sexta-feira, 16 de outubro de 2009

cento e um

Há qualquer coisa de estranho numa coincidência. Sempre olhei para elas com desdém, pois não acredito em bruxas nem nesse folclore que até acho divertido. Mas depois olho o número do post e é inevitável parar para pensar. Prometi a mim próprio não tomar este espaço como memorial, mas... que se dane, porque não?
Vivi 10 longos anos com este ser. Diariamente.
Lembro-me que foi escolhido porque lambeu o dedo enquanto os irmãos mo morderam. Tinha também uma mancha enorme na cabeça que parecia um choné. Foi logo alcunhado de Camões mas depressa passou a Ega e de seguida a Óscar. Óscar Wild, não Wilde. Não interessam as razões da mudança de nomenclatura, mas posso adiantar que teve a ver com a fraca noção cultural de quem se lhe apresentava ao caminho. Ok, não resisto: Ega era nome de menina...
Desde cedo se percebeu que o trôpego era muito inteligente pois fazia as necessidades em cima das enormes A3 do jornal "espesso" que eram sempre distribuidas pelas várias cozinhas ou marquises dos visitados. Nunca fez porcaria fora delas o que denotava uma inclinação precoce para as artes.
Foi autor de um mensário que prefez o seu primeiro ano e viu-se convidado para ser admirado online, numa altura em que pouca gente sabia que existia esse sub-mundo.
Há muito para contar sobre as primeiras aventuras no exterior, as folhas outonais que lhe viravam a atenção, a esquina preferida para o primeiro alívio, as viagens mais longas de carro, veículos que a partir daí passaram de egoístas duas para cinco portas para ele poder ser admirado por quem vinha nos carros atrás.
Fez muitos amigos! O maior de todos, Zorba! Estão juntos neste momento. Depois havia os outros, inclusivé da mesma raça, mas a relação com o grego foi duradoura. Imaginem um jardim em que todos os dias um Dálmata passeava com um Boxer e em que depois se juntavam todas as raças e credos, tamanhos e feitios, donas e donos, amigos e amigas... era um jardim feliz de Lisboa.
O Óscar conheceu ao longo da sua existência três tipos de pessoas:
a) as que o adoraram desde o início.
b) as que detestavam essa coisa denominada cão mas que ficaram rendidas.
c) as que tinham pavor que ele ajudou a ultrapassar.
Também conheceu inúmeras pessoas de quadrantes diversos, desde engenheiros a políticos, arquitectos a fotógrafos, designers e pintores, poetas e desesperados, pais e mães, irmãos e irmãs, filhos e filhas e afilhado/as e enteadas.
Mas de todos, com quem mais (sobre)viveu foram os músicos. Imaginem um ser que tem não sei quantas vezes mais audição que nós levar desde puto com violinos, gaitas de foles, guitarras várias, flautas, caixas de ritmos e programas software que faziam imenso ruído mas que ele também entendia como música... ah valente. Interessante relembrar agora o rol de músicos e artistas tão famosos e inalcansáveis que lhe fizeram tantos afagos no alto da tola...
Também viveu as mulheres que fazem parte de uma vida, sem um queixume, um ciúme, um desentendimento, um desamoro ou desnorteio. Ajudou a amar e foi por isso também amado. Ah, valente!
Ultrapassou sem mágoa os bons e maus ventos de quem o tinha, ajudando à reavaliação e ao reacordar diário, sempre com um mimo, sempre com um primeiro sorriso, sempre com aquela força que só eles conseguem visitar todo os dias. Tão valente!
Tanto afocinhava as malas de quem prometia guloseimas, como oferecia os pertences a quem o visitava.
Tanto era a alegria de todas as casas como a preocupação de todos os seus membros.
Tanta coisa que deu e tanto mimo que recebeu.
Quem não se lembra dos "olhinhos", do fazer-se pequenino para conseguir subir para um colo, de uma cama sempre ao seu dispôr mesmo à revelia do dono, do apetite voraz por queijo flamengo ou pelo silêncio astuto com que enganava o dono enquanto recebia mil e um bocados de comida dados com segredo por baixo da mesa pelos convivas de repasto?
É também indissociável nas aventuras empresarias, sendo mascote de escritórios que foram mudando com o tempo e vida. Era matreiro a escolher clientes como calmo nas discussões criativas mais acesas.
Era, acima de tudo, educado (fora os dias difíceis que lhe surgiam mesmo em frente às narinas) e extremamente asseado. Podia largar pelo duas vezes por ano (seis meses no inverno e seis meses no verão), mas parecia um felino com a paranóia da auto-limpeza.
Muito, mas mesmo muito fica por mencionar.
Nos últimos tempos, foi-se abaixo das canelas, mas sempre garboso e pedante, amuava cada vez que se tentava ajudá-lo a transpôr qualquer obstáculo mais complicado. Não gostava mesmo nada disso mas lá se ia deixando empurrar por mãos amigas, por gente que o amava. Mas amuava. Amuava porque sabia que já estava a ser uma preocupação, um temor, uma tristeza, um daqueles males de que o coração sofre. O coração do dono.
Nestes últimos meses conseguiu proezas dignas de realce: ficou muito amigo de 1/3 de gatos, tirou o medo a quem tinha pavor, fez catpeople olharem para a sua raça como fantástica e ainda foi buscar a bola amarela cada vez que o benfica marcava um golo ou quando a ferrari estava quase a vencer um grande prémio neste ano menos bom.
A bola amarela...
Há três tipos de pessoas que sabem o que é:
a) as que a adoraram desde o início.
b) as que detestavam essa coisa mas que ficaram rendidas.
c) as que tinham pavor mas que ele obrigou a ir buscar... e buscar... e rebuscar.

