segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Uma floresta começa sempre por uma única semente.



O que seria do mundo se não tivessem existido teimosos? Estaria, definitivamente, muito diferente e bem pior.

São os teimosos que não se vergam às leis humanas, que decidem tomar um caminho próprio e enfrentar as muitas lombas, muitos buracos, muitas rasteiras. Ganham ódios que lhes travam os ímpetos. Mas também ganham amizades, grandes amizades, com um respeito e admiração pouco comuns.

São os teimosos que lutam por um ideal ou uma simples ideia. E poucos falham na sua obra de vida. Podem azucrinar o espírito próximo, medindo-lhe o limite da paciência, enfrentando-lhe a discussão, tomando-lhe o pulso, mas, no fim, existe sempre mais um abraço e um sorriso cúmplice.

São os teimosos que impulsionam esta nossa vidinha tão ridícula. Enquanto vemos passar os dias como se fossem o prolongamento dos anteriores, essa gente chata descobre, em cada um, mais um motivo de luta, de entusiasmo, de tertúlia, de acção e, finalmente, de regozijo.

As teimosias podem ser infantis e até cruéis, como só os putos o são. Mas também há lugar para arrependimentos e passos-atrás mais rápidos que o anunciado. E, depois, há pazes que se fazem no meio de copos vazios e outros por esvaziar. E esse aperto de mão é, geralmente, o início de uma outra vida, que se junta às muitas paralelas que se podem viver.

Acontece que os teimosos vivem a vida mais depressa que todos os outros. E, por isso, desgastam-se a um ritmo mais acelerado. É o preço que se paga quando se é maior que a própria vida e, sabemos bem, ela nunca foi barata.

Os teimosos sabem bem que pisam o risco, mas preferem-no a ser iguais a nós, os demais, paranóicos e vulgares, cheios de medos e cuidados. Por isso são chatos e teimosos. Chatos porque são teimosos. E teimosos porque são chatos. Não mudam uma vírgula às frases que reescrevem. Mas mudam todas as almas que têm a sorte de conhecê-los, e por vezes, confrontá-los.

Acontece também que as lutas constantes causam mossa. E a guerra contra o tempo e a injustiça faz envelhecer um corpo, mas nunca a alma. É essa que perdura nos anais, que modifica algo nos restantes, que dá vontade para que continuemos esse caminho tortuoso, mas enorme, fantástico!

Por vezes, somos tocados ao de leve, pois o tempo foi escasso. Mas sentimos que essas horas, por pouco que signifiquem numa vida, foram grandes e maiores que ele próprio, esse tempo vulgar e que todos desejamos imortal.

E, num repente, acontece: passamos a ser teimosos. E chatos.



Foto de Carlos Pinto Coelho,  Ruins of St. Cucufate Monastery - Vidigueira - Portugal

3 comentários:

HM disse...

escreves bem e pensas melhor ainda. bjo gde

Ana disse...

Eu não sou teimosa, sou persistente.
É diferente...

Antígona disse...

Muito bom J. :):) Gostei tanto :)