terça-feira, 23 de novembro de 2010

A idade do armário que de madeira passou a contraplacado.



É interessante falar, por vezes até conversar, com petizes que entraram na idade do armário.

Se à minha época, esse armário era a figura estilística encontrada para descontar os silêncios, as permanências exageradas no quarto e a cabeça cabisbaixa às horas de refeição, hoje as coisas mudaram um bocadito.

Os petizes andam enraivecidos!

Terão razão? O mundo mudou assim tanto?
Bom... talvez.
Antes, os traquinas mostravam com evidente orgulho as primeiras penugens faciais, sempre ridículas e imberbes.
Aqueles parcos e afastados pelos, entre o nariz e o lábio superior, formalizavam a passagem para a idade adulta.
O que fazem hoje? Ao primeiro sinal de crescimento de um qualquer pelo em qualquer local do corpo sem ser no alto da cabeça, vivem a urgência de rapá-lo, queimá-lo, puxá-lo, destrui-lo.
Se antes a mãe e o pai não permitiam qualquer desvio no guarda-roupa adequado à sua classe social, como por exemplo os Le Coq Sportif, os jeans Wrangler, Lee ou Lois, o pólo Lacoste ou Coronel e o pullover Sidney numa gama média/alta, hoje os putos mandam nas suas escolhas. Ou pensam que mandam, pois pelo que parece, o andar vestido com calças que caem até aos joelhos, sweats com capuz, ténis sem atacadores e phones constantemente nos ouvidos, são uma espécie de fardamento obrigatório, como se de uma bata ou bibe se tratasse.
Conclusão: nem antigamente nem agora a vida foi e é fácil. Temos um empate.

No campo feminino, as modas surgiam e desapareciam em catadupa. Quem viveu o liceu nos 70/80, nunca se esquecerá das calças de bombazine extremamente justas até ao joelho que depois alargavam até tapar o calçado. Ou das botas de pele de carneiro, os anoraks e kispos.
Hoje elas dizem-nos... aliás, gritam-nos, que têm de ter aquela roupa, e aquela, e aquela outra, e mais aquela e morrem se não tiverem aquela ali da montra. O problema é que a montra agora é global - chamam-lhe internet - onde encontram a cor que a amiga não tem e o modelo que ainda não chegou a Portugal.

Em termos de vivência sexual, as coisas também “mudaram” muito. Se antigamente havia as curtes, hoje há os enrolanços. A actividade sexual era vista como o passaporte para uma atitude mais adulta, hoje é “a” questão que engloba todas as conversas, sms e chats. Antes, era impensável ter mais que um “namorado”, hoje é impensável ter apenas um. É de cota, isso.
Conclusão: nem antigamente nem agora a vida foi e é fácil. Temos um empate.

O mais interessante é reparar nos actuais petizes quando não conseguem a roupa, o MP3, o telemóvel com redes sociais, o bilhete para o concerto ou a saída nocturna durante todo o fim de semana.
Chegam a casa, remetem-se e nos para o silêncio, permanecem exageradamente no quarto, forçam-nos a aceitar a cabeça cabisbaixa às horas de refeição e respondem mal.

É essa a única diferença para connosco: é que são mais arrogantes, malcriados, altivos e parvos, não conseguindo aceitar que nós já passámos por tudo isto.
O que mudou foi o simples acto de ouvir.
Nós ainda ouvíamos os conselhos ou sermões.
Eles ouvem os decibéis que abafam qualquer bom senso.

7 comentários:

maria teresa disse...

Acabou por haver um desempate...já estava a ficar preocupada!:):):)

Gatinha disse...

Ouvíamos??? De certeza?
Acho que hj em dias lhes falta é uma causa para a rebeldia, q nós sp íamos tendo...
Se agora têm tudo, rebelar-se para q? São ainda mais conformistas q a 3ª idade!
*

Ana Oliveira disse...

não sei se o que mudou foi só o simples acto de ouvir abafado por decibéis.
ainda há quem dê conselhos e sermões?
hoje perguntaram-me (não sei por que carga de água me têm em conta de mãe experiente...)como aconselhar uma filha a consquistar o seu amor. a criatura em causa está apaixonada aos 10 anos.
Confesso que a pergunta me chocou. Disse que não sabia. porque a minha filha de 10 anos é uma criança. ainda não conquista paixões.....
mas se calhar o problema é meu. tenho um atraso geracional.....

JG disse...

Maria Teresa, safa... :)

JG disse...

Gatinha, tocas num ponto sério.
Que dava para todo um consultório...

JG disse...

Ana, a minha primeira paixão foi lá nas quartas-classes. Era uma de duas gémeas. Claro que não chegou a lado algum, mas devo ter sofrido horrores.
De qualquer forma, e com 10 anos, essa filhota ainda vai demorar mais meia vida para entrar na idade do armário.
E aí é que vão ser elas.

Ponto disse...

Não sei se já saí da dita, mas há sempre o lado positivo da coisa - sai-se!