Um grande ão, amigo.
Que as minhas últimas lágrimas façam parte do rio que tanto gostavas de cheirar.

14 comentários:

Ana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana disse...

:) Wild and lovely, so sweet este teu memorial dedicado a Wilde, o dalmata que nos cativa mal nos cruzamos contigo no FB...
Quem nunca se deixou apaixonar, levar por um cão é porque nunca esteve tempo suficiente ao pé de um. Quando comecei a namorar o meu marido, "odiava" a cadela dele. Tinha cíumes. Uns cíumes de "perra". Depois, não sei como, acabei por me apaixonar pelo bicho também, a achá-la muito gente... :)
Tem 7 anos agora e só nos tem dado alegrias. Pronto, e alguns estragos nos sofás. Mas que é isso comparado com as lambidelas que a minha filha leva ou porque fez dodói, ou por nada, apenas por gratidão...? :)

Ana disse...

:) Wild and lovely, so sweet este teu memorial dedicado a Wilde, o dalmata que nos cativa mal nos cruzamos contigo no FB...
Quem nunca se deixou apaixonar, levar por um cão é porque nunca esteve tempo suficiente ao pé de um. Quando comecei a namorar o meu marido, "odiava" a cadela dele. Tinha cíumes. Uns cíumes de "perra". Depois, não sei como, acabei por me apaixonar pelo bicho também, a achá-la muito gente... :)
Tem 7 anos agora e só nos tem dado alegrias. Pronto, e alguns estragos nos sofás. Mas que é isso comparado com as lambidelas que a minha filha leva ou porque fez dodói, ou por nada, apenas por gratidão...? :)

maria teresa disse...

Só um HOMEM consegue exprimir por estas palavras o que sentia e ainda sente, por um AMIGO que nada lhe pedia... Sem mais palavras!
Um bem-haja e um grande abraço meu

Byckas disse...

Um no na minha garganta e lagrimas foram crescendo a medida que li/senti o teu coracao a falar...

Lindo tudo o que ficou e viveste com o teu valente, adoravel, inseparavel Oscar.

Dolorosa , injusta a separacao... mas tenho a dizer que o que viveram juntos foi lindo e isso ninguem vos tira!
um abraco apertado

Maria José disse...

A bola amarela....
O Haltere vermelho... que continua em minha casa(ainda este Agosto, ao entrar foi num ápice busca-lo e sem qualquer amuo!!!)
Enfim...
Com as tuas palavras, retiras-me as minhas!
Para sempre o retrato! Aquele que deixa transparecer uma vida, uma paixão, um amor. Mas não o de Dorian Gray.... mas sim o "das molas" na porta do frigorífico!
Um grande ão!

Anónimo disse...

Conheci o Óscar no mesmo dia em que te conheci a ti. Dessa noite, lembro-me da insistência do bicho em saltar para cima de mim e de tu, o Orlando e a Rute o tentarem evitar, por causa das minhas alergias :)Mas que se havia de fazer, ele não me largava. Acho que deve ter percebido, quando os nossos olhares se cruzaram, que eu fazia mais parte do mundo dele, que do mundo dos humanos. Ainda hoje retenho aquele doce olhar.

mario disse...

um abração amigo joao! paulo olha q 2

Jane Doe disse...

Acho que gostava de o ter conhecido, quem sabe ele tivesse ficado amigo do meu bicho-do-mato aka gato preto.

Deixo um abraço, que tenta talvez minimizar uma dor que eu não conheço.

Jane.

Quase nos 50 disse...

Também tive um dálmata há uns bons anos e deixou-me de repente aos 7 anos de vida.
Tive um desgosto que não foi muito bem compreendido porque afinal era "apenas" um cão!
Que eu alimentei a biberão, era como se fosse um filho.
Era extremamente inteligente e muito brincalhão e até era amigo do gato cá de casa.
Depois dele tive mais 2 cães que tiveram ambos que ser eutanizados, sendo o mais recente este ano.
Este morreu de velhice e a todos recordo como verdadeiros companheiros.
Mas das 3 vezes senti-me como se tivesse perdido um membro da minha família que afinal foram.
;-)

Gi disse...

Há, realmente, qualque coisa de estranho muma coincidência ...

AB. . . .Dinamarca disse...

Chorei do inicio ao fim...eu faco parte das duas ultimas categorias...alias a tres...pq eu adoreio desde o inicio..

eu amava esse cao. esta a ser tao dificil...

OSCAR FOSTE , ÉS E SERAS O MELHOR CAO DO MUNDO!!!!!

ATE JA
R.I.P

volteface.book disse...

Bem hajam pelas vossas palavras amigas.

ecila disse...

Sinto muito, sei o quanto custa quando se perdem estes grandes amigos. O Oscar parece ter sido feliz e isso é muito importante. Um abraço.