E quando falas na infeliz adjectivação da "geração rasca", eu nem sei qual é a da minha.
O problema passa que muita gente dessa geração "rasca" fique toda contnte por causa de ma música e letra medíocres que já são badaladas como intervenção.
Algo vai mal...
É mesmo o menor esforço o caminho?

João Gata disse...

Ana, a avenida ainda lá está... igualizinha... mas sem putos nas árvores e biclas.

Anónimo disse...

Querido Amigo, embora verifique que o comentário da Joana tem fundamento ela é, felizmente, excepção à regra.
Eu que sou da geração anterior (50) entendo o que dizes e noto alguma amargura pela perda do contacto humano que as tecnologias trouxeram, isto sem questionar as inúmeras vantagens dessa mesma tecnologia. Se calhar teremos que “bater no fundo” do isolamento tecnológico, para aprendermos a colocar as máquinas nos seus devidos lugares.
Nada substitui um olhar, um afago no rosto ou uma palavra amiga.
Continua a escrever, meu amigo e a dar-nos o prazer destes belos textos. Luísa Barragon

João Gata disse...

Obrigado luísa.
A nossa Joana teve a sorte de ser bem encaminhada, não é?
:)

Anónimo disse...

Lamento imenso, mas não vou poder dar-te o gostinho de discordar. Concordo imenso. :-)

Ana Grichetchkine

Joana Pinto Coelho disse...

Não será, concerteza.
Lembro-me de te ouvir falar do quanto a vossa geração fez o país avançar - e claro que o fez! As ferramentas começavam a surgir, vocês tinham ideias, Portugal estava estagnado. Vocês escolheram o caminho do maior esforço e, de certa forma, moldaram-nos o país.
Agora, o caminho à nossa frente... fazemo-lo caminhando como podemos. Há uma margem de escolha em tudo que não havia há vinte anos - falas da música, eu falo de interesses, ideias e de lutas para arrancar.
É que há muitos jovens sem lentes olho-de-peixe para o que os rodeia - mas os que têm levam consigo o dilema de ficarem a remar contra a maré de todas as gerações com que competimos todos os dias - ou de sair.
É que a internet tem esse outro lado - permitiu-nos descobrir que a fronteira com Espanha só existe no mapa. O mundo é enorme.
Restar-nos-á, apenas, ir para fora e mostrar que soubemos, afinal de contas, usar os computadores e os telemóveis com que nascemos?
O menor esforço, nos anos 80 ou nos anos 10, é uma questão de ponto de vista...

João Gata disse...

Joana, o quanto eu gostava que a tua e a MINHA geração pensassem assim...

pensamentosametro disse...

Pois eu sei que gostas de discordantes mas em já alguns anos de convivência raramente discordámos, apenas por um ou outro favoritismo musical. Vivo hoje num local que deveria estar cheio de biclas skates e bolas a partir vidraças e se encontra vazio de miudagem, temos, muita, muito sinceramente , pena.

Beijos


Tita

João Gata disse...

pois é T...

Anónimo disse...

Alguém me disse há tempo, não sei se assertivamente, que a tendência iria ser para as gerações mais jovens "recuarem", recuperando a espécie de elo perdido pela toxicidade da tecnologia. Tenho esperança que os que vêm a seguir destes, sejam mais sábios que nós e que os mais novos de agora
Célia A.

João Gata disse...

Não sei porquê, mas n acredito que as vindouras o façam. A vertigem, ainda recente, é doce...