terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Ai fidelidade, a quanto obrigas o hábito de cada um



Isto da crise já se sabe que não é para todos. Os mais ricos enriquecem e os mais pobres sobrevivem. O desgoverno já nem vergonha tem, mas o povo continua ordeiro e sereno, chegando mesmo a criticar a falta de paciência dos gregos e irlandeses, dos tunisinos e haitianos.

Somos assim, para sempre amedrontados e subjugados por meio século de silêncios e demais ofensas. Dizem que é fado, outros sina, outros ainda molenguice.
Lá fora, os senhores endinheirados olham-nos como Piigs, os vizinhos como um mal menor, os orientais como porta de ouro e os restantes nem sabem quem somos ou onde estamos, tal a nossa actual pequenez, só perfurada de dois em dois ou de quatro em quatro anos.

Contudo, há um elemento que diferencia o português dos demais povos: a fidelidade! Somos tão ou mais que o bacalhau. Revemo-nos nos nossos amados cães, mesmo que os abandonemos antes das férias que outrora foram grandes.
Também continuamos agarrados aos amigos de sempre, assim como às imperiais da marca esta ou aquela, aos tremoços que ainda não se pagam e à bica, complemento vitamínico e proteico para um dia de labuta.

E... parece-me que são os últimos estandartes dessa nossa verdade.

Repare-se, tudo começa quando mudamos de banco. De banco! Por acaso os nossos pais e avós mudaram alguma vez de balcão, quanto mais de banco? Sempre foram fiéis ao Sr. Lopes ou à menina Isabelinha, cumprimentavam todos os funcionários às nove da manhã e as portas estavam sempre abertas, mesmo após as 15h. Hoje, mudamos de banco mal se anuncia uma escalada de juros, independentemente deles próprios (banqueiros) fazerem tudo por tudo, com a constante mudança de gestores de conta, para que não nos sintamos muito à vontade.

Antigamente também fomos fiéis à marca de automóvel. Uma vez francês, toujour français. Uma vez inglês, always british. E por aí adiante, só para não ter de escrever em germânico. Hoje escolhemos a que oferece maior desconto ou mais extras. Nem que seja coreana.

Os petiscos, outrora simbologia nacional, também estão a ser postos de lado, não somente pelo aumento do preço e Iva, mas também porque não são salutares. Ou pelo menos, essa é a desculpa cordial que apresentamos aos demais convivas, quando sabemos que pagar aquela sapateira, os percebes, as entradas, as saídas e os acompanhamentos etílicos, vai fazer-nos mossa lá para o meio do mês.

Enfim, tantos casos que fazem parte de um passado recente, como a ida domingueira ao restaurante preferido da Ericeira para degustar o belo do peixinho fresco, o fim de semana no Algarve (onde ainda muitos têm casa mas já não têm dinheiro para a gasolina e portagens), os copos ao fim de semana pela noite dentro, a visita semestral ao dentista para toda a família, a prenda de aniversário mais especial e onerosa para o amado, um special weekend com english breakfast na cama, as delícias das prateleiras mais altas dos supermercados, e tanta, tanta, tanta coisa.

Mas existe ainda um hábito fiel que conseguiu uma extraordinária estoicidade ao longo dos últimos anos de constantes aumentos: a marca de tabaco! Os fumadores, cada vez mais olhados de soslaio e expulsos dos locais que sempre frequentaram, ainda olham para o seu maço com o logotipo preferido como se de um talismã se tratasse. Aguentam firmes e hirtos o aumento de ontem que rondou os 40 escudos, o de hoje que aumenta 30 e o de amanhã que promete encarecê-lo mais 50.

Era bom, não era?
Até os fumadores tiveram que se fazer à dose. Aliás, a outra dose. O do costume, para sempre guardado diariamente na banca da esquina, passou ontem a ser aquele de menos 10 cêntimos. Hoje, é aquele que custa menos 15 e, amanhã, escolhe-se o que estiver esquecido na prateleira e que ainda está ao preço antigo de anteontem.

E isto sim, demonstra o ponto a que chegámos, nobre povo que demos mundos ao mundo, mas que já não podemos dar mais nada a ninguém porque há ainda outra coisa que sobe mais que o tabaco: a gasolina.

E é melhor nem ir por aí. Nem podemos... porque temos o depósito mais que vazio.

2 comentários:

HM disse...

quanto mais te leio, mais gosto de ti!

João Gata disse...

olha que assim fico ruborizado :)